Beagá 120 anos: caminhos invisíveis

 Foto: Bernardo Biagioni

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Eu não consigo acreditar que possa existir lugar melhor para se viver do que aqui e agora. E aqui poderia ser uma das milhares de cidades, vilas e vilarejos que dedicamos a vida a passear, experimentar e a viver, provando de caminhos, bares e esquinas, conhecendo pessoas iluminadas a se esbarrar em praças renomadas, museus consagrados e outras infinidades de marcos turísticos construídos pelo tempo. Mas aqui, pra mim, é um só lugar. Belo Horizonte, esta cidade que carrega uma espécie de exclamação no próprio nome.

Estive por aí para ver se me desenganava. Fui colunista de viagens, passei cinco anos varrendo Brasil e esbarrando mundo, de Cuba a Amsterdam, da Suíça a Belém, mas sempre voltei para casa a pensar o quão especial é fazer parte de uma história em processo. Somos novos aqui. Sertanistas ao acaso que não completaram todo o caminho da viagem. Nem Rio, nem Bahia. Nem Recife, nem São Paulo. Aquedamos neste reduto de montanhas como quem se prende, como quem se livra.

E liberdade tem a ver com a capacidade de sair por aí a se permitir novos sentidos. Desde criança cultivo um hábito curioso de me imaginar turista, um visitante de passagem comprada, e isso sempre me permite deslumbrar com os prédios e os tédios cotidianos. Me espantar com a Serra do Curral subindo impune e imponente por cima da Afonso Pena, esse fragmento de resistência que servia de marco geográfico para o eldorado de Sabarabuçu, onde este país começou a ser amplamente ressignificado e almejado, lá nos séculos XVII e XVIII.

Corrida do ouro

Em janeiro de 2016 comecei a correr. E passei a correr diariamente, sempre com tênis de skate, fazendo caminhos aleatórios perto de casa. Não conseguia dar duas voltas na praça, mas conseguia dar a volta no bairro. Não demorei a perceber que a minha corrida não era exatamente um esporte. Não se tratava de performance, velocidade, corpo ou resultados. Mas, possivelmente, um instrumento potente de me relacionar mais intimamente com a cidade.

Em dois meses já tinha corrido todas as ruas do bairro e para todos os bairros vizinhos. Comecei a me ver limitado por grandes avenidas, trânsito, tráfego e poucas calçadas: uma cidade planejada para carros. E, frustrado por não conseguir pedalar por algumas trilhas remotas entre Belo Horizonte e Nova Lima, por conta de valas, cercas e portarias de condomínio, comecei a correr por esses trajetos impossíveis. Correndo não carrego quase nada. Só um pouco de água, duas barras de cereal e uma câmera fotográfica.

Fronteira entre Nova Lima e Belo Horizonte, nas costas da Serra do Curral. Foto: Bernardo Biagioni

Uma busca por cachoeiras marginais rapidamente se transformou em descobertas de caminhos invisíveis. Nas duas vertentes da Serra do Curral — uma que desce para a Praça do Papa e a outra que desce para o Mata do Jambreiro, já em Nova Lima — existem uma infinidade de rastros e ruídos que passam despercebidos mesmo para quem tem o hábito de caminhar e de se relacionar com a natureza. Quando não completamente abandonadas, são vias alternativas e corta-caminhos para as comunidades que tateiam o Curral: Taquaril, Cafezal e Acaba Mundo.

São caminhos do ouro, do minério e das minerações. Alguns foram devolvidos como bem público, como o Parque das Mangabeiras, que teve intensa atividade minerária até a década de 1960, quando lentamente foi sendo preparado para abrigar um complexo de lazer e turismo. E outros ainda estão sem o futuro determinado, como acontece com a desativada Mina de Águas Claras (ex MBR e atual Vale), do outro lado da Serra, que rumores apontam uma possibilidade virar… condomínio.

“Mirante” para possível condomínio na fronteira de Nova Lima com Belo Horizonte. O futuro desta lagoa, herança da mineração, ainda é nebuloso. Foto: Bernardo Biagioni

Curioso, porém, é o funcionamento ativo e intenso da Mineração Lagoa Seca, entre o Mangabeiras, Sion e o Belvedere, nas costas da Rua Patagônia. Uma das últimas minas ativas dentro de uma capital brasileira, a Lagoa Seca abriga um dos casarões mais antigos de Belo Horizonte (construído dentro da então fazenda dos Guimarães), que já foi sede do Country Club, antes de sua transferência para o Taquaril. Seu antigo acesso, a Correias (rua sem saída, na Praça Alaska), já foi cortada por um pequeno ramal férreo, que transportava algumas pedras usadas na construção dos palacetes da Praça da Liberdade.

Um dos casarões mais antigos de BH, atualmente sede da Mineração Lagoa Seca, uma das últimas em atividade dentro de uma capital brasileira. Foto: Bernardo Biagioni

Essas incursões me fazem pensar na cidade que não vi — e que possivelmente deixaremos de ver. Ou será limitada para ver. Muitos caminhos são protegidos por portarias, cercas elétricas, câmeras e seguranças. Cinturões e cordões verdes que são cotidianamente mutilados e diminuídos sem que percebamos. Estar lá fora é um misto de assombramento com encantamento. Me encanto com o desconhecido, com toda uma natureza possível, mas me assombro com um futuro silenciosamente calculado e dissimulado por especulações, minas e mineradoras.

