No dia seguinte chegou o correio

 Mestre Error; Confronto Urbano; Virada Cultural de BH; julho de 2019.

Receba artigos sobre diversidade semanalmente em sua caixa de entrada!

×

— Aqui da estação espacial sincronicidade quem fala é Rudá.

Vou contar uma história que um passarinho me contou.

Era uma vez… não; Uma vez eu me lancei do quarto andar de um quarto de hotel. Não me lembro bem como foi que aconteceu, acho que a lembrança quis me poupar de uns tantos de sofrimentos e apagou. Apaguei quando bati com o lado esquerdo da cabeça e acordei uns tantos dias que não sei exatamente quantos foram… suponho que uns onze, não lembro também como foi a minha reação, mas a cabeça doía doía doía que nem aquelas morfinas resolviam o trauma e o chão. Eu estava num hospital, não me lembro qual, mas era um hospital e fui tentar mexer o braço, que ingenuidade a minha, eu havia quebrado a clavícula, três costelas, também esse osso do globo ocular, não lembro o nome, mas quebrei… e também rompi com os ligamentos do joelho esquerdo, esse outro osso que eu só sei o nome em espanhol, tobilla. Desespero, uma dor, afinal como teria acontecido, como é que eu teria sobrevivido?

Não sei, não sei, não lembro, era tanta dor na cabeça que até a memória doeu, doeu, doeu de esquecer. Recebi alta não sei quanto tempo depois de acordar, aí minha mãe me levou pra casa. Foi quando olhei pro espelho e aí a cabeça doeu ainda mais porque olhei pro espelho e gritei, e eu gritava só que do grito a dor aumentava, mas eu não parava, para, para, para! Para de gritar! Achei que eu ia explodir em mil pedacinhos tão pequenos como eu me sentia. O globo ocular quebrado era do mesmo lado em que a bola branca do olho estava vermelha. Vermelho cor de sangue era a minha bola branca do olho esquerdo, eu via aquela imagem no espelho e doía, eu sangrava.

Depois me contaram que foi a cocaína, que pelo examinado eu havia cheirado e bebido muito naquela ocasião, o álcool e o pó se misturaram à risperidona, à olanzapina, ao clonazepan e aos outros remédios que me socavam diariamente pra curar a esquizofrenia que diziam que eu tinha, aí esse shake, essa vitamina, essa mistura de pó com outras drogas, desencadeou um surto psicótico, é o que dizem, e foi assim que aconteceu, entrei num hotel, pedi o quarto mais alto, mas eles só tinham vaga no quarto andar, paguei no crédito e ao amanhecer, pronto, me joguei, dizem, eu não sei, não me lembro, a lembrança doeu a tal ponto que simplesmente esqueceu. Fico me perguntando se a memória que tenho durante o coma, se é memória de um sonho ou se aquilo aconteceu. Melhor eu não contar, nem dizer, não, não… É meio surreal e talvez insuportável. Mas e se eles tivessem vaga no quinto andar? Pausa.

Aí eu voltei pro Manicômio, era minha quarta vez ali, depois de me jogar do quarto andar do quarto de um hotel. Minha família achava que ali eu estaria mais seguro. Até hoje não entendo essa lógica, que segurança é essa que não te escuta, te deixa dopado, amarrado em camisa de força, que semanalmente te dá choques na cabeça, eu não entendo, eu queria entender, mas deve ser porque eu sou louco, por isso é que eu não entendo. Tive que depois de tudo passar por uma maratona de fisioterapia, não dava nem pra trocar de roupa sem ajuda, meu lado esquerdo parou, eu não conseguia e eu sou canhoto, então enquanto me recuperava de um lado, do outro eu precisava aprender a. Aprendi a segurar a colher, a escovar os dentes, a riscar o isqueiro, a limpar a bunda, e também a escrever, mas às vezes eu mesmo não entendia o que escrevia. Via a possibilidade dia após dia de conquistar autonomia dos meus movimentos, mas aí ficava um buraco: as pessoas tentavam dominar o que eu sentia.
Passou um ano e eu fugi pra Bahia, mandei notícias de lá, aí a história começou a ser escrita.

Agora era minha a tinta da estrada, a linha dos passos e a caligrafia. Eu disputei por mais de vinte anos a minha própria história e agora, 2019, cá estou.
Onde? Eu não sei… carrego na mochila incertezas e umas poucas lembranças. Mas eu não tenho forças para parar.

