A Próxima Vítima: Os crimes do Brás e o medo de que nada mude

 

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por Felipe M. Guerra

Separados por um oceano e quase um século, Jack, o Estripador e o Maníaco do Brás têm muito em comum. Os dois assassinos seriais mataram prostitutas em bairros pobres (Jack na Whitechapel de 1888, na periferia de Londres; o Maníaco, no bairro paulista do Brás de 1982) considerados “antros de imoralidade”, pela alta criminalidade e prática de prostituição. Ambos abalaram o status quo em suas respectivas épocas (marcadas pelas próprias tensões sociais), atraindo a atenção da opinião pública pela imprensa, que cobrava ação da polícia. E tanto Jack quanto o Maníaco do Brás desapareceram sem que se soubesse suas identidades.

Mas se Jack, o Estripador virou lenda que até hoje inspira livros e filmes, o “nosso” Maníaco do Brás já teria sido esquecido se não fosse por A Próxima Vítima, um belo thriller policial dirigido por João Batista de Andrade em 1982 e lançado no ano seguinte.

À época, o cinema policial brasileiro já buscara inspiração na crônica policial em títulos como O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla, e Ato de Violência (1980), de Eduardo Escorel – este, baseado em outro serial killer nacional, Chico Picadinho.

O diferencial de A Próxima Vítima para estas e para as diversas produções estrangeiras sobre assassinos em série é que João Batista não se limitou a retratar o psicopata e suas vítimas, preferindo usar o personagem real como pano de fundo para analisar o contexto social e político do período – anos antes de filmes norte-americanos como O Verão de Sam (1999), de Spike Lee, e Zodíaco (2007), de David Fincher, fazerem o mesmo.

O verdadeiro Maníaco do Brás cometeu seus crimes entre abril e maio de 1982. Como Jack um século antes, as vítimas eram prostitutas mortas ora a punhaladas, ora asfixiadas. No quarto de hotel que foi cena de um dos crimes, ele deixou uma mensagem na parede anunciando suas próximas vítimas.

Embora alguns desses elementos apareçam no filme, não era exatamente o modus operandi do psicopata que interessava ao diretor de A Próxima Vítima. “Eu não queria fazer um filme sobre o Assassino do Brás”, explicou João Batista, em depoimento ao autor. “O que me chamou a atenção foi que havia este mito dos assassinatos no Brás na crônica policial e, certo dia, um policial entregou a um repórter a foto do suposto assassino, e esta foto foi para a TV. Apareceu até no Fantástico. Quando eu vi aquilo fiquei espantadíssimo porque percebi a loucura que era. Quer dizer, o policial dá a foto de um suspeito, o sujeito põe no ar e pronto, aquele suspeito está morto e podem alegar que ele era o assassino”.

Além disso, em 15 de novembro daquele ano seriam realizadas as primeiras eleições diretas para governador de Estado após quase duas décadas do país sob o comando dos militares. Em São Paulo, Reinaldo de Barros era o candidato da situação (pelo PDS, partido sucessor da Arena que depois viraria PP), enquanto Franco Montoro (PMDB), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jânio Quadros (PTB) representavam a oposição e a esperança da renovação.

A volta da democracia foi o estopim de uma autêntica guerra. As manchetes dos jornais da semana que precedeu a eleição dão uma ideia do clima turbulento: “Assaltado comitê no ABC”; “Filho de Brizola sofre espancamento”; “Candidato assassinado no Nordeste”; “PT impede o comício peemedebista”.

Ou seja, se o Maníaco do Brás tivesse cometido seus crimes em meio a esse caos, e não mais cedo naquele mesmo ano, é possível que tivesse sido ignorado pela imprensa. E João Batista brinca com essa ideia, tomando a liberdade poética de situar a ação do assassino em meio às eleições de 1982.

