7 de junho

quarta-feira

19h30 — 21h30

horário


Massa e Vinho incluídos!


GUAJA

Afonso Pena 2881

40 participantes

máximo


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Urbanismo Merlotdramático é uma série de encontros mensais para se discutir urbanismo comendo e bebendo. Na primeira edição, vamos conversar sobre os movimentos artísticos que se apropriam do espaço urbano e sobre como caminhar é ocupá-lo com o corpo. Um evento delicioso para interessadas em pensar a cidade entre uma taça de vinho e outra.

Caminhar pela cidade: cotidiano, vanguardas e espetáculo

 Na modernidade, caminhar significa enfrentar muitos medos: medo de estar na cidade, medo de infringir normas ao usar o espaço público, medo atravessar fronteiras e territórios desconhecidos, medo do encontro com o outro e da ameaça que ele parece ser a nossa segurança.
 
Caminhar pela cidade dá medo, logo, não se caminha mais. Daí a questão apocalíptica: como serão as cidades produzidas por pessoas que têm medo da rua? Nota-se que nas Escolas de Arquitetura entende-se tudo sobre teoria e sociologia urbana, formam-se especialistas em cidades sem, no entanto, que essas pessoas vivam a experiência de ocupá-la no dia-a-dia.
 
Torna-se indispensável entender onde começaram os movimentos artísticos que decidiram colocar seus corpos no espaço de maneira crítica. Então, vamos discutir o conceito de cotidiano na tentativa de compreender o porquê dessa dimensão da realidade ser significativa para a apropriação política e para a potencialização da experiência estética no contexto da cidade e também para percebermos o isolamento e a alienação como parte de uma estratégia de controle sobre os corpos em uma sociedade orientada pelo consumo.
 
O cotidiano é condição para a experiência vivida em nível ordinário. Vamos discutir alguns elementos encontrados na obra de autores críticos à alienação, condição típica da modernidade, vista através da vida diária. O objetivo é investigar argumentos teóricos relacionados a experiências cotidianas que inspiraram movimentos culturais e artísticos que se posicionam contra a condição de alienação e racionalização da vida.
 
O espaço serviu de estímulo para as deambulações surrealistas, caminhadas sem percurso ou objetivo determinado realizadas em lugares desabitados localizados nas periferias de cidades francesas. Essa prática associa a experimentação espacial dos limites físicos das cidades à exploração das fronteiras mentais do inconsciente. A partir do caminhar surrealista, aberto ao encontro do inesperado, entendeu-se a importância de realizar a ação estética sobre o espaço cotidiano.
 
Para os surrealistas, o interesse de realizar esse caminhar errante surgiu de uma excursão dadaísta que havia acontecido em 1921, que teve como intuito superar o niilismo e a exaltação da banalidade defendido pelo Dadá. O encontro dadaísta em Saint-Julien-le-Pauvre é significativo pois iniciou a prática do passeio sem rumo por lugares cotidianos e, a partir dele, entendeu-se a importância de realizar a ação estética sobre o espaço cotidiano em vez de insistir na tentativa de representá-la por outros meios e suportes artísticos.
 
Décadas depois, na Europa, os jovens da Internacional Situacionista se organizavam em derivas urbanas que pretendiam a apropriação do corpo e da cidade por meio de caminhadas que atravessavam fronteiras de bairros e de pensamento. O grupo propunha jogos coletivos a serem vividos na cidade, trazendo o desafio de contestar as regras políticas e sociais para a escala urbana.
 
Guy Debord, um dos líderes do movimento Internacional Situacionista, desenvolve então o conceito de Sociedade do Espetáculo, em que os indivíduos em condição alienada agem mais como espectadores do que como atores na própria vida. É fundamental perceber o divertimento e o consumo como condição essencial do espetáculo e a consequência disso no modo de perceber a cidade, sempre mediada por imagens e pelo consumo de mercadorias. Sob esse aspecto, os indivíduos contemplam imagens em detrimento da experimentação sensorial dos acontecimentos da vida. Assim, se no primeiro estágio da evolução histórica da alienação o ter passou a ser mais importante do que o ser, na contemporaneidade o parecer ter se torna a essência das relações sociais.
 
Ao discutir o avanço histórico da importância de caminhar pela cidade, vamos ampliar a conversa para nossa vivência atual, permeada de aparelhos e redes sociais digitais, para colocar em evidência a necessidade de despertar dessa hipnose alienadora, que direciona a nossa atenção para o consumo em detrimento da experiência plena da cidade. Ao criticar as estratégias arquitetônicas e urbanísticas que reproduzem as relações de controle e de isolamento e que enxergam a cidade como a justaposição de lugares para o consumo, é essencial passar a percebê-la como lugar antagônico ao isolamento. A cidade permite o encontro entre as pessoas e, ao ocupá-la com o corpo e caminhar por suas ruas, nos colocamos política e esteticamente contra a rotina de alienação difundida pelo espetáculo.

Quem vai conduzir essa experiência?

Laura Castro

Mestre em Arquitetura e Urbanismo, atua como professora do Departamento de Análise Crítica e Histórica da Arte, da Arquitetura e da Cidade da Escola de Arquitetura, Urbanismo e Design da UFMG.

 

Observações

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