Além #6 — Carnaval: para onde vamos?

 Foto: Camila Rocha/Estático Zero

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O Carnaval de BH sempre esteve presente em locais mais distantes da centralidade, se mantendo vivo em dimensões inimagináveis por quem não vivia às margens e estava diretamente ligado a esse processo. A sua realização era possível graças a um esforço comunitário e afetivo por parte de algumas pessoas e blocos. A partir de 2010, esse contexto começou a se transformar e a fortalecer o movimento que, hoje, conhecemos como o reflorescimento do nosso carnaval de rua, que já é, novamente, um dos maiores do Brasil.

 

Na última terça, nos reunimos para o sexto painel do Além do Rolê, lá no espaço d’A Central (antigo centoequatro). “CARNAVAL: Para onde vamos?” foi o tema da vez, e nosso objetivo central foi entender, a partir da nossa trajetória histórica, os rumos do Carnaval. Nós reconhecemos o avanço intenso e espontâneo que ocorreu nos últimos anos (só em 2018 foram quase 500 blocos e 4 milhões de foliões). É hora, portanto, de pensar em quais são os fatores mais importantes que devemos articular para construir a festa de 2019 em diante.

Para enriquecer o encontro, convidamos figuras queridas e ativas na cena carnavalesca: Rafa TchaTcha Barros (Bloco Filhos de TchaTcha), Jordana Menezes (Planejamento da BELOTUR), Juhlia Santos (Artivista político-cultural, Alô Abacaxi/Corte Devassa), Mateus Jacob (Bloco Pula Catraca) e PV (Bloco Seu Vizinho). O encontro dessas lideranças foi esclarecedor, divertido e essencial para compreendermos cada engrenagem que precisa estar funcionando plenamente para fazer a festa acontecer.

Um bocado de história

Como comecei a contar ali em cima e foi muito bem narrado por Rafa Barros durante a roda, 2010 é o ano que marca a chamada “retomada” do Carnaval, mas é importante pontuar que ele nunca esteve ausente. O Carnaval nasce junto com a cidade e, inclusive, narra a história cultural e urbanística de BH.

Na década de 50, por exemplo, o Carnaval de BH era o segundo maior do país, ficando atrás apenas do Rio de Janeiro. Não por acaso, o fluxo entre as duas cidades era super intenso: turistas e sambistas, todos queriam aproveitar o melhor das duas festas. O célebre Neguinho da Beija-Flor, inclusive, após se apresentar com sua escola nativa na Sapucaí (RJ), vinha para Belo Horizonte para puxar a Escola de Samba Cidade Jardim. Foi uma época para a cultura do samba se fortalecer e estabelecer na capital mineira.

Para entender as motivações desses momentos de alta e de baixa do nosso Carnaval, devemos analisar também as gestões políticas que estiveram em atividade. Também nessa época, e nesse ponto não estamos tão diferentes atualmente, havia uma política de esvaziamento e limpeza do hipercentro de BH. Um espaço que deveria ser de todos foi sendo fechado e transformado por causa de interesses mercantis. Soa familiar?

Além da questão da higienização social, alianças políticas foram outra razão para um “down” na nossa festa. Isso porque algumas figuras carnavalescas demonstravam grande potencial político, e essa fusão com o poder público fez com que o movimento perdesse boa parte de sua autonomia, ficando à mercê de outros tipos de interesses e perdendo o que tem de mais precioso: seu caráter popular. Ainda assim, nesse entretempo, vários blocos e escolas de samba resistiram e mantiveram sua atuação mesmo com obstáculos.  Devemos ser gratos a essas figuras que não desistiram.

A era do “reflorescimento” também nasceu como resposta a decisões arbitrárias da Prefeitura, sendo o desligamento das fontes da Praça da Estação e a proibição de movimentos culturais as mais evidentes dessas decisões. Como uma forma de confrontar o Poder Público e fazer uso do espaço que é público e do público, por direito, um grupo de pessoas se reuniu em janeiro de 2010 para a primeira Praia da Estação.  O poder simbólico da Praia é imenso: em uma cidade careta e cristã, banhistas ocupando uma praça no centro da cidade é um ato subversivo, subversão não apenas moral, como também política e estética.

Foto: Reprodução Facebook

O movimento abriu caminho para vários outros que tinham objetivos parecidos de ocupar a cidade e democratizar o uso de seus espaços.

