A luta me pariu

 Foto: Filme Tully, 2018

Receba artigos sobre diversidade semanalmente em sua caixa de entrada!

×

Em um quarto branco, uma mulher com pijama de seda coloca música clássica. Em seu colo, um bebê, com bochechas aveludadas, sorri docemente. A mulher tira o seio e amamenta. Ela toca a face da criança enquanto sente o privilegiado amor maior do mundo.

O quarto não é branco, o pijama não é seda, a fome do bebê não espera música clássica e o maior amor do mundo não existe.

A mãe falha. Tem raiva, medo, angústia, vaidade. A mãe sente.

Mães são mulheres e, acredite, o patriarcado nos faz esquecer o óbvio. O papel social da mãe é muito mais pesado do que uma propaganda da década de 90 faz parecer. A maternidade que a gente conhece é machista e talvez isso já não seja novidade para você.

Não era para mim e, mesmo assim, doeu.

O patriarcado é perverso, sabemos bem, mas, para as mães, ele é cruel. Vestido de opinião alheia, faz com que você se sinta fracassada se o bebê não dorme a noite toda, se fica doente, se não quer comer, se não sorri para as visitas, se come doce antes do almoço, se o pai não ajuda.

Não. O pai não ajuda. O pai cria também.

É tão peculiar tratarmos como privilégio o que deveria ser a regra. O homem ser parabenizado por trocar fralda ou acordar de madrugada é tão incoerente quanto alguém ser ovacionado por ser honesto. Não sei você, homem que me lê no outro lado da tela, mas o machismo subestima muito a sua capacidade. E superestima a capacidade da mãe. Explico.

O leite materno é o alimento exclusivo da criança nos primeiros seis meses segundo a OMS,Organização Mundial de Saúde. Não tem água, não tem chá, não tem nada além do aleitamento materno. É o peito da mamãe ou a criança morre de fome. Em paralelo, a licença maternidade dura quatro meses.

A conta não fecha.Como uma mulher voltará ao trabalho se precisa amamentar por mais dois meses no mínimo?

Cerca de 30% das mulheres não sabem essa resposta e deixaram seus empregos quando a licença expirou em uma pesquisa realizada pela Catho.Os dados mostram ainda que 21% das mulheres levam mais de três anos para retornarem ao trabalho. E quando retornam, se conseguirem uma oportunidade, o salário é menor. Se isso não incomoda você, homem ou mulher, tem algo errado nisso aí que bate dentro do seu peito.

Bom, nem só de notícias ruins vive uma mãe. Ainda bem.

Enquanto o machismo insiste em arrancar esse sorriso besta de orgulho da cria, contamos com
iniciativas que provam como somos incríveis quando estamos juntas. Projetos como Contrate uma Mãe, primeiro banco de talentos para recolocação profissional de mães, seguem a contramão dessas estatísticas.

Pois é, a mãe falha, a mãe sente e, principalmente, a mãe tenta. Quando um filho nasce, nasce também uma feminista.

Não peço desculpa
Pela minha cara fechada
Minha boca amarrada
Mordendo meu não
Não peço desculpa
Pelo meu útero vazio
Meu fio a fio
Sangrando em vão
Não peço, peco
Meto a colher
Cuspo em machismo gentil
Confesso, em eco
Mostro a mulher
Da luta que pariu

Ps. do amor: a imagem que ilustra este texto é do filme Tully, uma dica da Hel Mother. Se você não conhece nem o filme e nem a Hel, fica a dica dupla ❤️

Autor
As histórias me escorrem pelos dedos num plural que não caberia na primeira pessoa. Não poderia me limitar ao eu se me vejo nas memórias do outro, tão espelho, tão nós. Nas esquinas tortas dos outros, na contramão do óbvio, me vi escritora, tão obediente às palavras quando nós somos às histórias do que queremos ser. Da redatora graduada em Publicidade (Unibh) e em Letras (UFMG), tão habituada em transformar marcas em pessoas (Petrobras, Direcional Engenharia, Grupo Seculus, Itambé e, hoje, MaxMilhas), sou recém-nascida das palavras pela publicação do meu primeiro livro: Controverso – Histórias que Beliscam.

Share the love.

Se este artigo te fez lembrar de alguém, mostra pra elx!

  1. Oi Luana!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    Essa ai sou eu, filho com quase dois meses de nascido e não, as feridas não cicatrizaram ainda,quando uma sara, lá vem outra, me mostrando que quem manda aqui não sou eu, rsrsrrsrs.

    Risos , de nervoso….super identifiquei no texto, deve ser compartilhado, gritado a sete ventos…..

    E as duvidas????????Ah, sempre elas, profissionais, pessoais…para que tanto tempo para pensar, não é mesmo?

    Obrigada pelo texto….

  2. Ai, Carolina! Ser mãe também é estar em rede, conectadas, juntas, unidas para suportar essa nova realidade e espantar essa solidão de autoconhecimento. Obrigada pela gentileza em comentar <3

Para comentar você deve ter uma conta—só leva um minuto:

fazer login ou registrar-se