O que ursinhos de pelúcia, WhatsApp e calotas polares têm a ver com educação infantil?

 

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Um café com EUgênia

Senta aí, fica à vontade, o café coado que pedi já está quase chegando! Engraçado encontrar você aqui, a vida realmente tem desses curiosos acasos…

Talvez você não me conheça… Sou Eugênia, entusiasta do altruísmo social e da liberdade criativa. Acredito que o segredo da autoconsciência e da responsabilidade social do indivíduo esteja na educação. Mas não nessa educação padronizada e centralizada que recebemos na maioria das escolas. Falo de uma educação essencialmente descompartimentada, que dá ao aluno papel de protagonista, estimulando autonomia e poder de decisão.

Outro dia, aliás, estive pensando sobre os rumos da educação no contexto escolar, num sentido mais amplo, abstrato. Quantos questionamentos passam pela minha cabeça…

Muito curioso imaginar que alguém com menos de 18 anos provavelmente não tenha conhecido o mundo sem a internet, essa grande “faca de dois gumes”. Ao mesmo tempo em que abre um inédito mundo de possibilidades, a web aliena e afasta o aluno de seu processo de aprendizagem, principalmente quando pensamos a educação como um caminho para o desenvolvimento de habilidades cruciais para nos orientarmos em uma atmosfera de hiperativas mudanças, falta de envolvimento interpessoal e progressivas distrações. Penso que uma forma de atenuar o caos nessa brava e desvairada correnteza virtual pode ser pensada a partir da interessante sistemática do “foco triplo” concebida por Daniel Goleman e Peter Senge. São eles: o foco interno, o foco no outro e o foco externo.

O primeiro foco, de Goleman

O primeiro foco — o interno — traz a ideia de nos voltarmos para nós mesmos, nos conectarmos com nosso senso de propósito, com nossas genuínas aspirações, tentando nesse processo compreender nossos sentimentos e como agir em relação a eles. Essa noção é justamente o ponto de partida para, desde a primeira infância, nos despertamos para uma vida tomada de significado, para se concentrar na tarefa que nos demanda atenção naquele momento imediato e, principalmente, para gerir emoções inquietantes que, por vezes, nos impedem de executar essa tarefa específica com excelência.

Os chamados por Goleman de “psicólogos do conhecimento” têm como primordial função estimular nossa capacidade de testemunhar a própria mente, nos tornando aptos a compreender pensamentos e sentimentos a partir de um difícil  trabalho em nosso córtex pré-frontal, parte do cérebro humano responsável pela tomada de decisões. Isso impede que emoções perturbadoras e impetuosas, como raiva e ansiedade, que fluem de circuitos inferiores do cérebro, se imponham sobre a nossa lucidez e equilíbrio.

Existe uma experiência pedagógica, conhecida como “amiguinhos da respiração”, que ilustra bem essa ideia. Em sessões diárias vividas em uma escola do Harlem hispânico, em Nova Iorque, as crianças do segundo ano inauguram o dia com uma dinâmica em que, após pegarem seu bicho de pelúcia favorito, elegem um campo da sala, se deitam e colocam o amiguinho sobre a barriga. O objetivo é fazê-las observar o movimento de subida e descida do bicho de pelúcia enquanto inspiram e expiram contando de 1 a 4. O processo dura alguns minutos, o que é suficiente para exercitar os circuitos da atenção e foco de maneira efetiva, proporcionando efeitos, como calma e concentração, que os acompanham pelo resto do dia. Percebeu-se, assim, que essa simples dinâmica tornou as crianças aptas a compreenderem de forma mais clara seu universo interno e controlarem suas emoções em inevitáveis momentos de agitação.

Crédito: Infinite Kids Yoga

É o comumente denominado controle cognitivo, que percorre o tal córtex cerebral e age como centro executivo da mente, que possibilita resistir às distrações e inibição dos impulsos prejudiciais, postergando a gratificação na busca das metas. Assim, quanto maior o controle cognitivo, mais preparadas para aprender as crianças estão.

O segundo foco, de Goleman

O segundo foco — o foco no outro — diz respeito à empatia, que fomenta compaixão e capacidade de trabalho em equipe, estimulando retroalimentação emocional. Aqui, entra a chamada “preocupação empática”, desdobramento cerebral que sintoniza o ser com a intenção de ajudar o outro, fornecendo base para o que foi apelidado pelos estudiosos da área de “classe afetuosa”, em que o professor demonstra bondade e preocupação com seus alunos, encorajando a mesma atitude da parte deles.

