Do fundo das águas, a lucidez

 Adriana Garcia

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Adriane Garcia (Belo Horizonte, 1973) é poeta, escritora, teatroeducadora e atriz. Vencedora do Prêmio Paraná de Literatura – categoria poesia (2013) com Fábulas para Perder o Sono, está prestes a publicar seu sexto livro, o terceiro de poesia. Garrafas ao Mar (Penalux, 2018) reúne 129 poemas inéditos onde a autora constrói pedidos de socorro para lança-los ao leitor justamente em um momento em que a nossa sociedade se mostra tão afoitamente perdida entre as tantas mensagens – nem sempre verdadeiras – que chegam dos mais diversos meios de comunicação. O lançamento já tem data marcada e acontece no dia 20 de outubro no Letras e Ponto (Rua Aimorés, 388, sala 501 – Funcionários) das 11h às 15h. O livro está em pré-venda e pode ser adquirido neste link (http://editorapenalux.com.br/loja/garrafas-ao-mar).

Sua escrita é ponta de faca. Afiadíssima, a poeta parece ter um contrato explícito com a palavra, como se ambas firmassem: eu te conheço e, por isso, confio em você. A autora não teme o papel, tampouco seus vãos, suas sombras, lacunas ou pontas e, portanto, poucas palavras são o suficiente para a construção de seus poemas. No livro, há poemas curtíssimos, sopros de uma ideia que se forma nitidamente após a leitura convivendo com poemas de estrutura que namoram a formalidade, separados por estrofes, por exemplo. A síntese é uma constante e só funciona graças à precisão da autora e a esse acordo íntimo de confiança estabelecido com a palavra.

Sua formação em História parece fornecer um rico substrato para os temas eleitos para compor as mensagens lançadas ao vasto mar pelo qual Adriane navega sem medo. A autora conhece e dialoga com mitos, lendas, religiosidade e outros universos e faz uso destas narrativas fugindo da banalidade e negando as metáforas fáceis. Como muito aponta o escritor Alberto Bresciani no prefácio, “Em seus poemas, ora o sentido está na superfície; ora o sentido rasteja sob a pele de quem lê, chegando à garganta como espasmo e provocando cada um dos sentidos. O real e o imaginário entram em fusão, como caldo de metais. Poeta e leitor são transformados após a leitura de versos decantados ao último átomo da entrega e da possessão”, Garrafas ao Mar é convite a um mergulho profundo para dentro de nós mesmos, um desejo maduro de uma autoanálise enquanto humanidade. Mesmo que Adriane não queira respostas, impossível fugir à pergunta: qual a mensagem realmente importa diante do assombro de estar vivo?

Saiba mais no blog da autora.

Literatura em primeira mão

Poemas extraídos do livro inédito Garrafas ao Mar (Penalux, 2018)

O senhor tem fogo?

Cada vez mais curtos
Os meus cabelos

Começo a ter visões de guerras
Às quais
Fui

Agora sou chamada a um
Milagre

Joana, a dark:
Essa fogueira
Que se apagava.

Excesso de sol

Tornei-me astigmática
Por prudência
Para que não amasse a Luz
Em excesso
Para que intuísse
Os benefícios
Das sombras

O puro paraíso
Cegava

Lúcifer odiava
O próprio nome
E pedia lentes
Transitions
Suas pupilas dilatadas
Anunciavam morte

Jamais um homem
Ou um anjo
Poderia olhar diretamente
Para Deus.

Constrangimento

Na sala de estar
Os presentes se
Entreolham
Com o mal estar
De nunca terem construído
Uma sala de ser.

Autor
Publicação belo-horizontina dedicada à produção literária autoral mineira e brasileira. Em parceria com o GUAJA e com a curadoria de Flávia Denise e Val Prochnow, a revista publica neste espaço, mensalmente, contos, poemas e trechos de textos de autores locais.

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