O suíço Ernst Götsch, o plantador de agroflorestas do Brasil

 

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O geneticista, agricultor e pesquisador suíço Ernst Götsch, que completa 70 anos em 2018, os últimos 36 vivendo no Brasil, faz uma provocação: “mudanças climáticas sempre existiram; o ser humano moderno é que se transformou em vítima”. A crise que mais o preocupa é resultado do sistema racional em que a sociedade vem sendo submetida. Onde estão as respostas? Ernst tem a convicção de que todas podem ser encontradas na simplicidade da natureza. Ele é o criador da agricultura sintrópica, um conjunto de princípios e técnicas, inspirado na engrenagem das florestas, que permite aliar produção de alimentos à regeneração de ecossistemas naturais.

Com formação humanística e trajetória autodidata, Ernst e seus aprendizes vêm replicando a sintropia, independentemente do clima ou do solo, em pequena ou grande escala. Podemos encontrar o seu sistema de abundância em fazendas de São Paulo e Brasília, em ecovilas localizadas na Região Metropolitana de Belo Horizonte, estando em início de operação ou em uma versão já expandida. Mas o maior exemplo mesmo vem de sua propriedade, comprada em 1984, na cidade baiana de Piraí do Norte. Antes batizada de “Terra Seca”, por causa dos danos provocados pela exploração de madeira e pastagens, é hoje chamada de “Olhos D’Água”. São os 500 hectares reflorestados considerados mais férteis e diversos da Mata Atlântica. Ernst mudou o solo e o clima; fez nascentes aparecerem, mais precisamente quatorze; fez chover.

Recentemente Ernst participou do Seminário Internacional Mudança Climática e Biodiversidade, no Instituto Inhotim, que anunciou parceria com a Agenda Götsch, onde ele concentra os seus trabalhos. Foi ali que pude conversar com Ernst e levar perguntas de projetos belo-horizontinos voltados para a agroecologia urbana.

FoodColab (plataforma de curadoria de informação que apoia a revolução na produção e no consumo de alimentos no Brasil): Na sua opinião como a maioria dos brasileiros se alimenta hoje e quais são as consequências para as pessoas e para a terra?

Ernst Götsch: Tem um velho provérbio romano que diz: tu és o que tú comes. Aquilo que a gente faz com a Terra, maltratando-a e explorando-a, comendo industrializados, é absorvido pelo nosso organismo. Tem consequências também para a natureza. Ninguém quer ser submetido à exploração: nem eu, nem você, nem o seu vizinho, nem ninguém. Esse maravilhoso e abençoado país, o Brasil, tem seus sistemas submetidos aos princípios da concorrência, da competição, da exploração. O planeta se recusa a isso, o ser humano se recusa a isso.

Passei.o Verde (projeto que desperta o interesse de pessoas no cultivo do próprio alimento no espaço urbano): A FAO (Agência das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) tem divulgado estudos destacando a importância da agricultura urbana para o futuro das grandes cidades. É possível por meio dos conceitos da agricultura sintrópica transformar espaços ociosos nas cidades em espaços de produção de alimentos saudáveis? Mesmo em espaços tomados pelo concreto e edifícios?

Ernst Götsch: Todos os espaços, horizontais ou verticais, podem produzir alimentos, seja agricultura sintrópica ou não. Existem pesquisas que mostram que cidades grandes como Paris, e que também poderiam ser aplicadas em Belo Horizonte, têm perfeitas condições de produzir alimentos para todos que vivem nelas, para satisfazer o seu metabolismo de dia a dia, incluindo água. Sou convicto disso. Já na década de 60 eu fazia agricultura vertical. É muito gratificante ver o tomateiro indo para cima e o feijão para baixo. No fim da década de 90, fizeram de tudo para tirar mangueiras generosas de áreas públicas, surgiram até associações de coletores da fruta para evitar quedas sobre carros e prejuízos. Mas o prejuízo de uma manga caindo num carro é muito menor que o custo de produzi-las a quilômetros de distância, com agrotóxicos, adubos químicos e irrigação, com necessidade de complexa logística para chegar aos centros urbanos. São princípios contrários à agricultura sintrópica, que vão do simples para o complexo e não o contrário. O ser humano, desde a escola, está sendo ensinado, ou melhor, forçado a pensar de forma racional e analítica. A sintropia reúne princípios simples baseados, por exemplo, na fotossíntese. As respostas são simples e podem ser encontradas na natureza, que já faz muito sem a interação do homem.