Mirador

Minha formação no skate contribuiu bastante para entender um pouco de arquitetura e de urbanismo. Todo skatista desenvolve uma relação instintiva com o espaço urbano — praças, escadas, asfaltos e corrimões — tudo se torna suportes e possibilidades. Da mesma maneira, correr montanha contribui bastante para uma noção geográfica do espaço. Desde que comecei a me espreitar pelos caminhos invisíveis do Curral, dedico muito do meu tempo a estudar mapas.

E são vários os caminhos para subir a Serra. Até 2014 era possível fazer a caminhada completa da crista, subindo pelo Parque da Serra do Curral e descendo no estacionamento do Parque das Mangabeiras. A caminhada era guiada e limitada a grupos diários. Contudo, sob alegação de manutenções no trajeto e, recentemente, por conta de um possível surto de febre amarela e a identificação de uma espécie rara de cactos na crista, a travessia completa três anos fechada. Oficialmente. Porque, na realidade, dezenas de aventureiros acessam a crista diariamente. Nos finais de semana, chegam a centenas.

Travessia da Serra do Curral, caminhada fechada oficialmente desde 2014 para manutenções que não estão sequer previstas. Fotos: Bernardo Biagioni

Ninguém consegue concordar com o fechamento tão duradouro de um espaço tão especial da cidade. Que ainda hoje vivencia um discurso de se autoproclamar um “ovo”, quando há, na verdade, milhares de caminhos e possibilidades sendo sorrateiramente abandonados, escavados ou esquecidos por empresas, pelo poder público — ou mesmo pelas pessoas. Enquanto não se retoma a travessia e não cuidam dos cactos, a estrutura do trajeto vem sendo depredada — e as plantas pisoteadas.

Uma das vistas mais especiais, contudo, fica fora deste trecho oficial de travessia. O “Vulcãozinho”, alcunha criada em uma rede social de atividades ao ar livre, é uma formação rochosa que resistiu bravamente à mineração na altura do Parque das Mangabeiras. Comparando uma foto antiga da Serra do Curral com uma recente é possível identificar essa resistência. Cercado por uma mata de pinheiros, do alto do Vulcãozinho se tem uma vista singular da cava da Águas Claras, do Parque e da Cidade.

Floresta de pinheiros na base do Vulcãozinho. Foto: Bernardo Biagioni

Quintal

Já são quase dois anos correndo por esses caminhos e possibilidades, quase sempre passando pela Mata do Jambreiro, uma porção de Mata Atlântica que começa logo atrás da Serra do Curral e que vem sendo cercada e espremida pelo crescimento de Sabará, Raposos e Nova Lima. E, durante esses dois anos, posso contar nos dedos quantas pessoas com quem cruzei na Mata. Por vezes os caminhos são tão áridos e assustadores que, na realidade, nunca sei se valeria a pena encontrar alguém.

Porção do Jambreiro completamente ressignificada pela histórica e intensa atividade minerária da região. Foto: Bernardo Biagioni.

De toda forma, é esta combinação de desconhecimento e deslumbramento que mantém viva a minha paixão e o interesse pela cidade em que estamos vivendo. Ainda que impotente, um sentimento caloroso de olhar, cuidar e registrar este momento do tempo em que ainda conseguimos escapar do caos urbano com poucos minutos de caminhada às suas margens e fronteiras.

Não são exatamente caminhos bonitos, ricos e preparados. Talvez seja até o contrário. Mas aprendi com caminhantes que as caminhadas criam paisagens possíveis. E diante de uma cidade que invariavelmente se pauta pelas impossibilidades — sobretudo geográficas — me instiga estar lá fora a investigar o quintal de nós mesmos.

Acredito que correr seja um ato revolucionário. Um tipo de superpoder que desenvolvemos sem a necessidade de muitos instrumentos e dispositivos. Basta um tênis. Ou nem isso. E, da mesma maneira, acredito também que conhecer, defender e cuidar da própria cidade é um ato urgente e necessário. Curiosidade e conhecimento são nutrientes que alimentam nossa passagem pela terra. E, se aqui estamos, mineiros e belo-horizontinos, que nos dediquemos a encontrar e a fazer valer a exclamação do nosso nome.

O belo horizonte de Belo Horizonte. Foto: Bernardo Biagioni
Autor
Eu corro, fotografo e escrevo. Sou formado em Jornalismo pela PUC Minas e pós-graduado em Arte Contemporânea pela Escola Guignard. Atleta esporádico e autor do livro Tempos Estranhos, durante cinco anos fui colunista de viagens e assinei reportagens do Brasil e do mundo. Atualmente sou curador da galeria de arte quartoamado e diretor de conteúdo do Instituto Amado — duas iniciativas que desenvolvem projetos para tornar as artes plásticas mais presentes no cotidiano das cidades.

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