De pedal em pedal, a gente chega lá? — Além do Rolê #10

 

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Quantas vezes você ouviu dizer que em Belo Horizonte não dá pra andar de bicicleta? Pois na semana passada, em nosso décimo encontro do Além do Rolê, reunimos 7 pessoas — das quais seis eram mulheres — que têm a bike como parte fundamental de suas rotinas, seja como meio de locomoção, trabalho ou atividades de lazer, bem como uma representante dos projetos cicloviários da BH Trans.

Estiveram com a gente Bruna Caldeira (BiciAnjo, BH em Ciclo e catálogo “Pés e Pedais”); Tati Marques (Bici Manas e Bike Polo BH); Mariana Oliveira (Dizzy Express); Bia Mendes (Terça das Manas); João Pedro Achkar (Cicloficina de Rua e Giro Rua); Helena Coelho (BH em Ciclo e Giro Rua); e Eveline Trevisan (BH Trans). Independente de como a bike se faz presente no dia a dia dessa turma, ela compartilha experiências, desafios e objetivos no que diz respeito à presença nas ruas sob duas rodas.

De pedalada em pedalada

Belo Horizonte, apesar de ter sido uma cidade um dia planejada, não apresenta um histórico de investimento em políticas pensadas para a ciclocultura. Assim como na maior parte dos grandes centros brasileiros, as vias foram e continuam sendo pensadas principalmente para carros e outros veículos motores.

O maior desafio é, portanto, a mudança de cultura. É urgente a mudança de um mindset que percebe a cidade como um lugar possível e, mais do que isso, necessário para os ciclistas. O primeiro passo é reeducar o sistema e desconstruir a ideia de que o progresso e a riqueza estão atrelados à posse de automóveis. Para se ter uma ideia, em cidades da Europa onde as políticas cicloviárias começaram a se desenvolver nos anos 1960, 25% do transporte se dá por meio de bicicletas, enquanto em BH esse número é de 0,4% — mas, felizmente, o crescimento é perceptível.

Ou seja, a ciclocultura, já disseminada entre vários grupos urbanos, precisa encontrar mais espaço para se tornar pauta e ser praticada em segurança. A quebra dessas barreiras viabiliza o avanço sociopolítico e urbano. Ganhar espaço na rua não é simples, tudo é um processo, que evolui de pedalada em pedalada, articulado entre população e poder público.

Para ser cicloativista, basta estar na rua

Existem vários grupos e movimentos que discutem e fomentam o estilo de vida cicloativista, mas a micropolítica também é extremamente válida. Não é preciso, necessariamente, estar ligado a um desses grupos. Considerando como é desafiador transitar sobre duas rodas em meio a carros e ônibus em avenidas sem ciclovias, para ser cicloativista, basta estar na rua. Pegue sua bike, saia para um rolê, marque seu território. E não se esqueça: use capacete e compre luzinhas de sinalização.

Em movimentos de agrupamento ou em carreira solo, estar na rua é fazer política, uma vez que somos o tempo todo limitados por questões de cultura ou de infraestrutura. Iniciativas que hackeiam o sistema — programado para receber apenas carros — devem ser enaltecidas. Saca só como cada um dos projetos que estiveram no Além do Rolê atua e se articula em Beloris:

O machismo também pedala

A mulher que anda de bicicleta é um importante recorte a se fazer, e foi um dos tópicos mais discutidos em nossa roda, feliz e fortemente representada por manas incríveis. O assédio rola tanto por parte de homens que caminham, pedalam ou passam de carro. Isso comprova que, embora os projetos cicloativistas sejam transgressores em certa medida, claramente não se vêem livres do machismo e do patriarcado.

Não por acaso, muitos ainda se chocam ao se deparar com um grupo composto apenas por mulheres pedalando à noite pela cidade. “Nossa, mas é só mulher!”. Sim, e isso não te dá o direito de interferir ou fazer qualquer tipo de provocação. Somadas ao assédio, temos ruas escuras e vazias que definitivamente não são seguras para mulheres. Essas potenciais violências limitam nossa liberdade de ir e vir, sendo que o corpo feminino já é naturalmente desestimulado a ocupar a cidade.

Outro ponto curioso, ressaltado por Eveline Trevisan, é como, historicamente, o machismo moldou algumas decisões relacionadas às políticas das magrelas. A maioria esmagadora de projetos e programas destinados a carros e automóveis são geridos por homens, enquanto os da bicicleta costumam ter, adivinha? Sim, mulheres como gestoras. Isso acontece porque, desde sempre, tanto as bikes quanto as mulheres foram relegadas, tidas como “sem importância”.

Conclusões & Soluções

Belo Horizonte é uma cidade íngrime. Isso impossibilita ser uma cidade para ciclistas e bicicletas? Não, inclusive muitas pessoas já levam esse estilo de vida e as iniciativas têm crescido gradativamente, vide Yellow, Glovo, Green, Bike BH e afins.

O ideal, é claro, seria uma cidade preparada e com um plano urbanístico que considere ciclovias integradas entre si e a outros meios de transporte. Como dissemos, isso é um processo em evolução, que depende de várias questões institucionais e culturais. É preciso redesenhar as ruas, reduzir as velocidades máximas permitidas, investir em segurança. Enquanto isso, torcemos para que essa evolução esteja mais próxima de uma descida acelerada do que de uma ladeira custosa. Pega sua bike e vamo embora!

Foto: William Mesquita

GUAJA no Rolê e Além

A série de painéis Além do Rolê se desdobrou a partir do GUAJAnoRolê, o guia cultural idealizado por Gabriel Prata que traz dicas dos mais variados eventos que movimentam a cena belo-horizontina. Estão nessa empreitada também a GoFree, plataforma de eventos que nos incentiva e acredita no poder das conexões, a Julia Abrahão, representante da Baer-Mate em BH, e a equipe de Comunicação do GUAJA.

Expandir as fronteiras do guia foi uma iniciativa essencial, que naturalmente atende a sua proposta de pautar questões relativas à cena cultural de BH. Nada mais coerente do que abrir e ampliar essa discussão, certo? Esse foi o décimo encontro e o próximo já está marcado: vai ser na próxima quarta, dia 25, e o tema é “Beagá Invisível”, para dar luz a projetos locais incríveis, mas que ainda estão no anonimato! Inscreva-se gratuitamente e saiba mais clicando aqui!

Autor
A paixão pela palavra escrita, falada ou não-dita fez de mim jornalista e publicitária pela UFMG. Sou uma das mentes criativas do time de Comunicação do GUAJA: aqui dou vida às ideias, nomes às coisas e cores às palavras. Quer contar uma história ou dar play em um novo projeto? Me chama que eu vou. Da produção cultural ao conteúdo digital, me redescubro nos encontros, e nos desencontros me reinvento. Sempre além.

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