“Comecei a pensar o filme pelo momento que a gente vivia”, explicou o diretor. “Entrei no PMDB para tentar fazer dele um partido de oposição. Para mim, [a eleição de Montoro] era fundamental para consolidar a reabertura, um governador de oposição numa área como São Paulo criaria um núcleo democrático. Comecei a ligar aquele momento, aquela miséria toda, com algo que eu achava que a oposição não estava vendo. A oposição ficava no terreno do jogo da política tradicional, e eu tinha a percepção de que o Brasil era muito mais complexo do que aquilo. Acabei costurando o filme com estas duas ideias”.

Escrito por Lauro César Muniz a partir de argumento do diretor, A Próxima Vítima começa com o jornalista David Duarte (interpretado por Antonio Fagundes) recebendo uma pauta que ninguém quer: as mortes de prostitutas no Brás. Ele não é repórter policial, mas seus colegas estão ocupados com os comícios e todos concordam que “a única coisa que interessa são as eleições”.

A imprensa batizou o maníaco de “Vampiro do Brás” (alcunha inventada para o filme), e, enquanto investiga para sua reportagem, o protagonista se envolve com uma realidade miserável, povoada por prostitutas, cafetões e policiais corruptos. Seu guia neste estranho novo mundo é Guido (o saudoso Gianfrancesco Guarnieri), um descendente de italianos que atua como cafetão, dentista “prático” e informante da polícia. E, num hotel miserável, David conhece Luna (Mayara Magri, em sua estreia no cinema), uma jovem prostituta, menor de idade, com quem se envolve – e que logo será marcada para morrer pelo “Vampiro”.

Também cruza o caminho do repórter o delegado Orlando (Othon Bastos). Incapaz de solucionar os crimes, ele resolve acalmar a opinião pública forjando seu próprio culpado, um marginal inexpressivo conhecido como “Nego” (Aldo Bueno). O irmão do suspeito (João Acaiabe) resume o porquê da escolha: “Faltou bandido para mostrar, é só achar um negro e aí fica tudo certo”.

É quando o filme dramatiza aquele episódio verídico que inspirou o diretor: Orlando entrega a David uma fotografia do “suspeito”, e a exibição da imagem em rede nacional faz com que um inocente seja caçado. Arrependido, o repórter corre contra o relógio para salvar Nego, ao mesmo tempo em que tenta proteger Luna do verdadeiro assassino.

Mas o destino de todos já está traçado enquanto o povo celebra, nas urnas, a vitória da oposição e o início de “novos tempos” – num desfecho que dialoga com um filme anterior de João Batista, Doramundo (1978), em que os assassinatos numa pequena cidade dos anos 1930 são esquecidos com a inauguração de um campo de futebol.

Existem dois “Brasis” em A Próxima Vítima. Um é o Brasil em polvorosa com as eleições, sempre mostrado à luz do dia; alegre, colorido, com comícios repletos de militantes e muita fé na mudança. O outro é o Brasil “subterrâneo”, do medo e da impunidade, representado pelo Brás à noite.

São usadas incríveis imagens filmadas durante a verdadeira eleição de 1982: Lula, Jânio e Brizola na TV, Ulysses Guimarães e Milton Nascimento num comício, e até o “Cavalo de Tróia”, um impresso clandestino real que tentava sabotar um dos candidatos. E o chefe de redação da TV onde David trabalha é o famoso jornalista Goulart de Andrade, interpretando ele mesmo. Com isso, o filme ganha estilo e visual de documentário. O eclético diretor de fotografia Antonio Meliande – que trabalhou tanto com Khouri quanto com Mojica, e dirigiu pornôs na Boca do Lixo – contribui com a câmera sempre em movimento que registra pessoas reais em ruas reais, seguindo o protagonista por becos escuros, hotéis fuleiros, bares e inferninhos.

Embora enfoque as eleições, João Batista não caiu na armadilha de imprimir sua própria visão política à obra. Em uma entrevista para a Folha de São Paulo na véspera da estreia do filme, em novembro de 1983, ele explicou: “Como cidadão, estive mergulhado nessas eleições, convencendo os amigos da importância de votar e de lutar pela vitória da oposição. Meu filme, porém, não é sobre as certezas que eu tinha, e sim sobre as dúvidas”.

