Ancestralidade empreendedora: que p&%#@ é essa?

 

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Para João Souza (FA.VELA)

Falar sobre a ancestralidade do empreendedorismo não é uma tarefa fácil. Demanda estudo, pesquisa e épica consulta ao grande oráculo Google. Já tentaram digitar empreendedorismo nos sites de busca? Sempre aparece uma dúzia de toneladas de endereços eletrônicos. Há muita gente falando muito a respeito deste tema. Por que será? Desde quando se fala, pesquisa ou busca sobre esse tema? Como é que ele chegou até aqui no país tropical? Empreender no outro lado do planeta é a mesma coisa que empreender no outro lado da esquina? Quem começou com essa história? Todos estes são os mais rasos questionamentos que surgem quando o tema é a ancestralidade do empreendedor.

Encavucar as raízes dessa história é também conhecer um pouco sobre a nossa história, sobre o que está acontecendo hoje em dia no mundo do trabalho, no perfil do profissional que as empresas demandam, no que o mercado procura. Daí para ter desdobramentos com relação à economia e demais áreas do conhecimento pertinentes a nossa formação é um pulo.

Pode-se pensar que o mesmo ocorreria para qualquer tipo de profissão; então pra que pensar no empreendedor em especial? É uma questão basilar: ser ou não ser empreendedor é um fato que impacta diretamente no surgimento e na escolha de qualquer outro tipo de profissão. Aliás, na atual conjuntura, tornar-se empreendedor é um fenômeno que pode transformar qualquer outro tipo de profissão. Olhem só: o que significa ser um advogado hoje em dia (e num futuro próximo)? E um contador? Professor, vendedor, operador de callcenter, e muito em breve médico, recepcionista, vigilante, e mais um rol demasiado de outras ocupações?

Entender como o empreendedorismo pode modificar tão complexo cenário é saber que as mudanças nessas profissões, seja de forma direta ou indireta, poderão ter impacto na formação social que nos agrupa. E até mesmo naqueles que parecem não estar mais agrupados em torno desta perspectiva: aqueles que se julgam vocacionados para um emprego fixo, estável, rotineiro e suficientemente burocratizado, na concepção original do termo.

Em um país que historicamente viu no emprego formal e especializado uma possibilidade de carreira é muito difícil empreender. Isso é quase óbvio, não acham? Basta olhar em volta e perceber a quantidade de cursos preparatórios para concursos. Basta ver que eles proliferaram virtualmente. Basta acessar os dados coletados pelas edições do GEMCONSULTING (capturado em 10/08/18) para que possam ver que o nosso empreendedorismo – pelo menos aquele pesquisado de 2001 até ano passado é mezzo oportunidade mezzo necessidade. É medianamente feminino e masculino, gera poucos empregos (muito MEI formal ou informal), gera pouca renda (mais de 65% até 3 salários mínimos) e talvez o mais importante: não possui quase nenhum potencial de inovação (mais de 90% já conhece o produto/serviço). Esse é o quadro geral de empreendedorismo no Brasil.

Como chegamos até aqui? O que faremos a partir daqui? O que já está acontecendo no restante do mundo que está impactando nessa situação? O que iremos fazer daqui em diante? Como iremos escolher nossas carreiras? Será que fazer/assistir a certo curso pode fazer com que minha renda aumente? São só questionamentos que nos surgem, urgindo respostas, solicitando outras dúvidas e que podem mudar a nossa visão sobre tudo que temos visto nos últimos anos.

Um profundo conhecimento sobre a nossa ancestralidade empreendedora pode nem chegar a responder tais profundas interrogações, mas com certeza pode nos dar (ou não) um pouco mais de esperança.

Poderia ficar recitando aqui para vocês uma trajetória conceitual que iria de Jean Baptiste Say até Osterwalder, passando por Schumpeter, Fillion e Dolabela, mas aqui não é o local para aula né?! Além do que, apesar de importantes para qualquer um que se aventure pela história e pela conceituação do empreendedorismo, talvez ele pouco reflita sobre as raízes empreendedoras brasileiras.

Estou falando desse empreendedorismo que hoje é a nossa cara – pouco inovador, serviço ligado a produto/mercado existente, que gera pouco emprego e renda – e que nasceu lá trás, não somente com Barão de Mauá, mas com as escravas arrumadeiras de casa, cozinheiras, serviçais da casa grande, com os ferreiros, com os carpinteiros, com os serralheiros, com os catadores de lixo, com as costureiras, com as telefonistas, datilógrafas, ascensoristas, atendentes de telemarketing, cobradoras, cuidadores, vendedores ambulantes e toda a sorte de profissões que ainda coexistem nessa loucura chamada Brasil.

Por outro lado é bom lembrar que esse tópico tão caro e tão raro da nossa história tem outra vertente que o complementa indispensavelmente: àquela dos imigrantes, dos europeus que por aqui se estabeleceram e que também agiram, comportaram-se como empreendedores e, por assim dizer, também possuem um relevante contribuição para com o nosso histórico empreendedor (se é que ainda o temos).

Tal como uma burguesia atrasada, abriram padarias, confeitarias, pequenas lojas de calçados, pequenas fábricas de plástico, de arame farpado, açougues, armarinhos, lojas de móveis, de roupas e outro sem-número de atividades comerciais que certamente corroboram com esse perfil tão eclético que é o do empreendedor brasileiro: um faz-tudo, que se ajeita com jeitinho sob qualquer adversidade, que saca a distância um problema e já tenta um caminho alternativo para a sua solução, um cara que quer ganhar vantagem em tudo, certo?

Já por fim, impossível falar sobre o título sem citar a inequívoca “contribuição” da literatura norte-americana para a composição de todo esse cenário. Ainda muito timidamente a literatura acerca do empreendedorismo tem sido produzida por autores legitimamente brasileiros. Temos espasmos de produções científicas e apropriadas da cultura empreendedora brasileira. Numa época alguns falam por aqui, em outra falam mais por ali. Nada muito verticalizado sobre o título.

Em compensação, a literatura norte-americana tem se expandido muito mais: não só em profundidade quanto em ampliação do seu escopo. Muito há pesquisado e escrito pelas terras do Tio Sam. E isso acaba por tornar-se a fonte de referência para a moçada do lado debaixo da linha do Equador. Normal. Mas poderia ser pelo menos mais equilibrado.

Fato é que, se você quer empreender, saiba que esta não é uma atividade qualquer. Isso aqui é o Brasil! E o nosso ambiente de negócios não é para qualquer um.

Autor
Professor, mentor, fomentador, estudioso, facilitador e interessado em empreendedorismo e coisas afins.

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