O erro rude do belorizontino retirante

 Foto: Artur Andrade G. Moura (Foto vencedora do duelão de stories do CURA – Circuito Urbano de Arte)

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Belo Horizonte sempre despertou em mim um olhar desconfiado, como bom mineiro que institivamente honra seus costumes. Estatisticamente considerada a quarta maior cidade brasileira em termos econômicos, não entendia porque Belo Horizonte não era alvo dos olhares curiosos dos investidores, dos turistas e, pior, dos seus próprios moradores. Talvez, àquela época, eu até comungasse desse mesmo sentimento e, sendo honesto, uma pontinha de recalque surgia quando, recém formado, os contemporâneos da faculdade partiam daqui em busca de ascensão profissional rumo a mercados teoricamente mais pulsantes, cidades mais vibrantes, pessoas mais engajadas… Hoje eu penso: quantas pessoas geniais perdemos! E mais, não estariam elas perdendo também?

Não sei exatamente quando, mas, de uns anos pra cá, BH ebuliu diante dos meus olhos! Feito leite, esquentando em fogo baixo que subitamente ferve e derrama do caneco. Como uma daquelas extratoras de petróleo, que de tanto bombar o solo fazem brotar uma fonte pungente de combustível fóssil. A cidade projetada foi, de repente, acometida por um efervescência desordenada, que encontrou no caos criativo sua redenção.

A insurgência política popular travestida de Carnaval trouxe pra capital mineira um sopro de vida, em todos os aspectos. Um sentimento de pertencimento viralizou e pela primeira vez na vida senti no ar algo de novo, de excitante! Uma frequência diferente, de empoderamento, de autonomia, de mudanças, pro bem, pro alto e avante! Arrisco dizer que tal “orgulho de ser mineiro” passou a fazer mais sentido do que nunca.

Falo daqui, da bolha dos meus 30 anos de idade, vividos, contudo, a partir de um macro olhar analítico para a cidade que nasci e cresci. O mindset local finalmente se alinhou ao zeitgeist, criando um ecossistema fértil, retroalimentado por iniciativas que, através da co-construção e de uma noção bem definida sobre comunidade, transformou nossa capital em uma das maiores potências criativas do Brasil!

A cidade foi redescoberta para além da Contorno, o morro se integrou ao asfalto, a região metropolitana finalmente passou a ser incorporada ao circuito do entretenimento local e foi percebida como valiosa fonte de iniciativas promissoras.

A sede por ocupar o espaço público tornou-se uma tendência irrefreável, encorajando inovadores movimentos de diversas expressões artísticas, culturais e empreendedoras a se organizarem e virem ao mundo, como num virtuoso golpe de estado. (Se for pra ter golpe, que seja assim, né?)

Iniciativas políticas, sociais, culturais e empreendedoras germinaram suas primeiras sementes, as quais hoje já se tornaram fartos frutos!

Veja só:

Em nível político-social posso destacar a Transvest (organização que promove aprendizado e profissionalização à pessoas trans), as ONGs Lá da Favelinha, FA.VELA, o TETO BH, o Coletivo Habitantes, a equipe das MUITAS e Gabinetona junto à Câmara Municipal, a Casa de Referência de Mulheres Tina Martins, o Movimento de Mulheres Olga Benário, a Ocupação Luiz Estrela, as CicloExpedicões (que saem em encontro das nascentes que permeiam a grande BH), o projeto Segunda Preta, o Centro de Referência da Juventude a.k.a CRJ, e por vai.

Em nível cultural, merecem destaque os Festivais que nos últimos tempos inundaram a cidade! Verbo Gentileza, Breve, Chacoalha, Quente, Música Mundo, Palco Ultra, Transborda, I Love Jazz, Sensacional, Noite Branca, Sarará, MECA Inhotim, Geração Perdida, Sonora, CURA – Circuito Urbano de Arte and counting.

Aqui também vale o salve pra cena musical local, que tá esculachando! Como redutos que abraçam essa galera estão Matriz, A Casa de Cultura, A Obra, A Autêntica, Idea Casa de Cultura, Casa do Jornalista, os grandes Teatros como Palácio das Artes, Sesc Palladium, CCBB, Sesi, Cine Theatro Brasil, dentre outros. O Sarau Tranquilo, idealizado pelo Thales Ferreira do Minimalista em sua própria casa e o Sofar BH por exemplo, são iniciativas que exaltam os músicos independentes e amplificam suas vozes! A cena do funk e do rap estão nas alturas. Baile da Serra, Duelo de MCs, SLAM das Minas, a Festa Batekoo seguem resistindo através da rima, da poesia e da luta identitária!
Vale destaque o pulsante movimento da música eletrônica local materializado pelo Coletivo Masterplano, 101Ø, CurraL, Mientras Duras, BClub e certamente algumas outras que me fogem à memória.

