A gente não precisa ir pro meio do mato pra verde perto

 

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Penso que as plantas que nascem em meio ao concreto têm algo de revolucionário. Eu costumava fotografá-las e em seguida postar em minha conta pessoal do Instagram. Vendo várias fotos do mesmo tema, uma prima me sugeriu: por que você não cria uma conta para documentar essas fotos? Gostei da ideia e comecei a pensar em qual nome eu daria a este projeto, o que me levou a algumas memórias.

Há alguns anos, no meio do mato e maravilhada frente a uma cachoeira na Floresta de Uaimii, aqui em Minas, me ocorreu que, eu estando ali ou não, olhos abertos ou fechados, o espetáculo da cachoeira existiria da mesma forma, vinte quatro horas por dia, sete dias por semana, um espetáculo que independe de público.

Andando pelas ruas de qualquer cidade, vemos toda uma arquitetura urbana que separa um espaço para a natureza em canteiros. Mas, como uma típica mãe, a natureza não entende de limites. Ela nasce e cresce onde dá, onde um passarinho ou o vento deixa uma semente, onde não houve uma poda definitiva, ou onde não tem ninguém. Uma planta vai nascer e existir independente de mais nada. Pensando em um trocadilho entre a existência e resistência, já que na cidade essas plantinhas são muitas vezes ameaçadas, veio o nome arvorexiste.

Comecei com a conta no Instagram em 2015. Desde então, publico as plantas resistindo no concreto quase toda semana. Não tenho hora nem dia para publicar, penso que, inconscientemente, o deixo fluir de forma natural. Depois que criei, foi e vem sendo muito interessante ver que várias pessoas pensam da mesma forma, reparam também nessa resistência urbana. Já encontrei inclusive instagrans-irmãos, e nos comunicamos sempre!

Além das comunicações virtuais, o arvorexiste me trouxe coisas que eu não imaginava. Uma delas, ou duas, foram convites para montar exposições das fotos, ambas na Praça da Liberdade. A primeira no ECO Encontro de Minas Gerais, em que a pessoa responsável me convidou pelo próprio Instagram, e a segunda para um edital do Espaço do Conhecimento da UFMG, chamado de “Ativismos Contemporâneos”, que projetou as fotos na fachada digital do mesmo prédio.

Mais uma vez, foi algo que aconteceu naturalmente.

O site, inclusive, foi assim também. Um amigo se dispôs a fazer, outros me ajudaram a revisar e a traduzir o manifesto, e em alguns dias tudo estava pronto.

Fico muito feliz em ver que outras pessoas compartilham desse mesmo olhar. E mais feliz ainda quando vejo que alguém começou a reparar nessas resistências a partir das fotos do arvorexiste.

Como o manifesto no site coloca, a existência das plantas na cidade se tornou invasão. Já li reportagens dizendo que a árvore “destruiu” um passeio. Outro dia, lendo sobre a história do bairro Santo Agostinho, li a frase “Nos primeiros anos, suas vias ainda eram impactadas pela passagem dos córregos do Leitão e Barroca” e que o progresso chegaria no final da década de 20, quando “os cursos de água começaram a ser tampados”. No contexto urbano, a natureza é a ameaça, e não a ameaçada.

Apesar de tudo isso, na vida urbana, as plantas existem na mesma proporção que resistem. Elas permeiam marginais as cidades. Fica aqui, portanto, um chamado: observe ao seu redor como a natureza está por toda parte, e preserve-a. Mesmo que sem esta pretensão, ela nos preserva também, e o que podemos fazer por ela é mais simples do que se pode imaginar: deixá-la existir. Eu existo. Arvorexiste.

Autor
Viajante curiosa, fotógrafa leiga, desenhista acanhada, ciclista urbana, corredora iniciante. Dedico grande parte do meu tempo a todas estas atividades, essenciais à minha sobrevivência. A outra parte, não menos importante, destino ao cargo de UX Writer e tradutora de francês em uma grande startup belorizontina.

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