A Primavera da Alta Costura

 

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Desfiles são o retrato de um presente que se liquefaz em nossos dedos. Para a alegria de suas existências fugazes, jamais ganharam olhares tão múltiplos. Passamos por uma das temporadas de alta-costura mais disruptivas dos últimos anos, provando que as transformações do mundo da moda não se encerram nas insípidas sugestões de seus executivos, mas em ideias que as ruas e as redes sociais re-interpretam sem remorsos. A semana de Alta Costura da Primavera de 2019 foi uma verdadeira fratura no mar de notícias tóxicas de janeiro, e seu legado merece ser compartilhado.

Conteúdo formatado para o Instagram

O Instagram já tem remodelado a maneira como interagimos em museus e também transformou a organização dos desfiles. Ao invés de modelos imponentes como estátuas gregas, as marcas contratam influencers que não necessariamente se vinculam ao mundo da moda e seus requisitos – o que nos coloca diante de uma representatividade maior, mas também nos desconcerta com a inaptidão de celebridades como Kendall Jenner. A disposição dos elementos nas passarelas dialoga com o enquadramento 1080x1080px. Looks que arrancariam análises de críticos de arte experientes viram memes e sofrem intervenções em colagens e ilustrações. Um tanto quanto tarde, mas ainda de maneira pertinente, Viktor Horsting e Rolf Snoeren usaram seus desfiles performáticos para brincar com este fenômeno e criaram vestidos-meme que não poderiam retratar de maneira melhor o tédio da geração Y em meio a este oceano de informações. Sucesso absoluto.

Minorias pautam a expressão da elite

Resta saber quais serão os créditos dados a elas. Embora Schiaparelli e Valentino tenham bebido em inspirações clássicas (a aristocracia do século XVIII e as fotografias de Cecil Beaton, respectivamente), é impossível não ver a insurgência da cultura flamenca, revisitada por Rosalía, nos tons fortes trabalhados em volumes e babados, como a jornalista Igi Ayedun muito bem observou. Modelos negras eram a maioria no casting da Valentino enquanto o streetstyle nova-iorquino fazia suas pontuações no contraste de cores e nas calças largas. Do outro lado do mundo, porém, o rapper 21 Savage está sendo ameaçado de deportação pelas políticas xenofóbicas e racistas do governo Trump. Ciganos ainda são massivamente perseguidos, sem que suas histórias sejam ouvidas.

Em um artigo para a SSense, Ayesha A. Siddiqi usou a expressão “estética do imigrante” para descrever o impacto da crise global na imigração sobre as imagens da moda. As sobreposições de todas as peças do guarda-roupa em um único look é o recurso de quem viaja sem certezas ou destino certo. E para aqueles que estão sempre em fuga, as roupas oversized são a consequência de conviver com um acervo que, na maioria das vezes, é doado. Nas imagens da Balenciaga, contudo, elas são um recurso e tanto para alongar a silhueta e esnobar o senso estético da velha elite.

Reinvenções na silhueta e naturezas híbridas

Acompanhando os movimentos de emancipação das mulheres, a reinvenção da silhueta feminina já é uma obviedade para os que acompanham o trabalho de Rei Kawakubo. Nas recentes propostas da alta-costura, especialmente para Iris Van Herpen, Viktor&Rolf e Balmain, contudo, ela assume um propósito: fugir do falocentrismo e trazer novas sugestões de exuberância. Para Van Herpen, o surrealismo, a imaginação dos cientistas do século XIX e as flores sugeriram humanos híbridos. As modelos da Valentino ganharam pétalas nos cílios, transformando-se em fadas.

Na Margiela, as criaturas de gêneros fluidos saltavam dos murais grafitados de John Galliano, que deslocou peças de seus usos convencionais para criar novas realidades. Para o estilista, o artificial torna-se o autêntico, como se novos seres guardassem as respostas para a distopia do presente.

A beleza que questiona

Pierpaolo Piccioli, tem resgatado, com maestria, o desejo da juventude pela exuberância da alta-costura. Talvez porque Piccioli não tema a beleza do mundano e a abrace sem os improdutivos pudores moralistas das novas gerações. Com volumes e cores contrastantes (a grande disruptura do vestuário nos últimos meses), Piccioli lançou ainda uma nova cartada para a semana da haute couture parisiense: a maioria de seu casting foi composto por modelos negras, com Adut Akech desfilando a primeira peça da coleção e Naomi Campbell encerrando o espetáculo.

“O vocabulário, não a linguagem, da alta-costura mudou”, afirma o estilista. As mudanças estão nas formas como nos comunicamos. Assim como o diretor criativo da Valentino ateve-se à essência da beleza e re-imaginou os clichês de Beaton, talvez não devêssemos desviar o olhar da exuberância de nossas expressões autênticas. Culpados, mas não responsáveis pelas fraturas do presente, nos agarramos ao minimalismo caucasiano como sobreviventes se agarram a boias em alto-mar, sem que consideremos o potencial nutritivo do que nos rodeia. Não temamos, portanto, a beleza. Questioná-la, contudo, é preciso.

Fontes das imagens: AnOther, Vogue, W Magazine.
Autor
Jornalista formada em Comunicação Social pela UFMG e estudante de Design de Produto na UEMG. Engulo livros e revistas, mas não cuspo fogo! Acredito que a moda é um potente meio de expressão das particularidades de cada um. Mas quando percebi que pessoas como minhas amigas e eu não estávamos nas revistas que comprávamos, desassosseguei de vez. A gente adora tendência, mas o propósito e a consciência vêm em primeiro lugar. E foi movida por essa busca que me engajei em cobrir moda com os olhinhos brilhando e o dedo em riste. Colaboro com a Review Slow Living e publico narrativas livres em meu perfil no Medium.

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