Em depoimento ao autor, Andrade confirmou: “Eu tinha certa dúvida sobre a capacidade de a oposição conduzir bem o Brasil com a reabertura. Tem uma cena no filme em que o Fagundes e o Guarnieri estão urinando diante da foto de um político. O Guarnieri fala: ‘Desculpe, senador’, e o Fagundes responde: ‘Ele nem está ouvindo, ele está discursando’. Esta frase é sobre a desconfiança que eu tinha sobre o real conhecimento do que era o Brasil por parte da esquerda e dos democratas que estavam derrubando a Ditadura”.

Fugindo da cartilha do thriller policial, A Próxima Vítima jamais materializa seu assassino. O espectador vê apenas os corpos mutilados de suas vítimas, em cenas cruas que ressaltam um sentimento de fatalismo e desesperança. Mas o criminoso é uma presença quase fantasmagórica (talvez por isso o apelido de “Vampiro do Brás”), que nunca aparece, mas em torno dele gira toda a história. Um porteiro de hotel sugere sua versão para o mistério: “Ele não é um só, são muitos. Um mata, outro aproveita e mata também, outro aproveita a onda e mata mais uma, e mais outra. São três ou quatro assassinos”.

Na vida real, o Maníaco do Brás nunca foi identificado. Reportagens de maio de 1982 anunciam a caçada a um suspeito conhecido como “Nego Testa” (daí o apelido usado no filme). Porém, ao contrário do que acontece com a versão cinematográfica do personagem, o destino do verdadeiro Nego não ficou registrado na crônica policial, mas em 1984 ele ainda estava sendo convocado para interrogatório sobre uma das mortes atribuídas ao Maníaco, segundo o Diário Oficial.

Em um filme que funciona tanto pela trama policial quanto como registro de uma época, o mais impressionante é constatar que, passados trinta-e-poucos anos do seu lançamento, pouca coisa mudou. Tanto Goulart quanto Orlando terminam o filme com declarações de falsa esperança (“Vai ficar tudo bem, estamos numa democracia”; “Agora os tempos são outros”), mas ainda assim a obra de João Batista de Andrade segue assustadoramente atual.

Numa ironia estilo “a vida imita a arte”, um novo psicopata atacou recentemente no mesmo bairro e acabou recebendo novamente a alcunha de Maníaco do Brás. Isso aconteceu em 2014, um ano eleitoral, remetendo ao filme.

Por fim, é marcante o diálogo entre Antonio Fagundes e Louise Cardoso, que interpreta sua colega de trabalho e caso amoroso, durante um comício da oposição. Já transformado por toda injustiça e violência que testemunhou, ele declara:

– Gostaria muito de acreditar em tudo isso. Esta eleição é uma puta mentira, não vai dar em nada outra vez.
– O importante é que a oposição vença – responde ela.
– Que oposição? Tudo igual, tudo governo! Você acha que empresário, latifundiário algum dia vai ficar do lado do povo? Quero ver o que essa merda de oposição vai fazer com essa miséria que eu estou vendo por aí!

*Felipe M. Guerra é jornalista e pesquisador de cinema. Escreveu centenas de artigos para o portal Boca do Inferno e para seu próprio blog, Filmes para Doidos. Também escreveu e dirigiu diversos curtas e longas-metragens independentes.

O filme A próxima vítima será exibido hoje (04), às 20h, no Cine Humberto Mauro (Palácio das Artes), como parte da mostra Curta Circuito — que nesta edição aborda a temática da violência nas telas do cinema. Depois rola um bate-papo após com a produtora Assunção Hernandes e o diretor João Batista de Andrade.

Autor
Formada em Produção Editorial com pós graduação em Gestão Cultural. Sou sócia das empresas Le Petit e Frutilla Filmes. Diretora do Curta Circuito — Mostra de Cinema Permanente e Coordenadora de Programação do Cinefoot — Festival Internacional de Cinema de Futebol — edição Belo Horizonte. Trabalho com audiovisual há mais de uma década. Recebi prêmios no Brasil e na Itália. Atualmente desenvolvo três projetos para TV: Chão que eu Piso, 7ª Arte em Cartaz e Tô Diet: sem açúcar com afeto.

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