Quatro amigos e seus trabalhos viajantes

 Foto: Blog Stay Rock

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Uma das coisas que mais chamou minha atenção em Belo Horizonte quando voltei a morar na cidade, em 2014, foi uma turma de amigos bastante peculiar que eu via frequentemente no baixo centro, porque parecia que todos eles tinham acabado de sair da Kombi do Woodstock, direto de 69, sem escala.

Curiosa com aqueles personagens, vim a descobrir que eles eram integrantes de uma banda chamada Absinto Muito e que o Efe Godoy, vocalista do grupo, era também artista plástico e tinha um trabalho incrível (o instagram dele é demais! Não deixe de conferir: @efegodoy).

Anos se passaram, muita coisa aconteceu e a Absinto Muito entrou em hiato. Efe deslanchou com seus desenhos, pinturas e colagens, passou a ser representado pela galeria Celma Albuquerque e vem participando de residências artísticas até fora do Brasil. Virei fã e seu trabalho nunca mais saiu do meu radar.

No final de 2017, foi a vez de Dedé Santaklaus, outro integrante do grupo, voltar a aparecer na minha vida (no caso, na minha timeline) por conta do lançamento do seu primeiro disco solo, chamado “Hahaha”.

O trabalho foi gravado no estúdio que ele tem em casa, chamado Caramelo 47, e tem os dois pés na música eletrônica, indo do house ao trap e encontrando techno e trip-hop ao longo de suas oito faixas.

Sempre com bom humor e um sarcasmo perspicaz, nesse disco Dedé usa e abusa de referências da internet como na ótima “Miga Sua Loka”, expõe sua intimidade ao confrontar quem faz graça de sua aparência em “Elba Ramalho” (“Tá passando vergonha, passando vergonha. Elba Ramalho é mais foda que eu e que ocês… Cês boys são tudo kids”) e descreve seu processo de gravação de maneira literal na faixa “Essa Música, Eu Fiz Ela No Meu Quarto” (“Essa música, eu fiz ela no meu quarto. O programa que eu usei para fazer ela é pirata. Todos os sintetizadores são pirata também. A bateria é low bit que eu baixei de internet. E a guitarra foi gravada enfiada no PC direto e todos os efeitos são pra programa”).

Esse clima “do it yourself” permeia todo o álbum mas nem por isso ele soa cru ou amador. Pelo contrário, o trabalho é ótimo, super contemporâneo, interessante, fresco e contagiante, daqueles que tem tudo para funcionar em qualquer “pixta”do Brasil e do mundo.

Atualmente, quem divide a casa, o estúdio e a árdua tarefa de produzir e divulgar um som autoral e ousado em Belo Horizonte é o também integrante da Absinto Muito Diogo Henrix, mais conhecido como O PALA.

Morando no mesmo teto em Santa Tereza desde 2016, por lá os dois têm produzido trilhas de filmes e espetáculos, gravaram o disco “POPCONCEITO”, da artista Titi Rivotril e a música, assim como o lindo lyric vídeo de “Berê”, do também amigo/músico autoral de BH Marcelo Tofani.

Tofani que, aliás, lançou seu primeiro disco, “Nada é Azul” (ele já havia lançado um EP em 2014) em março desse ano, pouco depois de ter soltado o divertido single “Não Tem o Que Falar (Só Lazer)” com participação de Dedé Santaklaus. Não deixe de conferir esse som!

De volta ao O PALA, além dos trabalhos de produção para outros artistas no estúdio Caramelo 47, foi lá que ele gravou “#Bandido”, primeiro disco do seu projeto de canções eletrônicas chamado Bélico.

Assim como “Hahaha”, o álbum foi lançado pela Fiasco Records, de João Pessoa, mas aqui, o assunto central das nove faixas é o preconceito da sociedade, que o trata como um marginal apenas por, segundo ele: “ser negro, queer e não ter um emprego com carteira assinada”.

Usando o deboche como arma poderosa para defender o direito de ser quem é, ele faz graça com o fato de ver pessoas apertando suas bolsas contra o peito em sinal de medo à sua presença: “esconde sua bolsa porque o nêgo aqui tá fulo contigo” e vai além: “quem é você pra chamar de mulata? Já falou de Zumbi! Até cita Dandara! Mas quer atravessar a rua quando os preto passa!”

Musicalmente, o disco é bem urbano e contemporâneo, reunindo elementos do funk, do trap, do tropicalismo e do rap. Mas por mais que ele chegue até a ser dançante em alguns momentos (como na contagiante “Fanqui”), não abandona o sarcasmo e mantém do início ao fim uma certa obscuridade, tanto nas letras – que mesmo lúdicas são carregadas de críticas políticas e sociais – como nos efeitos sonoros estranhos e sombrios que remetem a um clima meio apocalíptico, à la “Blade Runner”.

Para o segundo semestre, Santaklaus e O PALA planejam dois lançamentos assinados por eles: “Add Water and Stir”, do artista Tecci e “Dabasi” de Jefferson Gomes (12duOito, Swing Safado).

Ou seja, para muito além de suas roupas e cabelos chamativos, os músicos da Absinto Muito e seus amigos vêm apresentando uma produção ao mesmo tempo despretensiosa e de qualidade que está oxigenando a cena artística de Belo Horizonte e que vale muito a pena conhecer e acompanhar. #ficaadica

Autor
Jornalista com especialização em crítica cultural pela Universitat Pompeu Fabra de Barcelona, já trabalhei na MTV Minas, na Globo SP e em diferentes produtoras de vídeo entre Belo Horizonte e São Paulo. Em 2014, criei a Chá Comigo, espaço que ganhou grande destaque pela comunicação e conceito diferentes de qualquer outra casa de chás. Mas, depois de três anos à frente do negócio, resolvi voltar com tudo para a área musical, minha grande paixão!

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