Receita de bolo para transformar em alegrias as lembranças de um tempo que não volta

 

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Li, dia desses, que lembrar cansa. Achei exagerado toda vida… deve ter sido porque tinha frescas, na memória, cenas de uma noite linda e quente. Hoje, porém, ao contrário do que ocupava meus pensamentos lá atrás, estou na frente do computador há algumas horas, entre uma xícara de café e outra, e não consigo imaginar uma ocasião em que estive tão exausta. Depois de passar pela temporada de festas, superando com louvor mais um ano de ausência de uma mãe, que amava a família e a vida, devo concordar que lembrar, às vezes, cansa.

Desci pelas escadas. O elevador estava imóvel no sexto andar, um acima do meu, e a fome era maior que a preguiça. Ali, pertinho do hotel, comprei algumas empanadas e dois pares de Quilmes, geladíssimas. Ela colocou a banheira pra encher e preparou a mesa do nosso jantar improvisado. Assim que voltei, entrou no banho enquanto eu nos servia. Chamei várias vezes, apressando-a para que chegasse antes de esfriar e ouvi lá de dentro: “Flor do oriente — como ela me chamava desde que guardo lembranças — , relaxa, traz a cerveja e vem pra cá”.

Desocupei o banquinho onde estavam o secador e a necessaire enorme sem a qual ela não arriscava um passo, assentei e descansei as pernas na borda da banheira. Nos refrescamos do calor argentino conversando sobre coisas importantes e bestas, entre elas, a preguiça que sempre tive de passar hidratantes. Às vezes passo nos braços, às vezes nas coxas, raramente na barriga e nunca no corpo todo. Ela puxou minha orelha, riu e me apontou um pote.

Durante o tempo em que respirava fundo, fechava os olhos e aproveitava o banho, eu me afogava em um creme de cheiro doce, textura de manteiga e me impressionava com o quanto o corpo agradece qualquer tanto de carinho. Terminei aquela batalha certa de que, a partir de então, faria aquilo todos os dias.

No mesmo instante em que eu prometia algo que jamais cumpriria, ela mirou a latinha e suspirou que pra ficar perfeito só se fosse whisky. Enquanto voltava atrás se dizendo agradecida, eu pensava que minha mãe tinha um quê de Vinicius: gostava de whisky, banheira, era uma presença notável e dava um show de diplomacia.

Comi minhas empanadas feliz por estarmos ali e, antes de dormir, juntinhas, assistimos Frida. Me faz um bem danado saber que, embora o vento tenha tido outros planos, não a deixei partir sem dizer que, ao contrário da realidade ordinária que nos cerca, ela estava no patamar dos personagens mais incomuns e extraordinários, como aquela dona mexicana de sobrancelhas unidas e garra irrefutável.

Faz quase seis anos que ela se foi. Às vezes parece mais, às vezes menos e, a despeito dessa agitação toda, o tempo para pra me fazer perceber que, na verdade, lembrar cansa.

A receita do Bolo Simples de Farinha de Trigo, deixada no caderno da minha mãe, acompanha a seguinte anotação: “rapidinho e todo mundo aqui de casa gosta”.

Devo confessar que quando o cheiro de baunilha invade minha casa e me transporta para um tempo que não volta, encontro forças para transformar em alegrias as lembranças de alguém que sempre usou a cozinha para construir afetos.

Bolo Simples de Farinha de Trigo

Você vai precisar de:

2 xícaras de chá de açúcar
3 xícaras de chá de farinha de trigo
4 colheres de sopa de manteiga
3 ovos
1 e 1/2 xícara de chá de leite
1 colher de sopa de fermento em pó

Como fazer:

Para começar, bata as claras em neve e reserve. Isso vai garantir que o bolo fique mais fofinho. Misture as gemas, a manteiga e o açúcar até que a massa fique bem homogênea. Em seguida, coloque o leite e a farinha de trigo aos poucos, sem parar de bater. Por último, acrescente as claras em neve e o fermento. Coloque em uma forma grande, de furo central, sempre untada e enfarinhada. Coloque em forno pré-aquecido e asse por aproximadamente 35 minutos a 180ºC.

Sirva com café! 🙂

Autor
Especialista em comunicação, fiz carreira no mundo digital gerenciando projetos e escrevendo para grandes marcas. Amante da moda e das artes, divido meu tempo entre meu trabalho no time de branding de uma grande startup, meia dúzia de dilemas sobre os tempos modernos, meus amores e muitos, muitos bolos.

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