Ana Elisa Ribeiro: longe da torre de marfim

 Ana Elisa Ribeiro. Foto: Adamo Alighieri

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Encontre o erro: “O trabalho do autor é simplesmente escrever”.

A frase, que representa uma visão comum do ofício de um autor, está duplamente equivocada. Primeiro, porque não há “simplesmente” quando fala-se de escrita. E, segundo, porque o trabalho do autor contemporâneo vai muito além da criação. A trajetória da poeta, contista, cronista e pesquisadora Ana Elisa Ribeiro, que inaugura a parceria entre a revista literária Chama e o GUAJA, dá a dimensão desse trabalho.

Aos 42 anos, Ana Elisa acabou de retornar de Paris, onde representou Minas Gerais na Bienal Internacional de Poetas de Val-de-Marne, ao lado de Fabrício Marques, Edimilson de Almeida Pereira, Lucas Guimaraens e Ana Martins Marques. Mas esse reconhecimento vem depois de muitos anos de dedicação à escrita.

Sua história na poesia começou há mais de 20 anos, com a publicação de seus versos em fanzines (Vitamina Rock, de Wagner Merije) e jornais (Estado de Minas e Suplemento Literário). O primeiro livro, Poesinha, saiu quando ela tinha 22 anos, na coleção Poesia Orbital, do poeta Marcelo Dolabela, que comemorava os 100 anos de BH. Depois veio Perversa (2002), publicado pela editora Ciência do Acidente, do escritor Joca Reiners Terron; Fresta por onde olhar (2008), pelo selo independente InterDitado; Anzol de pescar infernos (2013), pela editora paulistana Patuá, do Eduardo Lacerda; Xadrez (2015), publicado pela editora Scriptum, com design do poeta e designer Júlio Abreu; e Por um triz (2016), livro de poesia para um público juvenil, pela editora RHJ, ilustrado pelo artista visual Guili Seara.

Isso além dos poemas que estiveram em várias revistas literárias, jornais e antologias, inclusive traduzidos para o inglês, o espanhol e o francês, em países como México, Estados Unidos, França e Portugal.

Só que ser um autor não se resume ao “simplesmente escrever”. É preciso sair da famigerada torre de marfim e dialogar com leitores e outros autores. E Ana faz isso incansavelmente.

Semifinalista do prêmio Portugal Telecom, sua obra Anzol de pescar infernos, virou o espetáculo Só, com anzóis, exibido no Sesc Palladium, em 2016. A produção foi feita em parceria com a poeta Adriane Garcia (e seu livro, Só, com peixes) e com o músico Paulo Sérgio Thomaz. No mesmo ano, Ana Elisa ganhou o prêmio literário Cidade de Manaus pela obra ainda inédita Álbum, que será publicada neste ano pela editora belo-horizontina Relicário. E ainda levou sua poesia para o Encontro Internacional de Mulheres Poetas, na Colômbia.

Ela ainda participou de eventos e saraus, a exemplo do Psiu Poético de Montes Claros (onde foi homenageada em 2015), o Fórum das Letras de Ouro Preto, o FliBH, o FliAraxá, Festivais de Inverno em Diamantina, Ouro Preto, São João del Rei, Festa Literária Internacional de Paraty, além de projetos como a Mostra de Design do Café com Letras, no início dos anos 2000, e o projeto Verbo Gentileza, na praça da Liberdade.

Para encerrar essa apresentação, é importante lembrar que a movimentação de Ana Elisa não é somente em prol da sua própria poesia. Ela é criadora, curadora e executora, ao lado de Bruno Brum, da coleção Leve um Livro. Eles já distribuíram 180 mil livretos de poesia contemporânea, de 73 autores brasileiros.

Ficou interessado em conhecer a obra dela? Leia, abaixo, três poemas inéditos da autora.

Para conter o incontinente

vamos escrever minúcias

de nossos melhores dias

na tentativa de que detalhes

não nos escapem da memória fugidia

[cada vez mais fugidia

e adoecida]

 

é certo que o corpo

reage também na lembrança:

o coração se aquece, os pelos arrepiam,

a boca seca ou se alaga.

 

E as fotos? Ajudam.

Mas não há nenhuma

em que estejamos próximos

um do outro.

 

Nem com palavras

nem com fotografias

conseguiremos

nos tocar mais

 

Mas estou certa

de que o corpo

reage também na lembrança:

as mãos tensas, o olhar distante,

o semiaberto da boca

para o beijo que não houve.

 

Epifania

para S

segunda despedida

desta vez, temos uma fotografia

com isso poderemos sempre mirar

a rambla, os prédios & nossa alegria

 

o que será nossa vida, além de

um cordão de despedidas?

fio de adeus às vezes próximos

– outra vez raros feito o tempo

 

que desafortunada

a velhice demente de minha bisavó:

que acordava sempre

no mesmo dia

da morte do marido

 

tempo vindo, tempo ido

nosso patrimônio seja

qualquer lembrança vívida

à luz de sorriso e muito livro

 

Nem Drummond nem Torquato

(menos ainda Adélia)

quando nasci

não veio anjo

algum

 

o Sol se escondia

do outro lado do planeta

 

e eu surgi

completamente

noturna

 

por entre as pernas

roliças

de minha mãe:

 

“vai, filha,

desbravar trilha”.

 

A voz do autor

Autor
Publicação belo-horizontina dedicada à produção literária autoral mineira e brasileira. Em parceria com o GUAJA e com a curadoria de Flávia Denise e Val Prochnow, a revista publica neste espaço, mensalmente, contos, poemas e trechos de textos de autores locais.

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