Algo emprestado e algo azul: o potencial dos armários compartilhados para a sustentabilidade na moda

 Foto: Raw Pixel via Unsplash

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No dia 08 de março, Dia Internacional da Mulher, o cantor Tim Bernardes fez uma passagem alegre por Belo Horizonte para o lançamento do álbum “Recomeçar”. No final do espetáculo, encontrei com minha amiga, que por sinal, andava gripadíssima. Sabe como é, o cansaço é um inimigo e tanto para a imunidade. Estávamos na fila para conseguirmos autógrafos, e o teatro foi inundado por uma brisa fria, resultado da chuva que tingia a noite. Eu havia me esquecido do agasalho e usava o meu melhor vestido, um alegre modelito que fora adquirido durante o verão carioca para impressionar o meu então namorado. Meus braços finos ficaram completamente arrepiados, e minha amiga, de prontidão, jogou o próprio lenço sobre os meus ombros.

A estampa do lenço traz um índio sisudo e determinado, e é toda pontuada por bonitos tons de azul, branco e vermelho. Minha amiga me contou que o lenço já ficara seis meses com um amigo, e ela, aos poucos, entendia que a peça, comprada em São Tomé das Letras, fora feito mesmo para circular.

Uma tradição nascida na Inglaterra, ainda na época Vitoriana, afirma que a noiva precisa usar “algo velho, algo novo, algo emprestado e algo azul” durante a cerimônia. Não que eu tivesse ido a algum casamento inglês. Contudo, lembrando-me do lenço que está cuidadosamente dobrado em minha gaveta, e para as muitas aventuras que passei sem ter os itens apropriados para tal, esse costume só ganha mais sentido. Orgulhar-se das heranças de família e compartilhar memórias com amigos talvez seja a maneira mais singela de combater os excessos do consumismo.

Armários compartilhados: está na hora de usar um jeans viajante!

Os brechós já eram o meu destino favorito para encontrar peças fantásticas e repletas de histórias curiosas. Mas, recentemente, o armário compartilhado também se tornou uma alternativa tão incrível quanto. Tudo funciona como uma espécie de locadora: assinando um plano, você tem direito a usar algumas peças por um determinado período de tempo. E assim como nós nos certificávamos de rebobinar as fitas e verificar se havia arranhões nos DVDs, você também precisa garantir que terá cuidado com as roupas.

Em Belo Horizonte, temos dois exemplos desse modelo de negócio: o Armário Compartilhado, que fica ali no Floresta, e o Cinco-Cinco, no Funcionários, a caminho do GUAJA!

Conversando com Maíra, arquiteta e uma das três cofundadoras do Cinco-Cinco, percebi que a economia compartilhada já não é um papo exclusivo de jovens com camisas de flanela. Maíra me conta que tem clientes de diversas idades, incluindo adolescentes e idosos.

O espaço levou cerca de sete meses para ser desenvolvido, e foi inaugurado em novembro do ano passado. Além de Maíra, entraram na empreitada Isis, estudante de Design de Moda, e Rafaela, advogada. Amigas de infância, as três viviam em uma vila de casas geminadas no bairro Jaraguá, e acostumaram-se a compartilhar seus brinquedos com os vizinhos, que também emprestavam os seus. O nome deste pequeno condomínio acabou batizando o empreendimento do trio.

O aluguel de roupas já era popularizado no segmento de moda festa. Maíra, Rafaela e Isis, contudo, tinham receios quanto à recepção do público para o aluguel de roupas casuais. Felizmente, segundo Maíra, as pessoas não só têm aderido ao serviço como também relatam repensar seus hábitos de consumo. Aos poucos, elas trocam “as corridinhas ao shopping” por uma peça de qualidade que possa atendê-las por um curto período de tempo. Aquela blusa de lantejoulas douradas que você comprou somente para usar na festa de sua amiga prepara-se para a aposentadoria.

As peças disponíveis no acervo são doadas por marcas locais em um esquema de permuta. Assim, a Cinco-Cinco divulga o trabalho delas, e os clientes contam com peças novinhas.

E se as roupas circulam, elas coletam histórias. Maíra afirma que sabe bem por onde as peças passaram e as aventuras que já viveram. Pergunte a uma das atendentes para você ver!

Pelo Brasil, há ainda outros modelos de armários compartilhados, como a House of Bubbles, que conta também com uma lavanderia e um atelier. São pequenas ideias que, pouco a pouco, retomam o papel das roupas no registro dos tempos em que vivemos. Diante dos feeds que se atualizam rapidamente, recuperar as memórias de broches, jaquetas, brincos e vestidos torna-se um pequeno ato de resistência.

Autor
Jornalista formada em Comunicação Social pela UFMG e estudante de Design de Produto na UEMG. Engulo livros e revistas, mas não cuspo fogo! Acredito que a moda é um potente meio de expressão das particularidades de cada um. Mas quando percebi que pessoas como minhas amigas e eu não estávamos nas revistas que comprávamos, desassosseguei de vez. A gente adora tendência, mas o propósito e a consciência vêm em primeiro lugar. E foi movida por essa busca que me engajei em cobrir moda com os olhinhos brilhando e o dedo em riste. Colaboro com a Review Slow Living e publico narrativas livres em meu perfil no Medium.

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  1. Olá Ana, tudo bem?

    Adorei o seu texto e também sou amante de brechós. Adoro as roupas com histórias e ao compartilhar podemos ajudar um pouquinho na moda mais consciente e colaborativa, não acha? Acho que o mundo vai por aí mesmo. Quero aproveitar para falar que eu também trabalho com vestidos, roupas e acessórios de festa compartilhados, sempre prezando por peças diferenciadas e estilosas. Meu ateliê fica no Santo Antônio, em BH. Se tiver um tempinho te convido a visitar o nosso site http://www.decabide.com.br. O nosso Instagram é @decabidebh

    Bjos e parabéns pelo texto!

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