Casa Horta (mercado de produtos agroecológicos): Quais os maiores entraves para que a agroecologia urbana de fato aconteça? Por que ainda não está acontecendo?

Ernst Götsch: São vários fatores e eu destaco o cultural e um outro, muito forte, o de parte da sociedade que não quer permitir que aconteça. Imagina as pessoas produzindo o seu próprio alimento nas cidades? Iria requerer mudanças fortíssimas na lógica da economia. De repente, o parâmetro mais importante de desenvolvimento não seria o PIB, mas o índice de bem-estar. E é o que traz outras consequências: saúde e felicidade. Então, quem tem a alimentação como negócio e fonte de enriquecimento não está interessado. É uma conjuntura que não ajuda. Outro motivo ainda é a falta de conhecimento das pessoas. Como atingi-las? Não adianta educar os seus filhos porque de qualquer forma eles só fazem o que o educador faz. Se você quer que alguém faça algo, então passe a fazer. Seja luz.

Massalas (projeto que trabalha em diferentes frentes da agroecologia, incluindo plantio e compostagem urbana): O senhor, que tanto demonstra com a agricultura sintrópica a importância de regeneração e integração ambiental, acredita na regeneração social?

Ernst Götsch: Acredito perfeitamente, mas isso requer, novamente, mudanças profundas éticas e filosóficas. Não é uma questão técnica, é de princípios. O ser humano moderno, querendo ficar nesse planeta, precisa lembrar que é parte de um sistema de inteligência de um macro-organismo, e não dono de um macro-organismo.

Feira Fresca (projeto que reúne toda semana, em diferentes lugares, produtores locais de comida de verdade): De que forma, em grandes centros urbanos, o consumo e a produção de alimentos devem ser orientados? É possível os centros urbanos fortalecerem a agricultura sintrópica e, consequentemente, a recuperação do meio ambiente?

Ernst Götsch: Estamos falando em exploração de recursos e, nesse cenário, o submetido à exploração se recusa. Não queremos — seja eu, você ou a natureza — e lutamos contra. Daí gera-se conflito e escassez. Precisamos, todos, descer do pedestal e fazer coisas. A gente podia pensar no significado, na função da vida. Estamos desconectados do planeta, achando que nós somos inteligentes, e não vendo que somos parte de um sistema inteligente. As respostas podem ser encontradas na própria natureza, nas florestas.

Autor
A jornalista Paola Carvalho é colunista sobre nova economia no jornal Estado de Minas, editora do portal GUAJA.cc e fundadora da agência de comunicação e produtora de conteúdo Blank_Space. Passou pela TV Band, Rede Minas, assessoria de imprensa da operadora Claro, Diário do Comércio, Folha de São Paulo, Metro SP e VEJA BH. Como repórter, ganhou prêmios, como os do Sebrae, Senai, Apimec, Crea e Ministério Público de Minas. Foi finalista de outros, a exemplo do Prêmio Abril de Jornalismo, na categoria política. Entretanto, não acredita que a sua profissão a define hoje. É mãe do pequetito Otávio, filha de empreendedores, que ama se conectar com o mundo, com as raízes, seja por meio do que as cidades contam, ou do que as pessoas revelam. E, claro, ama mais ainda escrever sobre todas essas experiências e conversas. Participa de projetos, como o Chão Que Eu Piso, a Conexão Leopoldina, a Escola de Livre Aprendizado (ELA) e o FoodColab.

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