O “amor próprio” é mesmo a solução que queremos?

 

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Em maio desse ano — o conhecido “mês das noivas” — uma empresária do ramo de casamentos, em Belo Horizonte, colocou o vestido de noiva e proferiu votos para si mesma enquanto erguia um espelho refletindo seu rosto. Esse teria sido o “primeiro” autoproclamado casamento “sologâmico” no Brasil.

A empresária que casou “consigo mesma”, junto com a sua cerimônia, lançou um negócio de casamentos “sologâmicos” — o primeiro no país a oferecer um serviço que já existe nos Estados Unidos. A “sologamia”, segundo os adeptos, seria um compromisso matrimonial consigo mesmo. Nas palavras da empresa, “é algo que é feito para a honrar a jornada de cura, para mostrar que essa pessoa aprendeu a ter amor próprio e se compromete a manter isso”.

“Você merece ser amada”, “às vezes, o que você está procurando está dentro de você”, “se dê amor”: essas são as chamadas das redes sociais da empresa. Muito parecido com o que disse a primeira mulher a casar consigo mesma no mundo, Laura Mesi: “acredito firmemente que, antes de tudo, devemos amar a nós mesmos. Você pode ter o conto de fadas sem o príncipe.”

Para além dos problemas de classe [claramente não se trata de uma questão importante ou acessível aos mais pobres], e os problemas sexistas da própria sologamia [na perspectiva capitalista da sologamia, os homens, ao que parecem, já são sologâmicos], temos aqui outro problema de natureza psicológica e filosófica. Se a pergunta que o serviço nos coloca é “quero ou não quero ter o conto de fadas sem o príncipe?”, a pergunta que deveríamos fazer é: “quero mesmo ter o conto de fadas?”.

Para além, há outro questionamento: o conto de fadas não seria exatamente o que ele diz ser? Um conto, uma fabulação? Algo imaginado para uma educação moral de crianças?

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A “sologamia” vende aquilo que inevitavelmente já vivemos: nossa condição de estar no mundo é estarmos na companhia de nós mesmos, sem que seja possível nos recusarmos. Podemos nos relacionar com um, com muitos, casarmos com alguém, vivermos ao lado dessa pessoa de forma absurdamente romântica até a nossa morte: mesmo assim, a condição anterior para eu estar com o outro é que eu não posso ser o outro, e o outro não pode ser eu. Somos, inclusive, seres “sologâmicos” porque somos seres sociais: estar com o outro é, exatamente, separar um “aqui”, onde eu localizo um “eu”, e um “lá fora”, onde eu direciono meu desejo pelo outro.

O serviço do “casamento sologâmico” talvez seja o ápice de um discurso muito frequente na cultura capitalista de hoje; é um discurso que atravessa desde um “feminismo” consumista e liberal, a uma espiritualidade empreendedora não tão profunda, ligada estritamente ao frio controle de si e ao esquecimento das frustrações: o discurso do “amor próprio” e do “auto cuidado”.

O que chamamos por “amor próprio”? Da forma como o conhecemos, não parece ser um sinônimo para a relação positiva que temos de nós mesmos, ou um desejo de vida: parece, na verdade, algo que ninguém possui. Eis aqui dois usos capitalistas dos muitos usos capitalistas desse termo:

1) o “amor próprio” é o nome que damos para alguma ideia abstrata, dificilmente reconhecível, de algo que, “um dia”, encontraremos ou que já acreditamos possuir, e que nos tornaria indivíduos supremos, plenos, invulneráveis: nada me abala mais, porque eu possuo “amor próprio”; nenhuma relação amorosa poderá causar dano a mim, porque eu possuo “amor próprio”;

2) o “amor próprio” é aquilo que eu aciono para dizer que eu tenho uma relação inteiramente, incondicionalmente positiva comigo mesmo: não é que eu estou, de fato, apaixonado por mim mesmo, mas é que eu prefiro acreditar que sim, e que eu sou a pessoa mais “amável” possível, porque a ideia contrária seria dolorosa demais; nessa mesma lógica, segue o uso capitalista do “autocuidado” — o cuidado aqui não é nada mais do que a desculpa para sermos estritamente desconsideráveis com o outro, e jogarmos qualquer dano acidental na justificativa de que estamos “cuidando” de nós mesmos.

Nessas concepções, “amor próprio” é retornar quase que um “amor de mãe incondicional” a nós mesmos — um amor que, diga-se de passagem, é bastante condicional. Será mesmo que a exigência de nos amarmos a todo tempo é, de fato, uma relação verdadeiramente positiva? Não seria o caso de, assim como o trabalho do cuidado de uma criança envolve disciplina, ordem e sofrimento, o “autocuidado” de nós mesmos nos deveria exigir sermos, eventualmente, um pouco duros com nós mesmos?