Tal cultura em sala de aula proporciona melhor atmosfera para o aprendizado, tanto cognitivo, quanto emocional, já que embasada em uma sensação de segurança de que estamos sendo apoiados e ajudados, em um ambiente de proximidade, de conexão.  Afinal de contas, os vínculos afetivos são alicerces fundamentais ao bom desenvolvimento da criança! Assim, quando o interesse é mútuo, a base de aprendizado torna-se segura, fazendo com que a mente sinta-se à vontade para fluir e estimulada a operar no máximo de sua capacidade.

Nesse ponto, chamo sua atenção para o início da nossa conversa, quando questionava a internet e toda nossa submissão aos dispositivos eletrônicos. É que os circuitos sociais e emocionais do cérebro dão “tilt” quando estamos online, já que nosso projeto neurológico espera interações cara a cara, não através de e-mail ou WhatsApp. Quando estamos frente a frente, parte do cérebro está espontaneamente interpretando milhares de mensagens, dizendo o que fazer em seguida para manter a interação viva e funcionando devidamente. Tal feedback não se faz presente pela rede virtual. Daí um fenômeno surge: a “cyber-desinibição”, que nada mais é que o descontrole emocional, um sequestro das emoções, quando se clica “enviar”.

A mensagem de texto, às vezes escrita de forma leviana ou descuidada, acaba atingindo o destinatário de modo inesperado e até agressivo, podendo ser interpretada equivocadamente por aquela pessoa, com diferente entonação da pretendida, de acordo com suas concepções e impressões de vida, por vezes não condizentes com a real intenção do interlocutor. O cara a cara, por sua vez, proporciona o ajuste das respostas à reação da pessoa, o que é impossível antever no meio virtual. É aí que a empatia entra: estar atento ao real sentimento que será despertado na pessoa ao ler aquela mensagem.

Crianças ao celular
Crédito: Howard County Library System

Eis o paradoxo da tecnologia. Ao mesmo tempo em que aproxima o indivíduo do mundo, trazendo uma infinidade de informações e estímulos, pode afastá-lo do próprio processo de interação interpessoal que garante a conexão com o outro, inclusive aquela que deve existir com o professor. Assim, o cuidado deve ser redobrado ao introduzir formatos tecnológicos no contexto educacional nos dias de hoje, pois, ainda que indissociáveis do processo de aprendizado— como ferramenta de aprofundamento diante dos conteúdos cada vez mais qualificados ofertados online — devem respeitar e jamais substituir as interações humanas que os jovens necessitam.

O terceiro foco, de Senge

O terceiro foco — o foco externo — pode ser entendido como a compreensão que se tem acerca do mundo em sua vastidão e amplitude. Diz respeito ao modo como os sistemas se comunicam e criam redes de interdependência, gerando interações que se manifestam em diversas escalas, inclusive dentro das escolas, as quais são justamente o objeto da nossa conversa.

A denominada “consciência sistêmica” nasce da necessidade de compreendermos a “Era Antropocênica”, definida pelos geólogos como o momento histórico em que, pela primeira vez, as atividades humanas começaram a ter um impacto global significativo no clima da Terra e no funcionamento dos seus ecossistemas. Do ponto de vista científico, nossos cérebros eram programados para sobreviver durante as eras geológicas mais antigas, despertando apenas quando as ameaças repentinas traziam descargas de adrenalina.

Na nova realidade do Antropoceno, em que as mudanças são demasiadamente macroscópicas ou microscópicas para nossa percepção, o cérebro não se toca. Como não somos capazes de perceber instantaneamente as consequências negativas de hábitos em maior escala — como o modo que produzimos energia, conduzimos a construção civil, propiciamos o transporte e direcionamos a indústria —  é fácil simplesmente ignorá-las ou fingir que não estão acontecendo, afinal, é aos poucos e de forma sorrateira que elas vão se revelando extremamente prejudiciais.

O ensino que porventura envolvesse noções a respeito desse panorama, certamente geraria uma consciência estudantil acerca dessas inevitáveis e avassaladoras consequências, propiciando tomadas de decisão mais conscientes. Arrisco dizer que questionar os sistemas dominantes preestabelecidos e que permeiam nosso cotidiano de forma imperceptível é ponto de partida para um educar além do acadêmico, atingindo uma consciência coletiva de como a destrambelhada ação humana vem afetando nossa existência, no sentido mais puro da palavra. A partir disso é que nossos jovens enfrentarão a vida com maior preparo para tomar decisões que sejam satisfatórias para eles, benéficas para os outros e gratificantes para a Terra.

