Arquiteturas exemplares: o conjunto Sulacap-Sulamérica

 Foto: Lucas Durães

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Exercer a crítica sobre o que está construído em nossas cidades é tarefa árdua. Para isso, me proponho a realizar neste espaço o esforço sugerido por Benedetto Croce de “nem julgar, nem buscar revelar talentos, mas de tentar evidenciar os princípios que regem as obras”. Acredito que, explicitando os princípios que geram as qualidades de edifícios e espaços públicos poderemos contribuir para aprimorar a visão de não arquitetos sobre a cidade. A ampliação de uma educação sobre a arquitetura e a cidade pode permitir que as demandas por maior qualidade possam ser aprimoradas e que nossos espaços de vida se transformem positivamente.

O arquiteto italiano Aldo Rossi diferenciava os edifícios em dois tipos: os monumentos e os edifícios-tipo. Os primeiros teriam a responsabilidade de representar a história e a cultura para as gerações futuras — aí podemos reconhecer os principais edifícios públicos como aqueles da praça da Liberdade, o Conjunto Arquitetônico da Pampulha, o edifício da Praça da Estação. Já os edifícios-tipo teriam a importância de conformar e melhorar a cidade, ao invés de se definirem como edifícios singulares. Essa seria a responsabilidade dos milhares de prédios que abrigam as nossas moradias e os espaços para o trabalho cotidiano. No entanto, pouquíssimos dentre estes são de fato comprometidos com a construção da cidade.

É exemplar neste sentido o conjunto Sulacap-Sulamérica, projeto do arquiteto Roberto Capello, construído em Belo Horizonte nos anos 40. O que torna este edifício exemplar? Não é a sua tecnologia construtiva — uma estrutura em concreto armado absolutamente convencional. Nem a qualidade de seus materiais de acabamento — ainda que sua execução seja primorosa, é um edifício cujos brilhos não seduzem o primeiro e desatento olhar. Nem tem ele 4 suítes e 4 vagas na garagem — apelos de mercado mais ligados ao consumo do que às necessidades cotidianas e aos nossos modos de vida.

A maior virtude do conjunto Sulacap-Sulamérica decorre do fato de que ele extrai da ordem que define a cidade as geometrias e espaços para a sua construção e, ao fazer isso, completa e melhora o espaço urbano. Você já passou pelo cruzamento entre as Avenidas Afonso Pena e Assis Chateaubriand? Essa esquina imaginária surgiu na cidade através da inteligência do arquiteto e da generosidade dos empreendedores deste conjunto que permitiram submeter a ordenação de seus edifícios a uma ordem maior, do público, completando e melhorando o espaço urbano e a paisagem da cidade.

Quem já passou pelo Viaduto de Santa Tereza e olhou para trás viu como o Sulacap-Sulamérica cria um belo pano de fundo para essa perspectiva, reforçando pela sua simetria a importância deste singular eixo urbano da cidade. Quem já caminhou pelas calçadas da Avenida Afonso Pena já se surpreendeu com uma inesperada vista do mesmo Viaduto através do intervalo criado entre os prédios, que já foi um dia uma bela praça que criava uma transição para seus hall’s de entrada e, mais importante, definia um intervalo público e aberto numa densa região da cidade, construindo de fato aquele cruzamento imaginário. Essa bela praça era bem conformada pelas extensões baixas do edifício que, com seus 4 andares, faziam uma transição de alturas, evitando a opressiva presença de um arranha-céu sobre o espaço aberto.

O Sulacap Sulamérica é ainda exemplar ao integrar originalmente, em um mesmo conjunto, moradia e espaço para o trabalho. Se todos os edifícios do centro fossem assim, híbridos, o esvaziamento e a consequente degradação das áreas centrais não teria avançado, pois haveria mais vida e uso público nas ruas e praças.

Falamos de uma arquitetura exemplar, que se opõe à regra. E qual seria essa regra? A regra tem sido a insensibilidade, que explora cada milímetro quadrado para extrair dele o lucro imobiliário, sem a mínima generosidade com a cidade e o lugar público. A regra, infelizmente, é representada neste conjunto pelo bloco inserido entre as torres, construído tardiamente sobre o que antes era uma praça, privatizando o que um dia foi um espaço público e aberto, para explorar meia dúzia de lojas e escritórios. A regra tem sido o esmagamento dos valores públicos pelos interesses privados. A regra tem sido a tentativa de fazer de cada edifício comum um espetáculo individual para expressar o poder e a riqueza de seus ocupantes. Com isso perde a cidade, que deixa de ser formada por uma sequência de inteligentes inserções de edifícios anônimos, mais comprometidos com a qualificação dos espaços públicos, como o Conjunto Sulacap-Sulamérica.

Autor
Arquiteto, mestre e doutor pela EAUFMG, onde sou professor de projeto, e sócio-fundador do escritório arquitetosassociados

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