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Discussões estritamente sobre o amor são raras na filosofia. Não se trata de um tópico que não venha geralmente embebido em outras discussões filosóficas. Talvez duas referências aqui nos levem a outra concepção de amor: bell hooks e Emmanuel Lévinas. A primeira nos lembra que o que chamamos de “amor” é um sentimento constituído por um discurso e organização social e que é politicamente regulado: uns são ensinados a amar mais que os outros, enquanto outros são ensinados que são menos dignos de amor que outros. Mas o que é o “amor”? Para Lévinas, não se trata de uma relação consigo, mas com o outro. Eu só posso amar o outro, porque o outro é a única coisa que não posso controlar: ele é o mistério, e o amor, ao contrário de um sentimento calculado, é aquilo que nos dirigimos para o desconhecido, o imprevisível, o inevitável. Se eu me “amo”, eu só posso amar o mistério e desconhecimento que também sou para mim mesmo.

Slavoj Zizek torna a discussão sobre o “amor próprio” ainda mais complexa: “e se eu for, na verdade, cheio de merda?”, ele questiona. “Eles dizem que para amar os outros você tem que amar a si próprio — é mesmo? E se o oposto vigorar: eu amo os outros para escapar de mim mesmo e só posso amar a mim mesmo na medida em que seja capaz de amar os outros?”. A pessoa que alega possuir um “amor” incondicional a si mesmo talvez viva secretamente no terror de descobrir que ela não alcança e nunca alcançará a autoidealização positiva que criou de si.

Talvez o gesto radicalmente amoroso que podemos fazer para nós mesmos seja exatamente o contrário que o “amor próprio” ensina: amar significa conhecer e descobrir que não somos aquilo que imaginávamos ser e que essa é a própria condição de “ser” algo. Estamos cegos sobre parte de nós mesmos, incessantemente em descoberta.

Em palavras mais grotescas: o gesto de amor não cheira a rosas, mas cheira a nossa própria merda. O gesto de amor é aquele que reconhece que somos vulneráveis, responsáveis, egoístas e que é bastante possível encontrarmos, em algum momento, alguma parte horrível de nós mesmos.

O “amor próprio”, por sua vez, nos diz para fazermos igual Dorian Grey, o personagem de Oscar Wilde: completamente ciente das suas próprias perversões, o belo Dorian Grey idolatrava a própria imagem, por ela ser a extrema antítese do que ele, de fato, era. O que o destruía, no entanto, não era a sua perversão em si, mas a negação frustrada que ele fazia em tentar esquecê-la.

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O problema não parece ser o fato de que não somos inteiramente “amáveis”, mas o fato de recusarmos incessantemente a realidade: nós *não* somos totalmente amáveis. É a própria exigência do autoamor completo e incondicional que torna impossível a tarefa de “amarmos a nós mesmos”: como eu posso amar se, revirando a bagunça dentro de mim, descubro coisas detestáveis? Descubro aquilo que eu não quero ver?

Reconhecer que somos seres tão capazes da solidariedade quanto da perversão é o primeiro passo para entendermos que não é tão importante assim se “amar”, no sentido capitalista do termo. Devemos, é claro, ter uma relação positiva com nós mesmos: sei que parte de mim parece me assustar, sei das minhas fragilidades e capacidades de causar dano e, mesmo assim, desejo viver e estar com o outro. Em outras palavras: se amar é não se importar tanto se se é inteiramente “amável”.

Se amar também é assumir uma relação crítica consigo mesmo, e a crítica geralmente vem das nossas relações uns com os outros. O outro é a figura que nos ajuda a investigar a nós mesmos, de uma forma que nos coloca em um lugar extremamente vulnerável, expostos e necessitados do outro. Isso é, afinal, o trabalho do psicanalista: ajudar a reconhecer nossas fantasias, ajudar a darmos um relato de nós mesmos diante do outro. Amar aqui é um ato dolorosamente de ser desfeito e perder as certezas que tínhamos.

Diante do medo de que o outro seja uma grande decepção e nos revele que somos menos “amáveis” do que imaginávamos ser, devemos ter um posicionamento corajoso. Somos afinal, seres “sologâmicos” e extremamente dependentes. Como escreve Judith Butler, é somente se abandonarmos a ideia de que somos seres autossuficientes que, então, poderemos ser “perdoados” pelo outro por nossas falhas.

Isso porque a falha comum a todos nós é o fato de necessitarmos uns dos outros. A falha comum é sermos todos cheios ou parcialmente cheios de merda. Se eu entendo que os outros também são enfezados como eu, e ainda os amo, talvez, então, eu seja capaz de “me amar”, isto é, criar uma relação comigo mesmo que não disfarce ou esconda o meu lado “menos amável”.

Autor
Doutorando e Mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais. Jornalista desertor, hoje pesquisa ética e crítica na mídia e na vida cotidiana. Tio do Faísca e da Sushi.

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