A vez delas na barbearia: lugar de mulher é onde ela quiser

 

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Como um mercado exclusivamente voltado para homens incentivou Fran Dias a empreender uma barbearia inovadora e comandada por mulheres

Bicicletas no teto, freezer com cervejas para os clientes, barris na decoração… talvez você já saiba que esse é o cenário de uma barbearia, mas o que nem imagina é que somente mulheres trabalham aqui. Desconstruir a ideia de que esse é um ramo unicamente masculino é a grande intenção de Fran Dias, 29, barbeira e proprietária da Mulher Barbeira. A loja, localizada na tradicional Rua do Ouro, no bairro Serra, em Belo Horizonte, chama atenção já do lado de fora, e recebe clientes de todas as idades, homens.

“Como existiam várias pessoas com projetos parecidos com o meu, precisava de algum diferencial. E já que não quiseram me dar emprego por eu ser mulher, decidi abrir minha própria barbearia, onde trabalhariam somente mulheres”. E foi assim, se inserindo em um mercado tradicionalmente masculino, que, em 2016, Fran deu origem à primeira barbearia do Brasil em que os clientes são atendidos exclusivamente por barbeiras.

Fran Dias, proprietária da Mulher Barbeira. Foto: Felipe Faria (GUAJA)

Mas a decisão que levou Fran a trilhar o caminho da barbearia não foi fácil, nem rápida. Ela se formou como técnica em segurança do trabalho e, embora a função estivesse lhe dando um bom retorno financeiro, não trazia o que ela mais almejava: felicidade e a certeza de estar no caminho certo. Da falta de realização, desenvolveu-se um quadro de depressão, que se agravou ao longo de 2013. Ao procurar respostas — com acompanhamento médico e dentro de si mesma —, a moça descobriu que a doença foi, de fato, decorrente de sua insatisfação profissional e, então, partiu para uma busca de algo que realmente a fizesse feliz.

Paixão que vem da infância

“Deve haver alguma coisa que eu goste de fazer nessa vida. Não é possível que eu vá morrer insatisfeita com meu trabalho”. E, em um momento que Fran denomina insight espiritual, no qual revisitou memórias de sua infância, uma ideia brotou em sua mente e tomou seu coração: cortar cabelos masculinos, é claro, como fazia desde os 10 anos de idade.

Ela conta que, em Timóteo — cidade do Vale do Aço onde morava com sua família —, sempre observava um de seus tios, barbeiro, cortando o cabelo de todos os parentes, durante os almoços de domingo na casa da avó. “Era frango assado, macarrão e tesoura na mão”, recorda. Foi quando ganhou sua própria tesoura que a paixão começou a tomar conta: passou a cortar o cabelo do vizinho, do pai do vizinho, do primo… e, sem que imaginasse, já tinha sua clientela formada. O preço? De 3 a 5 reais.

Atendendo o pequeno cliente Pedro. Foto: Felipe Faria (GUAJA)

“A gente aprende que trabalho faz sofrer e deixa a gente triste. Então, eu achava que, como me sentia feliz cortando cabelos, isso não seria o meu trabalho, e não seria justo cobrar.”

A questão do gênero na profissão

Além de perceber a atividade apenas como hobby, Fran nem ao menos considerou buscar formação nessa área, já que apenas homens trabalhavam em barbearias. “Eu pensava que, se quisesse trabalhar cortando cabelos, deveria me especializar em cortes femininos e atender mulheres, afinal, era o que mandava a regra. Vivi um conflito muito grande aos 17 anos para decidir minha profissão, e ser barbeira sequer passou pela minha cabeça.”

Porém, em determinado momento da vida, a ânsia por um trabalho que de fato lhe fizesse feliz superou as imposições sociais que a impediam de seguir seu coração. Fran, trabalhando até então como técnica em segurança do trabalho, estava decidida: mudar não é uma opção, mas uma necessidade. Depois de rodar por Minas Gerais, Espírito Santo e Acre, foi correr atrás de uma especialização em barbearia e cabelos masculinos, para, finalmente, dar início à concretização de um sonho que já estava completamente idealizado. Ao concluir o curso profissionalizante em Belo Horizonte e sair da empresa onde trabalhava, Fran mudou-se de vez para a capital. “Eu percebi que muitas barbearias estavam sendo abertas, então fui procurar emprego antes de abrir meu próprio negócio, mas ninguém queria me dar emprego. Ninguém tinha confiança, por eu ser mulher.”

E, se da depressão Fran teve o insight do caminho a ser seguido, da falta de oportunidade nasceu a motivação para romper com padrões do mercado e empreender de forma inovadora — mantendo-se fiel aos seus valores e fortalecendo a luta das mulheres. Mais do que um empreendimento, a Mulher Barbeira representa um objeto de transformação social, que se traduz como um produto que dá visibilidade ao movimento de empoderamento feminino.

Ela conta que, durante esse passo decisivo do seu negócio, o medo tomou conta, quase a fazendo desistir. “Eu sabia que não tinha todo o dinheiro necessário para o empreendimento, mas, para não ceder ao medo, fiz pesquisas de mercado e comecei a projetar a loja do lado de fora, junto a um amigo arquiteto, antes mesmo de alugar o ponto.” A jovem empreendedora tinha previsto gastar 30 mil reais, por fim, gastou 90 mil. “No meio da obra eu contava apenas com o capital de giro, e foi preciso usá-lo também”, conta.

Foto: Felipe Faria (GUAJA)

Fran não conseguiu nenhum investidor: “ninguém queria sonhar o meu sonho comigo”, mas persistiu e, em 6 de junho de 2016, após rápidos 34 dias de obra, inaugurou a Mulher Barbeira. A concretização do seu sonho veio como prova de sua força, mostrando que as mulheres vão, sim, ocupar cada vez mais funções que, culturalmente, são destinadas aos homens.

O nome Mulher Barbeira, que atrai muitos clientes por si só, vem como forma de ressignificar o rótulo de más motoristas dado às mulheres. Além disso, é a identidade de Fran: “Eu sou a mulher barbeira e, enquanto eu existir, vou lutar para que seja cada vez mais natural encontrar mulheres nessa profissão.”

Crescer, crescer e crescer…

Hoje, a barbeira conta que a satisfação do público é muito boa. “A recepção é ótima e eles saem daqui com as expectativas superadas, justamente porque muitos chegam desconfiados, querendo tirar a prova de que meu trabalho pode ser tão bem executado ou até melhor que de um barbeiro. É um serviço de contato e proximidade, e tem sido surpreendente para mim”, relata.

A Mulher Barbeira fica à Rua do Ouro, 407. Foto: Felipe Faria (GUAJA)

Trabalhando ao lado de outras duas barbeiras, Carol e Júlia, Fran está feliz e cheia de novos planos. Dentre suas expectativas estão a abertura de uma nova sede em Belo Horizonte e uma expansão sazonal da barbearia para cidades do interior. Além disso, ela pretende diversificar os serviços prestados. “Realizada, mas nunca conformada. Sempre em frente”, finaliza.

 

Autor
A paixão pela palavra — escrita, falada ou não-dita — fez de mim jornalista e publicitária pela UFMG. Nos encontros me redescubro, nos desencontros me reinvento e nas experiências me multiplico e inspiro para ir sempre além. Deixo um pouco de mim em tudo o que faço, e levo um pouco de tudo dentro de mim.

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