Crédito: Khuroshvili Ilya

Numa experiência mais local, como numa escola, a consciência sistêmica se manifesta em, desde como todo o lixo produzido em larga escala retornará de forma saudável ao ambiente, até a forma em que, dentro da sala de aula, discussões e projetos que envolvam impacto ambiental serão tratados. Isso faz com que os alunos sejam estimulados para que, de forma participativa, como num diálogo aberto, forneçam insights genuínos para questões complexas sobre as quais realmente se interessam pelo simples fato de coabitarem o planeta.

E essa história vai muito além da preocupação ambiental. A inteligência sistêmica é, na realidade, uma das chaves mais essenciais para uma projeção intelectual efetiva no contexto educacional, se manifestando no exato ponto em que as ferramentas disponíveis e as habilidades do aluno passam a interagir entre si. Sem as ferramentas utilizáveis para dar vazão à inata inteligência sistêmica, esta, naturalmente, jamais se revela no plano da realidade. É como uma criança que nasce com aptidão para tocar música, mas não tem acesso a instrumentos musicais.

Partindo desse pressuposto, surgem hábitos que devem ser seguidos pelos educadores para despertar a noção do aluno com o mundo externo que habita e suas implicações. Dentre esses hábitos, estão: enxergar o cenário da forma mais ampla possível; reconhecer que a estrutura de um sistema gera um comportamento específico; mudar as perspectivas para aumentar a compreensão sobre uma dada questão; descobrir onde as consequências não intencionais emergem no processo de aprendizagem; considerar uma questão de forma mais profunda e resistir ao impulso de chegar a uma rápida conclusão; trazer a tona e testar hipóteses; verificar resultados e, a partir deles, mudar ações e etc.

Tais hábitos, se realmente introduzidos pelos educadores nas salas de aula, vão ajudar os alunos a focar nas suas habilidades de pensamento mais profundas, identificando, por consequência, aptidões inatas que poderão ser, desde já, estimuladas e desenvolvidas, gerando, além da própria satisfação pessoal daqueles que as executam, imensurável benefício à comunidade estudantil.

Resumindo a história

Se uma criança puder acalmar suas emoções conflitantes, conseguirá focar nas tarefas com maior clareza (foco interno). Se, a partir daí ela adota uma postura empática, abrindo suas perspectivas para os sentimentos dos outros, passará a ter maior consideração pelo próximo, cultivando vínculos interpessoais mais sadios (foco no outro). A equação se completa com os hábitos do pensamento sistêmico (foco externo), que, se adotados por aqueles que ensinam, possibilitam aos nossos pequenos compreender de forma mais abrangente as dinâmicas humanas e obter as ferramentas para convalidar aptidões inatas, tornando-os alunos autônomos, conscientes e propícios a tomar decisões éticas e acertadas ao longo da vida, não só em relação ao rumo da carreira profissional, mas também, e principalmente, na sua própria construção enquanto “ser social”.

Uau! Como o tempo passou rápido! Nossa conversa mal começou, mas infelizmente tenho que ir… Mas ó, volta qualquer hora que ainda temos muito que falar sobre esse assunto. Da próxima prometo que, além de  boa prosa e café, vai ter bolo de banana!

Autor
Cresci cheia de perguntas sem nunca me convencer das respostas. Minha teimosa curiosidade e alma inquieta sempre me fizeram questionar o mundo e a forma como me ensinaram a enxergá-lo.  Desde esse tempo, aliás, flerto com a "Educação", questionando suas fórmulas comportamentais e acompanhando o movimento criativo que gira em torno das mudanças nesse espaço. De Cecília Meireles a Paulo Freire, da tabuada decorada da professora do primário às longas prosas nos cafés da tarde com o Vovô, sou um todo fragmentado, inteira na minha incompletude e certa de que a vida é mesmo feita de trocas: de afeto e de conhecimento.  Hoje, Eugênia, (re)construo o mundo sob a minha ótica - por vezes, meio míope – e o pincelo com minhas cores. Se meus devaneios e reflexões tocarem ao menos um de vocês, já terá valido a viagem.

2 thoughts on “O que ursinhos de pelúcia, WhatsApp e calotas polares têm a ver com educação infantil?

    1. Olá Rafael! Gratidão pela mensagem! Fico muito feliz que tenha gostado do texto e, ao mesmo tempo, empolgada, pois tem muito por vir!
      Ainda não há previsão para nossa participação em rodas de conversa sobre o assunto, mas é algo que está nos nossos planos para o próximo ano!
      Vai ser demais conversarmos, refletirmos e contribuirmos para esse novo modelo de educação juntos!
      Continue nos acompanhando que daremos notícias!
      Um abraço!

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