Arte e rua: um encontro rumo à ocupação urbana

 Foto: William Mesquita

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No sétimo encontro do Além do Rolê, com um timing perfeito que nos é peculiar, colocamos em pauta o efervescente movimento de ocupação urbana por meio da arte em Belo Horizonte. Num mesmo barco, pessoas e iniciativas que se expressam em diferentes linguagens, mas se encontram em um ponto comum: a cidade como palco de manifestações que se potencializam na rua, no coletivo, no espaço que é democrático por essência.

Um time de convidadas e convidados que fazem a diferença na cena estiveram com a gente na última segunda-feira, representando tanto projetos de longa data, quanto recém-nascidos, unidos pela proposta de pensar a trajetória da arte urbana em BH e de trocar experiências para fortalecer a classe artística. Juju Flores (CURA – Circuito Urbano de Arte); Binho Barreto (artista visual, muralista, professor e um dos idealizadores do Bazar da Junta); Bernardo Biagioni (Instituto Amado); Ivan Neves e João Pedro Ilanes (Museu de Rua), Maria Silvia (Coletivo SAN.GRIA) e João Perdigão (historiador e jornalista) foram os nomes que marcaram presença e trouxeram contribuições super relevantes para nossa conversa!

Fazer arte é fazer política

Principalmente quando estamos falando da arte que é produzida na rua, que é o instrumento fundamental que fortalece essa vertente artística. Política vem de polis, que no grego significa cidade. Não é pura coincidência.

Nossos corpos são políticos, cada criação conta uma história. Quando estamos nas ruas, nossas expressões são projetadas e muito mais visíveis. Criam-se novos públicos, novas relações e novos movimentos que articulam várias frentes — artes visuais, música, dança. São inúmeras possibilidades de ocupação, e é justamente isso que faz com que a arte pública se configure como uma área tão rica e diversa.

Especialmente no momento histórico em que estamos vivendo, a arte é resistência. É forma de questionar, problematizar e de direcionar nossos olhares a questões importantes da nossa existência e convívio social. Somada ao momento político, está a tempestade de informações às quais somos submetidos diariamente, e novamente a arte age no sentido de clarear nossa visão e nos colocar em contato com realidades que não a nossa. Enquanto a comunicação de massa vem para maquiar e confundir, a arte vem para revelar e conectar.

Pichação, grafite e muralismo

As fronteiras entre os tipos de intervenções de arte urbana são fluidas, existem vários pontos de interseção. As principais diferenças residem no tempo que se leva pra produzir cada um e na proposta de entrega ao espaço urbano.

A pichação é feita de forma efêmera, busca marcar várias partes da cidade e carrega uma conotação mais rebelde; o grafite aparece como uma manifestação que faz mais uso de cores e cria desenhos mais elaborados; e o muralismo consiste em pinturas em grandes formatos para ambientes de livre circulação.

Arte e rua para quem?

Um ponto bastante evidente na nossa roda do Além do Rolê foi a importância de se conhecer o contexto do lugar onde a arte será produzida. É preciso dialogar com aquela realidade, ouvir seus moradores e entender do que eles realmente precisam naquele momento. Não soa adequado, por exemplo, um mural “Paz e Amor” em um território que vive em situação de guerra.

Mais do que fazer a intervenção artística, é importante receber o chamado sociopolítico da arte, para que não fiquemos apenas na superfície, na questão estética. A arte cumpre completamente sua função quando desperta a consciência e provoca alguma mudança significativa — no olhar, no pensar, no agir, no sentir. É sua função educativa, do contrário, será apenas a arte pela arte.

Pensar a cidade e as formas como podemos ocupar suas ruas implica, necessariamente, em pensar em como as pessoas vão interagir com os processos criativos. Precisamos pensar em quem vive nas ruas, em quem mora nos arredores, em quem pode viabilizar o fortalecimento desses projetos, além do poder público, que nem sempre está aberto e interessado em incentivar iniciativas culturais. Inclusive, como ouvimos de vários convidados, normalmente as ideias nascem da vontade popular e se realizam também a partir de um esforço coletivo para fazer acontecer.

Pagando boletos com arte

Juju Flores foi bem clara em uma de suas primeiras falas do painel: ainda não se paga boleto fazendo arte de rua. A maior motivação vem do amor em fazer algo com esse significado e impacto. Muitas vezes os projetos, mesmo após várias edições, continuam no vermelho porque todo o investimento parte da própria equipe, até que se consiga angariar algum tipo de apoio. Mesmo com ações como financiamento coletivo, como foi o caso do coletivo San.gria, o retorno financeiro vem tempos depois, quando vem.

Além do amor, muitos projetos se realizam também pela visibilidade que proporcionam aos artistas, pela projeção de seus nomes, trabalhos e pelas outras portas que se abrem a partir da primeira realização.

Então, como valorizar iniciativas espontâneas e coletivas? Como promover tanto o fortalecimento criativo quanto o fortalecimento dos profissionais enquanto classe? Como articular as ações diretas com a luta institucional e continuar profissionalizando os artistas?

Daqui pra frente

Como de costume, várias sementinhas e questionamentos plantados em nossas cabeças pós-discussão. Como resposta, a certeza de que precisamos cada vez mais nos conectar para articular interesses e metas. É essencial se unir para criar um discurso forte e coerente com BH e o intenso movimento de ocupação urbana que aqui se desenrola e tanto encontra potencial. Exteriorizar e saber comunicar esse discurso é o que vai nos fazer ganhar relevância nacional e internacionalmente.

GUAJA no Rolê e Além

A série de painéis Além do Rolê se desdobrou a partir do GUAJAnoRolê, o guia cultural idealizado por Gabriel Prata que traz dicas dos mais variados eventos que movimentam a cena belo-horizontina. Estão nessa empreitada também a GoFree, plataforma de eventos que nos incentiva e acredita no poder das conexões, a Julia Abrahão, representante da Baer-Mate em BH, e a equipe de Comunicação do GUAJA.

Expandir as fronteiras do guia foi uma iniciativa essencial, que naturalmente atende a sua proposta de pautar questões relativas à cena cultural de BH. Nada mais coerente do que abrir e ampliar essa discussão, certo? Esse foi o sétimo encontro, mais um em que saímos com a cabeça fervilhando. Os outros painéis foram: Por que as coisas custam o que custam? Alô, Produção! , Fora do Eixo?Cena Musical Independente, Manas no Rolê e Carnaval: para onde vamos?.

Em 2019 voltamos com tudo com novos temas e encontros!

Autor
A paixão pela palavra escrita, falada ou não-dita fez de mim jornalista e publicitária pela UFMG. Nos encontros me redescubro, nos desencontros me reinvento e nas experiências me multiplico e inspiro para ir sempre além. Sou uma das mentes criativas do time de Comunicação do GUAJA: aqui dou vida às ideias, nomes às coisas e cores às palavras. Quer contar uma história ou dar play em um novo projeto? Me chama que eu vou.

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