“Amamos nossas filhas, mas pensamos primeiro em nós dois”

 

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Lola e Raul cruzaram a fronteira dos 40. Estão juntos a metade desse tempo, têm duas meninas e se amam perdidamente. Dá pra ver, e nem é pelo jeito que se olham. Num
sábado qualquer, numa cafeteria, os dois aproximaram as cadeiras de supetão e acariciaram as coxas com um tesão atípico. Não é fácil ver um casal maduro se encostar
assim, em público, ainda mais depois dos filhos. Nos detalhes, eles quebram a normalidade.

Nesse dia mesmo, chegaram de motocicleta. Lola dirigia a Harley Davidson e Raul andava na garupa. “Ele morre de medo de moto. Só aceita passear no fim de semana”, contou. A entrevista era sobre mulheres motociclistas, mas, com meus 33 anos batendo à porta, a conversa acabou em maternidade – se é pressão ou instinto, um dia iremos saber.

“Amamos nossas filhas, mas pensamos primeiro em nós dois. A gente até brinca que nós nos bastamos”, disse Raul. Fiquei impactada por essa frase. Não parecia que amavam menos as crianças por se amar demais, longe disso. No coração cabiam todos. O susto foi pela naturalidade com que relativizavam aquela máxima do amor incondicional e supremo de mãe e pai.

Difícil opinar quando a maternidade não faz parte da minha vivência… Fato é que gostei de ouvir aquilo, apesar da franqueza que incomodou os ouvidos e agitou a mente. Acima de qualquer julgamento, entendi que amar o filho é natural. Um amor que corre no sangue, profundo que até dói o coração. Mas amar o marido e a esposa, não.

O amor de casal é construído, fruto de escolha diária. “Primeiro, éramos namorados, nos casamos e, depois, viramos pais. Não vamos inverter essa ordem”, explicou Lola. Antes de ser quatro, eles eram dois e, por isso, de tempos em tempos, se permitiam arrumar um momento pra ficar a dois: no bar, num passeio, na cama.

No dia da nossa conversa, no último agosto, as meninas estavam na colônia de férias. Não era férias, mas Lola e Raul decidiram investir numa programação infantil que os deixasse liberados para namorar um fim de semana por mês. Para compensar o gasto, as meninas não faziam aula de inglês.

Eles compreendiam que, mais valioso que um curso de línguas, era cuidar da base da família: a relação do casal. Longe de descuidarem da responsabilidade como pais,
entendiam que, se essa base não está firme, o mundo das crianças perde a estabilidade. Cultivar o amor entre eles era, portanto, uma das maneiras de criar bem as filhas.

Infelizmente ou felizmente, ainda não inventaram relacionamento que funcione no piloto automático. Aquele em que você dá dois ou três beijinhos, engata a primeira e vai. É verdade que nem sempre as circunstâncias favorecem os encontros de casal e ser eternos namorados não é ser namorados como no início de tudo, disseram.

Mas, nessa loucura de se multiplicar e se doar para o outro, tentavam cuidar do amor do casal com o mesmo carinho e zelo que cuidam das crianças. Esse era o alicerce da família deles. E, mesmo sem poder prever o futuro, diante do imponderável da vida, os dois sabiam que jamais se arrependeriam de ter dedicado tempo e tratado como prioridade o amor que deu origem a tudo, inclusive às filhas.

Autor
Jornalista e celebrante de casamentos na Amor Sempre Vivo. Acredito em três verdades absolutas: pessoas precisam ser ouvidas, histórias precisam ser contadas e a razão para nossa existência está em amar e ser amado. É por isso me tornei mais do que jornalista, uma jornalista que conta histórias de amor. Tive clareza desse propósito quando eu e Pedro celebramos nosso próprio casamento. Depois daí não parei mais. Aqui, a repórter dá vazão a tudo aquilo que faz o coração pulsar e mantém o amor sempre vivo.

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