Eu percebo o tanto que é difícil prestar atenção às pequenas coisas. Nos abitolam às tantas futilidades e coisas banais que abitolamos ficamos abitolados letrados cientistas poetas e metidos a querer dar alguma solução pra sabe se lá o que porque no final é sempre a mesma coisa que repete repete repete, e só muda pelo tempo, mas sempre está e esteve ali. Atolou. Essa coisa que repete está atolada e nós somos abitolados sabotados mortos e perseguidos quando arredamos um pouco o pé da lama e demonstramos força pra seguir no movimento. Mas ok, deve ser que estar atolado nas caixas e nas grades que outros fizeram seja melhor do que ser um tolo que se convence facilmente. Arredei o pé da lama e não aceito mais estar mergulhado, sufocado, afogado, preso, torturado, eu não aceito mais.

Então que me matem! Porque eu arredei o pé da lama, eu arredei os pés, eu aprendi a dar meus pulos e bater com as asas das palavras, palavras aladas que desejam dizer, apenas dizer, então ouça. Eu saí da lama para me ouvir, para não me encaixotar nas caixas que outras pessoas há séculos criaram e vocês teimam, teimam, teimam em repetir, então repito. Eu arredei os pés da lama. Eu aprendi a viajar nas palavras, e voo, voo, voo, agora mesmo que não me escutem eu estarei voando nas aladas palavras que me fogem daqui, -assassinos.

Depois de ouvir a história, de repente eu recebi uma correspondente, correspondência.

Thay Poeta,
A Mulher Negra

“A mulher Negra é sinônimo de independência, poder, soberania e supremacia.
ao olhar ameaçador
a sociedade
nos separa,
nos limita,
e nos diversifica.

a fraseologia diz: “Somos todos iguais”,
mas não opera, pois no vaivém da corda bamba é a mulher negra que movimenta toda a estrutura.

corpos nus, negras unidas.
corpos nus, negras vão à luta.
corpos nus, negras não oculta suas raízes.
corpos nus, negras não oculta sua história.

corpos nus, negras prezam a textura do seu cabelo.
corpos nus, negras pedem “Parem de nos matar”!
corpos nus, negras pedem para que não olhe nosso corpo como uma mercadoria do prazer.

e é nessa roda-viva,
no vaivém da corda bamba, é a mulher negra que movimenta toda estrutura.

de mãos dadas e unidas
a voz da mulher negra ecoa a formosura e potência…
ensoa por Respeito.

Pois, o racismo é velado,
e fraseologia não é exercida.”

E pelas correntes das redes sociais eu recebi outro, outra.

Abassa Omolu/Yemanjá Nação Angola

“Se quiserem destruir o candomblé não quebrem potes, não rasguem tecido. Vou ensinar a vocês como destruir o candomblé!
Fechem as encruzilhadas e estradas, vetem o amadurecimento dos frutos e o brotar das suas próprias sementes derrubando todas as árvores. Impeçam a terra de engolir os mortos e de transformá-los em vida. Enquanto isso, parem todos os ventos, apaguem o sol durante o dia e a lua durante a noite. Estanquem as chuvas e desliguem os raios. Prendam as aves noturnas e diurnas, amarrem as borboletas.
Coloquem uma rolha na boca do vulcão quando ele quiser cuspir. Depois, levem os rios para outros lugares que não aos mares, interrompam a dança das marés e comam todos os peixes. Danem todos os úteros.
Cortem as cordas vocais dos galos e das corujas, mirem seus fuzis no arco-íris e matem ele. Mandem as nuvens saírem do céu.
Pausem o tempo, pausem ele por um segundo.
Não se iludam, potes quebrados não param meu povo.
Meu povo está acostumado a atravessar oceanos e montanhas, conhecemos os matos e eles gostam de nós. A arte mais bonita do meu povo é a da resistência.”

E pelas correntes das redes sociais…

Monge Marcelo Barros

“Estou passando em Betim, região metropolitana de Belo Horizonte e soube que nesse final de semana vai acontecer nessa cidade a Virada Cultural. Nessa ocasião, um grupo ia mostrar uma peça ou espetáculo ou evento artístico que era Rainha Travesti ou parece que chamaram de “Nossa Senhora das Travestis”. O evento foi censurado pela prefeitura e pela autoridade maior da arquidiocese de Belo Horizonte [aqui a nota assinada por dom Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo de BH e presidente da CNBB]. Não quero criar problemas com a hierarquia, mas me sinto obrigado como irmão a tornar pública a seguinte declaração que publico aqui.

