Balburdiemos

 Foto: Manoel Carvalho

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Véspera da manifestação pela educação, chega mensagem do filho:

“Você acha muita loucura eu faltar à aula e ir na manifestação amanhã? Sei lá, tô me sentindo meio mal de ficar aqui no meu mundinho enquanto tem coisa séria acontecendo.”

Logo eu? Feminista, subversiva, inquieta defensora das liberdades… onde foi que eu errei pra que a cria pintasse uma mãe assim? Faz download express de consciência e toma cautela máxima com a resposta. Vai mãe.

Filho, eu também já fui pra rua e irei quantas vezes preciso for. Já gritei, me indignei e não compactuei com injustiça e canalhice. Aliás, acho que tenho essa “exótica” mutação genética correndo nos meus glóbulos brancos apesar dos meus enormes privilégios, ou talvez exatamente em virtude deles. No meu mundinho eu também não me sinto bem quando tentam sacanear a gente tratando como se o nosso cérebro fosse feito de chocolate. E principalmente quando tentam tirar oportunidades de quem já tem tão poucas.

Agora a pessoa jurídica passa uma imagem diferente, né? Mora em condomínio fechado, dirige carro blindado e faz cara feia quando você quer pegar ônibus. Fica apavorada quando você sai e não dá notícias e pede pelamor pra não esperar o Uber na rua. A gente vive num país que torna ainda mais ferrada essa tal função materna. Me desculpa.

Nas nossas conversas é sempre mais fácil manter a coerência. Mas a vida é real e de viés. Engulo meus medos e te respondo: acho bem importante que você vá sim, não dá pra ficar passivo diante de temas tão importantes.
Você vai fazer ENEM este ano e o presidente do seu país tá querendo checar se não tem conteúdo “subversivo” nas questões. O ministro da educação escreveu “insitaria” e citou como referência o livro de “Kafta”. Estão estimulando denunciar professores e querendo maquiar fatos históricos. Falam que filosofia não tem valor e que pesquisa é gasto supérfluo. O guru intelectual do governo é um astrólogo que tem por competência promover inferno astral. O ministro do Meio Ambiente é réu em ação ambiental e não conhecia a Amazônia, a da Mulher defende que a conja rosa deve obediência ao conjo azul.

Tá bom por aqui. Aliás, tá péssimo. Vá pra rua, não se dobre. Não ceda porque esse não é o país que a gente quer. Não admita que o Estado queira ter gerência sobre os seus valores e orientações. Que seja imensa a balbúrdia que você cause, que nós causemos até entenderem que a educação é coisa muito importante e que a gente não vai aceitar menos quando a gente precisa de tanto mais. Vá vestido com as armas de Freire, meu filho. Afinal, eu não criei um idiota.

Autor
Sou a rapa do tacho de uma família mineira de cinco filhos. Apareci por descuido e cresci despercebida, num universo de adultos. Aprendi quase tudo através da observação e da imitação. Este relativo descampado social me brindou com uma vastidão no campo da imaginação. Passei a habitar o mundo das palavras e por isso fui uma criança com vocabulário e repertório incomuns. A inadaptação fez surgir uma habilidade que me permitiu criar pontes e afetar as pessoas através da minha escrita. Quando me dei conta disso me senti segura. A escrita, para além da necessidade, passou a ser o meu modo de existência.

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