BH, Cidade planejada e Arquitetura Neoclássica

 Foto: Manoel Ferreira

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No artigo anterior, fizemos uma apresentação do ARQBH. Neste e nos próximos artigos faremos uma linha do tempo da arquitetura de Belo Horizonte, mostrando edifícios importantes e explicando os estilos arquitetônicos de cada período. Começamos pelos primeiros anos, da inauguração de BH, em 1897, até o fim dos anos 1920.

Cidade Planejada

No final do século XIX o Brasil vivia um período de transformações com a abolição da escravidão e proclamação da república, ambos movimentos inspirados pelo iluminismo e pela revolução francesa. Lideres políticos e intelectuais tinham a ambição de construir um país moderno, abandonando o passado monárquico e colonial.

Em Minas Gerais estas mudanças refletiram na transferência da capital, da velha Ouro Preto, para uma nova capital inteiramente planejada. O projeto da nova capital, iniciado em 1894 e finalizado em 1897, foi desenvolvido por uma Comissão, liderada pelo engenheiro Aarão Reis.

O urbanismo moderno e racional previa uma malha geométrica rigorosa, expressando a habilidade do homem de controlar a natureza. O novo traçado urbano ignorou as particularidades do vilarejo existente: construções, relevo, matas e rios foram encobertos pelo desenho definido pelos planejadores. Assim nasceu Belo Horizonte, arrasando seu passado para tentar construir um futuro ideal.

Arquitetura Rural

Da arquitetura rural do Curral Del Rei resistiram três construções: o Casarão Sede da Antiga Fazenda do Leitão — hoje museu Abílio Barreto (projeto de José Cândido da Silveira, 1833), a Casa da Fazendinha na Barragem Santa Lúcia (arquiteto desconhecido, 1894) e o Casarão do Centro de Referência da Memória de Venda Nova (arquiteto desconhecido, 1894).

Inspiração Neoclássica

Enquanto uma parte da comissão construtora desenvolvia o plano urbanístico, outro grupo ficou encarregado de desenhar os edifícios que comporiam a paisagem. Este grupo de arquitetos definiu a arquitetura neoclássica como estilo oficial da nova capital. O estilo neoclássico, que já estava em baixa na Europa, representava a solidez, valores democráticos e retomada histórica às raízes da civilização ocidental: antiguidade grega e romana. As variantes da arquitetura neoclássica empregada nos primeiros anos de Belo Horizonte podem ser simplificada em 2 variações, de acordo com a função do edifício: pública ou civil.

Edifícios públicos

Os edifícios públicos (edifícios do governo, escolas, estações, edifícios institucionais, etc.) seguiram a corrente neoclássica mais pura, utilizando formas regulares, composições simétricas, predomínio de massa em relação às aberturas, além de ornamentação com elementos clássicos da arquitetura greco-romana (colunatas, frontões triangulares, capiteis e cúpulas) e símbolos republicanos (brasões, figuras públicas, bandeiras, etc.). Os edifícios públicos eram altos para os padrões da época e elevados sobre escadarias com intuito de reforçar a impressão de poder. Os interiores eram ricamente ornamentados com pinturas, em geral representando deuses e heróis gregos, além de elementos de ferro fundido como luminárias, escadarias, guarda corpos, etc.

Os edifícios mais importantes deste grupo se encontram na Praça da Liberdade: o Palácio da Liberdade, a Antiga Secretaria do Estado da Fazenda – Memorial Minas Gerais, a Antiga Secretaria do Estado da Educação – Museu Minas e Metal e a Antiga Secretaria de Obras Públicas – IEPHA, todos projetados pelo arquiteto José de Magalhães, entre 1895 e 97, além da antiga Secretaria do Estado da Segurança Pública – CCBB projetada por Luiz Signorelli, entre 1926 e 30.

Em outras áreas da cidades destacam-se o Tribunal de Justiça Rodrigues Alves (projeto de Raphael Rebechi, 1912), a Escola Estadual Barão do Rio Branco (Eng. Jayme Salse, 1914), a Estação Ferroviária Central e Palacete Dantas (Luiz Olivieri, 1922 e 1915) e o Automóvel Clube (Luiz Signorelli de 1929).

Estação Central. Foto: ArqBH/Luiz Olivieri

Arquitetura Civil

A arquitetura civil foi influenciada pela lógica da industrialização. A Comissão Construtora definiu um sistema composto por tipos de planta pré-definidas, com de alternativas de telhado e ornamentação de fachada que podiam ser combinados em diferentes configurações. Os edifícios civis eram mais baixos que os públicos e a aplicação dos ornamentos não seguia os padrões rígidos oficiais, variando entre exagero e moderação, de acordo com o poder econômico do proprietário.

Este modelo se aplicou a casas e imóveis comerciais planejados pela Comissão Construtora e influencio os arquitetos e construtores locais. Alguns exemplos importantes são a casa Ouropretana – Rua Pernambuco 936 (Luiz Olivieri, 1902), Salão Vilacqua – Rua Gonçalves Dias 1218 (Edgard Nascentes Coelho, 1909), Casa da Santa Rita Durão 1263 (José Lapertosa, 1912) e a Casa da Rua Timbiras 1697 – atual UMEI (Edgar Nascentes Coelho, 1898).

Arquitetura Neogótica

Por fim, vieram os edifícios religiosos que se referenciaram na arquitetura neogótica. O estilo neogótico do século XIX foi uma recuperação do gótico, estilo originado nas catedrais do início do século X do norte da França. As principais características são a verticalidade, vitrais alongados, torres ponteadas por pináculos, arcos ogivais e ornamentação com rosáceas, florões e gárgulas.

Algumas das principais igrejas com arquitetura neogótica em BH são a Catedral de Boa Viagem (arquiteto Manoel Ferreira Tunes, 1913/1922), Basílica de Lourdes (arquiteto não identificado, 1916), Igreja Sagrado Coração de Jesus (Edgard Nascentes Coelho, 1900) e Igreja São José (Edgard Nascentes Coelho, 1901).

Foto: Manoel Ferreira

BH moderna

Os estilos oficiais definidos pelos poderes político e religioso predominaram nestes primeiros 33 anos, uniformizando o cenário de Belo Horizonte. Após 1930 esse panorama começou a mudar. No próximo texto continuaremos a linha do tempo visitando as décadas de 1930 a 1950, período de muita diversidade nos estilos arquitetônicos, resultado da assimilação das novidades vindas do velho continente.

Autor
O ARQBH é um guia de arquitetura de Belo Horizonte. Tem como objetivo contribuir para a preservação e divulgação da arquitetura produzida em BH. Foi criado em 2005 como forma de organizar e divulgar publicamente um grande arquivo de fotos digitais. É mantido por Marcelo Palhares Santiago e Flávia Gamallo Gondim Santiago, arquitetos que decidiram unir seus dons e paixões pela fotografia e arquitetura em favor da memória e história de Belo Horizonte. Em 2015 o trabalho recebeu o Prêmio Gentileza Urbana, concedido pelo IAB-MG.

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