Bolo de castanha e a contramão do minimalismo na construção do lar

 

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Me escapou um sorriso quando passei pelas miniaturas das quatro meninas, quietinhas entre os livros na estante suspensa da sala. Lembrei que o calor escaldante de um junho inesquecível me fez trocar o batom de cor forte pelo protetor labial de azeite de oliva, a manteiga de cacau da Catalunha, vendido nas farmácias da deliciosa Salamanca.

A cidade, que entrega o castelhano mais puro da Espanha, entregou, ainda, a figura de um astronauta moderno esculpido na fachada da igreja gótica construída entre 1513 e 1733; o melhor leitão assado na brasa do país; e a vibração que só uma cidade universitária ostenta.

Depois de um dia inteiro, me joguei no trem que voltava para Madrid e ouvia Camera Obscura enquanto garantia um coque alto de displicência calculada. Respirei fundo assim que o trem saiu e tive a atenção imediatamente engolida pela paisagem árida. A Estação de Atocha chegou antes que expirasse.

Peguei a Méndez Álvaro e passei devagar por uma loja pequenininha e escura, com muitos balcões em madeira, forrados por um veludo grosso e avermelhado, quando um peso de papel, que prendia entre água e mil brilhos um touro dourado, me fez querer entrar. Resisti.

Segui pela Plaza Emperador Carlos V até alcançar o Paseo del Prado, que acolhe, com evidente orgulho, o Museu. Era minha terceira vez no Prado, todas elas no finalzinho da tarde de dias dedicados às esculturas e a todo o Picasso que vive ali. Era, também, minha despedida da cidade e a última chance de chegar à sala onde fica “As Meninas”, de Diego Velázquez.

A despeito das centenas de pessoas e de tanto barulho, mergulhei com alma na beleza, história e nas imperfeições da obra. Não sei quanto tempo se passou enquanto observava a filha de Filipe IV, suas damas de companhia e o autorretrato do pintor. Sei, apenas, que o quadro, um dos mais importantes da pintura ocidental, me pegou de jeito.

Todos os objetos que decoram minha casa me lembram alguém ou alguma situação e as miniaturas das quatro meninas do quadro do artista espanhol, compradas naquele dia na loja do Prado e dispostas na estante da sala de casa, trazem lembranças detalhadas daquela viagem.

A sociedade acelerada, conectada, vivendo em espaços cada vez menores e minimalistas, excluiu das mesinhas de canto as pequenas lembranças e trouxe para grande parte das casas ambientes quase assépticos.

O “clean”, por tantos anos, tirou de cena objetos “desnecessários” e a casa como lugar pensado para abrigar recordações, aproximar nosso dia a dia das pessoas que são parte das nossas vidas, contar e acolher nossa história ficou reservada às avós.

Quando resgatei o pé da máquina Singer da minha mãe para transformá-lo na mesa do quarto que uso como escritório, resgatei, com ele, minhas lembranças, minha admiração e sua presença. Mais tarde, transformei a enorme panela de ferro da minha avó em uma mesa que, de quebra, abriga minha coleção de revistas e trouxe para bem perto aquela mulher forte, de quem carrego tanto orgulho. As duas já se foram, mas, de muitos modos, permanecem comigo e no meu lar.

Enquanto uma casa meramente prática não abriga recordações e não dá teto para o movimento autobiográfico, o projeto de um ambiente mais inclusivo encontra o belo no simples e, consequentemente, coloca o lar no lugar do aconchego.

A receita do bolo de castanha-de-caju foi um presente da Creuza, sogra do meu irmão, para a minha mãe e, como os objetos de casa, pode nutrir os dias de boas histórias.

Bolo de castanha-de-caju Creuza

Você vai precisar de

1 xícaras (chá) de leite

1 xícaras (chá) de óleo

3 ovos

1 e 1/2 xícara (chá) de açúcar

1 e 1/2 xícara (chá) de farinha de trigo

1 xícara (chá) de amido de milho

1 colher (sopa) de fermento em pó

Castanha de caju a gosto

Açúcar refinado para polvilhar

Como fazer

Bata o leite, o óleo, os ovos e o açúcar no liquidificador. Em seguida, coloque a mistura em uma tigela e acrescente os ingredientes secos. Bata até que tenha uma massa lisa. Despeje a massa em uma forma quadrada untada, enfarinhada, salpique a castanha de caju por cima e asse a 180°C, em forno preaquecido, por aproximadamente 35 minutos (ou até que o garfo saia limpinho).

Polvilhe açúcar e sirva com café! 🙂

Autor
Especialista em comunicação, fiz carreira no mundo digital gerenciando projetos e escrevendo para grandes marcas. Amante da moda e das artes, divido meu tempo entre meu trabalho no time de branding de uma grande startup, meia dúzia de dilemas sobre os tempos modernos, meus amores e muitos, muitos bolos.

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  1. Que relato lindo! Fiquei encantada com sua forma de falar das coisas… queria um dia ouvir a Noeh narrada por você! Quando nossa casa estiver pronta, será uma honra te receber! Beijos de alguém que acabou de te conhecer mas já te admira demais! Ana da Noeh

  2. “… e as miniaturas das quatro meninas do quadro do artista espanhol, compradas naquele dia na loja do Prado e dispostas na estante da sala de casa, trazem lembranças detalhadas daquela viagem.”

    Para quem estudou por anos seguidos, nas aulas de língua e literatura espanhola, o quadro de Velázquez – representou, desenhou, coloriu, analisou os elementos e respondeu o que significava cada reflexo e perspectiva nas provas – e ainda por cima não conseguiu entrar no Prado, desanimada pelas filas, saber que alguém neste prédio se identifica tanto quanto eu com as carinhas vermelhinhas das meninas é um afago. Nós somos mesmo muito parecidas, amiga!

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