(Não conheço ninguém da tal peça e nem sei como mandar a eles/elas essa mensagem, mas assim mesmo escrevo. Se alguém que ler tiver como fizer essa mensagem chegar ao grupo, agradeço o favor de enviar).

Aos irmãos e irmãs, companheiros da Academia TransLiterária de Belo Horizonte.

Para quem não me conhece, sou monge beneditino e ainda aos 74, estudante de Bíblia e Teologia Espiritual. Acabo de saber que uma peça ou evento artístico chamado Travesti Rainha ou Nossa Senhora das Travestis foi censurado em nome de Deus e da religião.

Acredito em um Deus que é Amor e em Jesus que nos ensinou que o Pai Amoroso se identifica com os pequeninos e os marginalizados da sociedade do ódio e da exclusão. Peço a Deus em minha oração que um dia os pastores cristãos se situem não como poderosos ao lado dos poderosos do mundo e sim como irmãos e servidores de todos e se solidarizem às travestis e até fiquem contentes quando alguém chamar Maria, mãe de Jesus de “Nossa Senhora das Travestis”.

A nota da Academia TransLiterária afirma que a peça nada tem a ver com religião nem com Maria, mãe de Jesus. E se tivesse? De acordo com a declaração, esses queridos irmãos e irmãs que criaram a peça não pensaram em Maria, mãe de Jesus quando falaram em “Nossa Senhora das Travestis”. Apenas pediram emprestado um título que os católicos gostam de lhe dar (Nossa Senhora) para mostrar as travestis como pessoas constituídas de uma dignidade sagrada que nenhuma palavra de bispo, padre ou eclesiástico poderá retirar deles e delas. Diante disso, o que humildemente gostaria de testemunhar é que o Deus no qual cremos é Amor, é inclusão e está junto com vocês e com todos e todas na luta para reafirmar a dignidade humana de cada pessoa em qualquer situação que seja. Sei que diante da forma como vocês são tratados por alguns eclesiásticos, nem sempre fica fácil acreditar nisso.

Aceitem, então, o sincero pedido de perdão e o compromisso de solidariedade e amor a vocês de quem sofre com essa realidade tão triste em pleno século XX e em plena Igreja Católica que teria a vocação de ser universal e poderia ser conduzida pela profecia do Papa Francisco.
Estou convencido de que, mesmo que vocês, ao bolar a peça, não tenham pensado em Maria Mãe de

Jesus, certamente Jesus pensa sempre em vocês e se identifica de tal forma com vocês que se sente contente em emprestar a sua mãe a vocês como Mãe de vocês. Hoje, a vocês e a todos os que vivem no mundo a cruz da missão de resgatar a plena dignidade das pessoas, Jesus afirma o que na cruz disse ao discípulo amado: Filho, eis aí tua mãe… Essa ideia que a Academia TransLiterária expressa em sua nota que foi sua intenção de religar as pessoas de coração aberto e na alegria é também a grande meta de Jesus que, segundo o evangelho “morreu para reunir na unidade todos os filhos e filhas de Deus espalhados pelo mundo” (Jo 11, 52). . Sintam-se , então, confortados/as pelo meu carinho de irmão mais velho e de muitos cristãos e cristãs, assim como de pessoas que nos mais diversos caminhos espirituais optam por seguir o caminho do Amor inclusivo e veem Deus em cada um, uma de vocês, como o que há de mais sagrado, muito mais do que qualquer imagem ou símbolo religioso. Em vocês contemplo a presença do Amor Divino e lhes agradeço por resistirem e persistirem nesse caminho. O Amor Crucificado pelo mundo desamoroso está em vocês e com vocês. Vamos continuar juntos e sem nunca descrer que um dia o Amor vencerá.

Abraço do irmão Marcelo Barros.”

E pelas correntes…

“Nós da Academia TransLiterária informamos com muito pesar a censura que recebemos por parte da organização da Virada Cultural de Belo Horizonte, na pessoa do prefeito Alexandre Kalil, via postagem no twitter e redes sociais sem o devido contato anterior com o coletivo e sem cumprimento do prazo com a secretária de cultura.

Estivemos essa manhã na secretaria municipal de cultura em reunião com representantes desta secretaria bem como da fundação municipal de cultura incluindo Juca Ferreira, Fabíola Moulin e Gabriela Santoro, responsável do Instituto Periférico.

Nesta reunião fomos comunicades que a censura é um fato e que não há o que fazer da parte da secretaria, da fundação e de nossa parte.