A dança e o teatro, igualmente, não passam desapercebidas. Dos festivais internacionais às performances locais, BH vem ofertando uma enxurrada de opções nesse sentido. A dança contemporânea do Grupo Corpo, o Duelo de Vogue, o Lip Sync do coletivo Toda Deseo, o twerk de Paola Afrodite, a disputa de passinhos do Lá da Favelinha… A esquerda folclórica teatral, por sua vez, representada pelo Grupo Galpão, Quatroloscinco, Coletivo Bacurinhas, teatro em movimento e Giramundo encontra guarida no Galpão Cine Horto, Teatro 171, teatro espanca, Francisco Nunes, Palácio das Artes, Cine Theatro Brasil, Sesc Palladium e outros vários.

Por outro lado, pra se falar de empeendedorismo local, comecemos pelos redutos gastronômicos.
Cafés, restaurantes, e até a nova leva de botecos vieram imbuídos de propósito, design e curadoria, levando a gastronomia e a hospitalidade mineiras para novos e elevados patamares. A Central, o projeto Velho Mercado Novo, Birosca S2, Glouton, Nicolau Bar da Esquina, Bitaca da Leste, Salumeria Central, Bení e o próprio GUAJA são exemplos da recente leva. Chefs de cozinha incríveis andam adicionando mais tempero à cidade, ressignificando a culinária local. As cervejarias artesanais, então, são um capítulo à parte! Em paralelo à tudo isso, preexistem os tradicionais estabelecimentos que formam nossa identidade — como Bolão, Café Nice, Mercado Central, Xapuri e Parada do Cardoso — que sempre devem ser enaltecidos! Da união dessas forças, nos legitimamos como um verdadeiro pólo de experiência gastronômica, principalmente para os taurinos desse mundão, que vivem em função de suas papilas gustativas e apreciam um atendimento de qualidade. A bandeira da culinária hospitaleira foi hasteada ainda mais alto e hoje desfruta de ventos intensos, desses que a mantém sempre aparente!

A moda mineira, por sua vez, está voado cada vez mais alto! Etiquetas como CA.CE.TE, LED, DIWO, NuuShoes, Tatiana Marques Calçados, O Jambu Bags, Georgia, Dusted, Meniax, Nephew, Tovi, Molleti, HK beachwear, Adô Atelier são só uma singela palinha do alto nível alcançado pelas marcas locais contemporâneas. As passarelas das grandes semanas de moda do Brasil já estão ficando pequenas para tanto hype!

Isso sem contar com a solidez alcançada pelas StartUps mineiras, que a partir do São Pedro Valley expandiram fronteiras e hoje já alcançam boa parcela do mercado nacional e internacional. Bons exemplos disso são Max Milhas, Méliuz, Sympla e Hotmart, esta última idealizadora do Fire, um dos maiores eventos nacionais voltado ao empreendedorismo, cujo palco é BH desde sua primeira edição!

121 anos foi o tempo que BH levou pra ser construída e hoje ser a potência criativa que é. As pessoas finalmente andam percebendo que mudar o aqui é muito mais legal que se mudar daqui! E dá gosto de ver quanta gente foda vem co-construindo essa cidade que hoje se apresenta diante dos nossos olhos, mas que demandou um puta esforço e talento coletivos pra alcançar a crista dessa onda!

Apesar da cafonice que nos últimos tempos acometeu a palavra “gratidão”, é nela que me firmo pra expressar meu mais genuíno sentimento em relação à cidade onde vivo e inspiro minha jornada pessoal e profissional.

Hoje, vejo que pra nós o céu é o limite, pelo menos daqui de cima desse horizonte, que é belo de doer!

Autor
Aquariano de nascença, curioso na essência, articulista por acaso, rolezeiro por paixão. Percebo que é no encontro da escrita com a rede que o rio se torna oceano, que nos identificamos, nos conectamos. O "estar" é o novo "ser", a quinta é a nova sexta, os clichês “propósito" e "empatia" fazem mais sentido que nunca. De que vale escrever se não for pra dividir? De que vale dividir se não for pra construir? Juntos. Vamos?

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  1. Um texto preciso e precioso, de dar um orgulho danado na gente e revelar a gratidão verdadeira por novos horizontes que nos trazem vocês em cena. Obrigada Gabriel Prata, Beijos.

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