Carnaval: encontro com as diferenças

Se no início tínhamos meia dúzia de blocos e alguns gatos pingados tomando banho nas fontes da Praça, esse cenário foi rapidamente se transformando, ficando mais cheio e colorido. O Centro da cidade é, naturalmente, esse ponto de convergência das das diversidades. É onde podemos nos reencontrar com nós mesmos e nos reconhecer nas diferenças dos outros, e nos dias de Carnaval esses encontros se potencializam e transbordam pelas ruas.

Embora os 5 dias de Carnaval sejam em sua maior parte alegres e festivos, não podemos deixar de refletir sobre assuntos sérios, sobre situações que se desdobram a partir de atitudes racistas, machistas e/ou opressoras. Bombas de gás, assédio físico ou moral e uma estética marcada pela branquitude: essas são algumas das formas pelas quais os preconceitos sociais se materializam, e é necessário trazê-las à tona para que se mantenham em pauta e possamos propor soluções, durante o Carnaval e depois que ele passar também.

Para onde vamos?

Afinal, qual é a resposta para a pergunta que serviu de mote para o sexto Além do Rolê? São muitos recursos (humanos e financeiros) a serem empregados para que o Carnaval funcione e para que a cidade continue, minimamente, funcionando também. O objetivo é planejar uma festa cidadã e responsável.

As proporções do Carnaval de BH se multiplicaram de maneira estrondosa. As expectativas para o próximo ano são ainda maiores: mais blocos, mais turistas — o que, consequentemente, implica na necessidade de mais estrutura, segurança e planejamento. A Jordana, representante da BELOTUR e do Poder Público, trouxe dados interessantes e, como ela mesma disse, o que os órgãos públicos responsáveis fazem é meio que “planejar o caos”, tamanhas as dimensões.

Foto: Luiz Varandas Fotografia

É importante enxergar essas instituições como chaves que podem ouvir as pessoas e viabilizar o acontecimento bem-sucedido do Carnaval. A presença da Jordana somada às experiências e questionamentos da Juhlia, do PV, do Rafa e do Mateus resultou na certeza de que não estamos ecoando no vazio e que, juntas e organizadas, nossas vozes serão, sim, ouvidas e consideradas.

Uma das conclusões a que chegamos durante o painel diz respeito à necessidade de entendermos o Carnaval 2019 como uma festa comercial, e não apenas política. Não que vamos deixar de levantar bandeiras, muito pelo contrário, mas porque, só a partir desse reconhecimento, os blocos serão tratados igualitariamente. E também, convenhamos, não tem nada de errado em arrecadar uma graninha pra recompensar quem dá duro o ano inteiro (organizando festas, oficinas, reuniões…) e se dedica pra fazer uma festa linda, né?

Nós vamos continuar caminhando rumo a novas experiências na cidade, reinventando espaços, fazendo nossos corpos serem cada vez mais políticos. Vamos lutar para, mais do que ocupar, incluir. É festa e é luta, é alegria e resistência. E sempre será.

GUAJA: no rolê e Além

A série de painéis Além do Rolê se desdobrou a partir do GUAJAnoRolê, o guia cultural idealizado por Gabriel Prata que traz dicas dos mais variados eventos que movimentam a cena belo-horizontina. Estão nessa empreitada também a GoFree, plataforma de eventos que nos incentiva e acredita no poder das conexões, a Julia Abrahão, representante da Baer-Mate em BH, e a equipe de Comunicação do GUAJA.

Expandir as fronteiras do guia foi uma iniciativa essencial, que naturalmente atende a sua proposta de pautar questões relativas à cena cultural de BH. Nada mais coerente do que abrir e ampliar essa discussão, certo? Esse foi o sexto encontro, mais um em que saímos com a cabeça fervilhando. Os outros painéis foram: por que as coisas custam o que custam? alô, produção! , fora do eixo?, cena da música independente e manas no rolê.

Continue acompanhando a gente por aqui e nas redes sociais do GUAJA para não perder a próxima rodada. Em dezembro tem mais!

Autor
A paixão pela palavra escrita, falada ou não-dita fez de mim jornalista e publicitária pela UFMG. Nos encontros me redescubro, nos desencontros me reinvento e nas experiências me multiplico e inspiro para ir sempre além. Sou uma das mentes criativas do time de Comunicação do GUAJA: aqui dou vida às ideias, nomes às coisas e cores às palavras. Quer contar uma história ou dar play em um novo projeto? Me chama que eu vou.

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