Pisos guardiões de histórias: bairro Lagoinha

 FOTO: Livro Casa e Chão

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Fora dos limites planejados para Belo Horizonte, o bairro Lagoinha foi formado principalmente por imigrantes italianos, que vieram para trabalhar na construção da nova capital de Minas Gerais, no final do século XIX e início do XX. No “cantinho da velha Itália”, operários ergueram suas casas, no caminho intermediário entre a Praça da Estação, porta de entrada dos novos moradores da cidade, e a pedreira explorada pelo engenheiro Antônio Prado Lopes Pereira, integrante da Comissão Construtora da Nova Capital e responsável por transportar o material retirado dali para obras de dentro da Avenida do Contorno.

O bairro coleciona marcos, a exemplo da Rua Itapecerica, a Praça Vaz de Melo e a Casa da Loba (que abrigava uma estátua do animal, que na mitologia romana teria cuidado dos gêmeos Rômulo e Remo, sendo o primeiro o fundador da cidade de Roma e seu primeiro rei). Também carrega reputações, como reduto do “baixo meretrício”,  “berço do samba” e, mais recentemente (e infelizmente), “cracolândia”. Foi neste cenário, ora abandonado, ora com pérolas bem guardadas, que encontramos três casas e, claro, com pisos guardiões de história. Atuais moradores nos contaram um pouquinho sobre suas lembranças em seu lares.

Os registros fazem parte do livro Casa e Chão, uma parceria entre os projetos Chão Que Eu Piso e Casas de BH, publicado por financiamento coletivo em 2016, e resgatado nesta série publicada no GUAJA.

Na rua Turvo, Hercília Veneroso Fonseca

“Adoro a Lagoinha. Os amigos já se foram, mas o carinho pelo bairro ficou. Meu pai, Turibio Veneroso, era italiano e depois da primeira guerra foi para os Estados Unidos. Não gostou e então veio para o Brasil. Primeiro moramos na Pampulha, onde ele trabalhava em uma plantação, cuidando de hortaliças. Lá tinha muita xistose e, por isso, ele resolver nos trazer para próximo do centro da capital. Muita gente da colônia italiana veio para cá na mesma época. Me lembro de sair daqui para ir buscar água em uma bica que tinha na Praça Sete. Ainda hoje, aos domingos, sentamos na mesa para almoçar. É uma verdadeira festa”.

Na rua Sebastião de Melo, Sônia Salgado

“Mamãe se casou em 1948 e veio morar nesta casa, quando esta rua ainda era um morro. Aqui na rua era todo mundo amigo. A gente ficava ali fora jogando queimada, vôlei, bente altas, passa anel. Lembro da minha mãe gritando da janela: ‘Sônia, entra!’. E depois emendava os nomes de todos os irmãos. Os anos passaram e a gente foi mantendo a história. A Lagoinha tinha que ser tombada. Aqui é quase uma cidade do interior. Eu queria ter dinheiro pra comprar todas as casas desta rua para não deixar destruir nenhuma”.

Na rua Além Paraíba, Dona Lêda Garcia de Deus

“Vim para essa casa novinha, tem quase 80 anos que moro aqui. Meu pai era espanhol e veio para o Brasil com 15 anos, por causa da guerra, para fugir do serviço militar obrigatório, e nunca mais voltou para a Espanha. Há alguns anos nós colocamos cerâmica em alguns quartos, mas o piso da sala é de assoalho, do jeito que a casa

veio. De detalhes originais têm também o piso e as grades da varanda, além do revestimento do teto, que é de madeira antiga.”

*Fotos: Livro Casa e Chão.
*Mais registros e histórias você encontra no livro Casa e Chão, do arquiteto Ivan Araújo (Casas de BH) e das jornalistas Paola Carvalho e Raíssa Pena (Chão Que Eu Piso), vendido no GUAJA (Av. Afonso Pena, 2881, BH).

Autor
Idealizado pelas jornalistas Paola Carvalho e Raíssa Pena em 2013, o projeto vem catalogando fotos de pisos encontrados em construções históricas de todo canto do mundo. Já são mais de 250 histórias e 12.000 registros de pisos enviados por colaboradores de vários países, como México, Polônia, Vietnã, Marrocos, França, Itália e Estados Unidos. A ideia é não apenas destacar a beleza estética do chão, como também chamar atenção para as histórias que esses pisos testemunharam e o estilo que eles carregam. Se juntou, em 2016, ao projeto Casas de BH para lançar o livro Casa e Chão — Arquitetura e Histórias de Belo Horizonte.

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