Contextualizamos também a trajetória e ações artístico-sociais promovidas pelo coletivo numa tentativa de reverter a censura imposta pelo prefeito Alexandre Kalil e Arquidiocese de Belo Horizonte na figura do arcebispo Dom Walmor.
Gostaríamos de ter a possibilidade de diálogo com quem acredita que nossa ação é um ataque a fé católica ou cristã, para que entendam os seguintes aspectos que vem a seguir:

O poder que as artes têm de mudança de realidade social.
É forte para nós da Academia TransLiterária ao longo desses quase três anos de existência nos olharmos cara a cara e ver quem fomos, onde estávamos e quem nos tornamos após o início desse coletivo.

Empoderamento que leva a emancipação, pois se podemos ser artistas podemos ser qualquer coisa. Dizemos, somos artistas! Dizemos que nossos corpos falam de uma cultura, um lugar, falamos nossa própria língua, nossos corpos respondem artisticamente de várias formas, somos uma comunidade. Produzimos culturas.

Extrapolamos o real, não pretendemos mais performar para mostrar o mundo como ele é, para isso temos as estatísticas, temos a convivência. Nós performamos como transformar o mundo. Nós tornamos a nossa representação em si real, uma revanche.
Vamos ao longo da trajetória da Academia TransLiterária celebrando, festejando cada passo, cada criação. Nossa arte é festa porque em um mundo que não deseja nossos corpos vivos, seguimos vivos. Performamos, escrevemos, pesquisamos, pensamos, festejamos, poetizamos um mundo diferente para nós todes, cientes do mundo no qual estamos.
Assim surge a Coroação de Nossa Senhora das Travestis: um atraque literário. A partir de uma situação na preparação de outra performance, em que nossa amiga e integrante do coletivo, Nickary Aycker, jogou a bandeira Trans sobre o corpo e colocou na cabeça uma coroa de flores. Parecia uma entidade sagrada e daí, a partir dessa visão em todo o seu brilho, vimos uma espécie de culto a todas as travestis, do nosso coletivo e fora dele, como forma de celebração da vida.

Se a referência de base são alguns símbolos religiosos, por outro lado não se trata de substituir nenhum deles por essa nossa imagem. Menos ainda se trata de negar a fé alheia. Não é a Senhora Mãe de Jesus aqui, mas uma Outra Senhora, a nossa travesti, moça que é diariamente excluída do convívio social (olhada com horror e desdém), do mundo da arte e da cultura (condenada a nunca ter ideias ou opiniões), da economia (restando-lhe só a prostituição), das ruas (salvo as esquinas dessa mesma prostituição) e da religião (como se não fosse parte de um mistério maior da vida).

Coroação de Nossa Senhora das Travestis: um atraque literário é, portanto, uma celebração da potência que vive em cada travesti. Mas é também um encontro com todas as outras potências de todas as outras pessoas ali presentes, sejam trans, cis, hétero, homo, não binárias, intersexo ou como se identificam e seguem suas existências. Não queremos propor e nem mudar nenhuma religião. Não se trata de religião. Há aqui apenas um aspecto religioso no encontro com todos em volta de nós: a ideia de religar as pessoas, de coração aberto e na alegria.

Estamos abertos ao diálogo e somos contra qualquer tipo de censura as artes no Brasil. É importante ressaltar que MG é e continua sendo o estado que mais mata no país que mais mata travestis e pessoas trans no mundo. Mas, nós seguimos na luta! E vamos vencer no amor!”

Percebe o delírio dessa sincronia?
Era tanta dor na cabeça que até a memória doeu, doeu, doeu até se convencer de que não podia esquecer.
Um passarinho me contou que sempre teve luta, que há de haver sempre uma disputa. E me disse sussurrando que a gente precisava ficar viva. Vivo. Vive.

Paulo Bruscky; Performance realizada nas ruas do Recife; julho de 2019.

Abraços, com doido respeito.

PROJETO LITERATURA COMPARTILHADA, envie seu texto para [email protected] e dê voz para a Coluna Diversidade, estamos em Terra de Sincroni(cidade).
#projetoLiteraturaCompartilhada

Autor
Passarinho loque, asa artivista e redundante.

Share the love.

Se este artigo te fez lembrar de alguém, mostra pra elx!

Para comentar você deve ter uma conta—só leva um minuto:

fazer login ou registrar-se
Você vai gostar

procurando um serviço de impressão?

a Futura Express também está no GUAJA! Nossos novos parceiros oferecem entrega grátis todos os dias no GUAJA. conhecer a Futura Express