O virar das esquinas das estantes de uma biblioteca.

 Foto: Becca Tapert via Unsplash

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Por muitos anos foi esse o momento que mais gostava do dia. Esqueça todo o resto: concentre-se naquele lugar em que há fileiras e fileiras e mais fileiras ainda de estantes e você vai virando suas esquinas, deixando os olhos correrem as lombadas enfileiradas, perguntando-se qual livro entre todos aqueles será o próximo a transportar você a uma outra realidade. Já é passado um bom punhado de anos desde a última vez que entrei na biblioteca do colégio em que estudei, mas fecho os olhos e me lembro de navegar entre aquelas estantes, passando as mãos gentilmente pelas lombadas que saltavam aos olhos. Eu buscava ali, entre os livros, escondidas em suas páginas, respostas que somente a vida e o tempo iriam revelar.

Apesar disso, a impossibilidade de encontrar essas respostas ali não atrapalhava em nada o prazer da busca. E pode-se argumentar que os tapas que a vida e o tempo me deram juntamente às respostas que eu buscava foram amortecidos por tanta experiência — que não vivi, mas presenciei por meio das páginas calmas e pacientes de livros que preenchiam as estantes que gostava tanto de rondar.

Foi essa vontade de seguir os livros como se fossem seres pensantes que nos levam a algum lugar (e não são?) que me levou a buscar uma carreira na escrita. Originalmente, confesso, queria me dedicar a escrever orelhas de livros. Me parecia o negócio perfeito: ler muito, escrever pouco. Aos poucos encontrei o jornalismo, a felicidade que é pegar emprestado a história do outro para contar e a dificuldade em transformar a vida dessa pessoa em narrativa sem tratá-la com irresponsabilidade, mas evitando reduzi-la a um simples apanhado de informações sem alma.
Eventualmente vim parar onde estou. Envolvida até o pescoço com o mundo dos livros, no meio de um mestrado, estudando a fundo publicações independentes (e vou te contar, só a oração anterior já permite discussões de varar a madrugada). Meu mundo gira em torno de obras, de publicações, de artigos e é composto pela repetição do ato de ler. Se alguém tivesse gravado a Flávia Denise de 13 anos dizendo querer ler muito e escrever pouco agora seria o momento de cobrar a seriedade da declaração. Não falta o que ler no mundo acadêmico. Mesmo.

Ainda assim, escrevo esse texto no meio da biblioteca do Cefet, onde estantes vermelhas perfeitamente alinhadas parecem dar espaço o bastante para que livros e pessoas respirem fundo, sem receios, e percebo que quanto mais mergulho no mundo dos livros, menos pareço ler. Explico: quanto mais mergulho no mundo dos livros acadêmicos, menos pareço ler qualquer outro tipo de texto. Até mesmo minhas prateleiras recheadas das ficções que me encantaram ao longo da vida perderam seu poleiro e estão mais distantes, deixando o espaço mais próximo dedicado aos papéis acadêmicos, que proliferam-se sem controle. Ou melhor, sem que haja intenção de controle.

Visito livrarias, sou hipnotizada pelos textos das orelhas (sempre eles!) e carrego as obras debaixo do braço sentindo a fagulha de uma nova amizade acender-se para, ao abrir as páginas do livro, perceber que os olhos parecem recusar-se a correr aquelas palavras, a acompanhar o protagonista, a visitar aquele universo.
Tentando costurar uma trama que sustente minha traição, digo para mim mesma que não estou “deixando o livro de lado”, mas estou “guardando-o para depois” — como uma criança que educadamente dispensa um doce que não é mais o seu preferido, mas quer garantir seu acesso mais tarde, quando quiser provar um pedaço.

Talvez essa seja simplesmente uma ordem natural das coisas, um evoluir de pensamento. Algo como o crítico de cinema que evitar assistir seu filme preferido da adolescência por medo de ele não suportar o teste do tempo. A vida tem mesmo dessas coisas. Ganhar em profundidade muitas vezes significa deixar algo para trás.

Ainda assim, admito que ando torcendo para que esse não seja o caso. Há uma parte que mim que anseia por um mergulho profundo num outro mundo. Nada contra esse (bom, nada que eu queira escrever aqui contra esse), mas há uma vontade de deixar tudo para trás e lembrar que existem mais realidades do que esta que conhecemos. Há, ao menos, uma realidade para cada pessoa viva — e somos mais de 7 bilhões. Alguns de nós são tão bons nessa brincadeira de “outros mundos” que criam universos de sobra e registram alguns no papel. Entre eles, há aqueles que são excelentes nesse ato de transformar realidades em texto e criam mundos irresistíveis. Inesquecíveis. Impenetráveis para quem não tem conseguido ler ficções.

É por isso que insisto em pequenas residências em bibliotecas, livrarias e onde mais pessoas vão ler livros. Em algumas horas de observação posso me lembrar de toda essa história e perceber que não há motivo para preocupações. Enquanto eu sentir uma palpitação de ver fileiras de estantes que proporcionam esquinas as quais potenciais leitores podem virar, está tudo certo no meu mundo.

Autor
Jornalista, com especialização em Publishing pela NYU e mestranda em Estudos de Linguagens pelo Cefet-MG. Já trabalhei na revista Ragga e nos jornais Estado de Minas e O Tempo, onde fui editora adjunta do caderno de Cultura e atualmente escrevo uma coluna semanal. Apaixonada por literatura, fundei a revista Chama, que publica novos autores belo-horizontinos.

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