A alegria perturbadora de quem não é ninguém

 

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Érica (54) e Jorge (49) são um casal de catadores da cidade de Franco da Rocha (SP). Eles ficaram “conhecidos” depois que uma ONG os presenteou com um casamento, com direito a vestido e terno, corte de cabelo, maquiagem, enfim, uma cerimônia completa durante a parada LGBT da cidade (Érica é uma mulher travesti).

Na época do casamento, muito saiu na mídia sobre eles. Trabalhando juntos há 16 anos, Érica disse em reportagens que não se vê longe dele por conta dos cuidados: “Eu tenho diabetes alta, tenho medo de cair na rua e ele não estar perto. Tenho quase 60 anos, não aguento mais por muito mais tempo carregar 600 quilos por dia”.

Uma repórter do G1 perguntou Érica qual era o sonho dela. Ela respondeu:

“Eu tenho o sonho de conhecer o mar. […] Quando saímos, ele coloca a música do raça negra que eu gosto para tocar, que fala das ondas, sabe? Quando toca essa música parece que eu vou flutuando, não é mais eu.”

Érica e Jorge são uma ilustração da vida em condições precárias que muitas e muitos vivem no Brasil. No caso deles, para além das condições de pobreza [Érica já teve que se prostituir para sobreviver, por exemplo], existe a dificuldade do trabalho de catador, a transfobia e, por fim, as cruéis inevitabilidades da idade. Conhecemos os dois pela alegria do casamento presenteado, mas somos enfrentados pela precariedade que o casal provavelmente vai enfrentar durante todo o resto de suas vidas.

Em condições tão precárias, parece intuitivo perguntarmos que vida é essa que eles levam — e se ela, de fato, é uma vida possível de ser vivida. Um trabalho pouco remunerado e doloroso, corpos que, além de não reconhecidos, sofrem com a crueldade da velhice: não seria melhor morrer?

***

Nas normas do capitalismo sobre o que é uma boa vida, a vida de Érica e Jorge é uma vida impossível. Eles cabem bem na definição de Judith Butler para as vidas consideradas “não vividas”: não cumprem quase que nenhuma condição da vida “vivível”; são pobres, não usufruem dos prazeres do capital, não chegam a ser nem consumidores médios de uma sociedade, não parecem muito autônomos ou produtivos. suas vidas podem ser e provavelmente são consideradas por muitos como “perdidas” antes mesmo delas se perderem.

Ainda assim, é difícil olhar para a alegria dos dois na foto do casamento, para as entrevistas que deram, e dizermos que ali não há uma vida feliz. E não estou falando de uma felicidade provinda do sucesso, da segurança, da superação ou do repouso — a “felicidade” tal qual normalmente a apreendemos. sabemos muito bem que o “trato” que receberam não os tira da vida completamente precária que vivem.

Ainda assim, de alguma forma, eles demonstram alguma felicidade, uma felicidade estranha, uma felicidade que convive com a miséria. Uma felicidade que nos incomoda e nos persegue, porque é uma felicidade que vem de algum outro lugar que não as normas capitalistas sobre o que uma vida deve ter para ser considerada uma vida feliz. Eles não tem nada, não terão nada, e, de uma forma impensável, são felizes.

***

Pessoas como Érica e Jorge possuem uma vida, mesmo vivendo em condições tão vulneráveis. possuem um propósito, mesmo sendo catadores de lixo. Têm uma biografia, mesmo sendo sujeitos anônimos e “desimportantes”. parecem entender bem a diferença entre eles e “nós”; isto é, o que os torna sujeitos em condições precárias e nós, sujeitos privilegiados. mesmo assim, encontram prazer. Encontram prazer e felicidade, mesmo sendo “ninguéns” e desprovidos de dinheiro algum.

Há algo de muito político e perturbador na felicidade de alguém que não tem nada.

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Érica e Jorge mostram arduamente para nós, pessoas tão distantes das condições extremamente precárias que os dois vivem, que existe uma parte da vida que excede as normas do capitalismo e, talvez, seja a própria parte mais valiosa da vida.

As condições financeiras mínimas, a ideia de um futuro vivível e a proteção contra a morte são inegáveis medidas para entendemos as desigualdades que regulam politicamente as vidas de uns e outros. são quesitos que devem ser apontados para mostrarmos o custo do privilégio de uns sobre outros. Mas não são, nem podem ser, as únicas medidas para compreendermos a vida.

Longe de não enxergamos as condições políticas diferenciadas, precisamos olhar para a nossa vida e a vida dos outros — principalmente os mais precários — com outra medida e outro olhar; um que seja cuidadoso e, ao mesmo tempo, admirado.

Quando admiramos a vida daqueles que nada tem e que, persistentes, ainda encontram uma forma de tornar suas vidas vivíveis, prazerosas e com sabedoria, reaprendemos a forma como avaliamos a vida. Encontramos ali algo que pode perturbar e até causar inveja nos que estão mais dentro das normas capitalistas de uma “boa vida”.

As imagens de Érica e Jorge nos perseguem porque nos lembram que a promessa capitalista de “boa vida” é falha. O capitalismo talha, fere, limita, mas não consegue transformar a vida dos miseráveis em uma vida totalmente morta.

A sabedoria humana não está por trás dos grandes feitos, dos sujeitos autônomos, mas dos indivíduos que, mesmo com a vida talhada, ferida e limitada, ainda conseguem preencher uma vida precária de sentidos, afetos, cuidados, relações e amores.

A alegria e sabedoria dos pobres sobrevivem e debocham do capitalismo. É com eles que devemos aprender. É deles que devemos ouvir.

Autor
Doutorando e Mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais. Jornalista desertor, hoje pesquisa ética e crítica na mídia e na vida cotidiana. Tio do Faísca e da Sushi.

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  1. Fiquei pensando nesse texto em forma de um curta metragem…imagens e movimento permearam a minha mente como se tivesse acabado de assistir um enredo sobre o impossível ,que se materializa e ainda ri na nossa cara, nós que TD temos e não alcançamos quase nunca ,essa plenitude…

  2. O capitalismo é um grande inimigo.
    Apesar de só o conhecermos, ainda assim, vivemos nele.
    Apesar da pobreza da exploração para quem não teve oportunidades
    Existe sim, um sentimento de união cuidado e amor que transcende o lado negro da vida.
    Nós também somos escravos na maneira de vivermos.
    O amor está aí sempre nos lembrando que nada é mais forte do que ele.

    NL

  3. Obrigado Afonso! Acordar e ler esse seu texto sobre o amor de Érika e Jorge, nesses tempos tão sombrios do mundo em que vivemos, nos afirma que sempre fissuras permeáveis podem existir com a potência da vida! Muito obrigado pelo teu bom dia! Muito amor p ti! 🙏🏼💖

  4. Belo e emocionante texto. Creio q para aqueles no limiar do nada e q não esperam nada a felicidade vem de qquer coisa diferente dessa condição. Lembro de uma vez ter dado um bombom a um porteiro cujo brilho nos olhos denunciou algo muito além da larica, penso que a simples visibilidade…

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