A queda do mito e a receita do clássico: história cultural da vagina e bolo de chocolate

 Peneirar os ingredientes secos e acrescentar água é o segredo do bolo fofíssimo de chocolate

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As indicações são mesmo preciosas! Faz alguns meses que uma querida amiga me disse para seguir o Desculpe a Poeira, Instagram de um sebo de São Paulo. O perfil posta trechos de livros que estão esperando um novo dono e sempre te traz uma pontinha de esperança quando oferece um parágrafo de Manuel Bandeira ou um pouquinho de Mário Quintana entre o crossfit dos amigos, nos Stories da rede social.

Dia desses, o Desculpe a Poeira postou a foto de um livro com a frase “super indico” e, fã de indicações como sou, tratei logo de pesquisar e, em seguida, encomendar meu exemplar de “A origem do mundo – uma história cultural da vagina ou a vulva vs. o patriarcado”, primeiro livro traduzido para o português da já experimentada quadrinista sueca Liv Strömquist.

O livro conta, de um jeito leve, divertido, indignado e sarcástico, a história cultural do órgão sexual feminino e as consequências geradas por séculos de distorção da vagina.

Liv escreveu e desenhou sobre a percepção negativa do órgão sexual feminino, culturalmente tratado como repugnante ou vergonhoso, e falou também sobre como isso afeta as mulheres em um nível psicológico profundo. Graças aos bons deuses e para a sorte das mulheres, ela também refletiu muito sobre a menstruação.

Até devorar o livro em uma tarde, nunca tinha parado para tentar entender de onde vem a cultura de constrangimento e segredo sobre a genitália feminina. Nunca tinha me questionado por quê assumimos um tom de segredo mortal quando pedimos um absorvente para uma colega de trabalho, tampouco a razão pela qual passamos o pacotinho de mão em mão com status de contrabando.

Para Liv, “o órgão sexual feminino é retratado como algo fraco – ‘não seja uma pussy’ –, enquanto o órgão sexual masculino está constantemente ligado a conotações positivas de potência, força, masculinidade e assim por diante. Claro que isso afeta como nos sentimos sobre nós mesmas e limita a ideia do que podemos fazer no mundo. É um auto-ódio”, ela especula.

O primeiro capítulo do livro em quadrinhos fala sobre o grave problema da nossa cultura de que o que se costuma chamar de “genitália feminina*” seja algo ignorado e motivo de vergonha e Liz apresenta as consequências históricas das ações dos “homens que se interessaram um pouco demais por aquilo que se costuma chamar de ‘genitália feminina'”.

Liv relata fatos chocantes que eu ignorava absolutamente e me encheram de revolta. Por exemplo: você sabia que John Harvey Kellogg (1852-1943), aquele mesmo do sucrilhos, também era médico e dedicou parte da vida aos livros de educação em saúde, defendendo a ideia de que a masturbação feminina causava câncer cervical, epilepsia, loucura, entre outras debilidades? E o pior: no livro “Verdades para jovens e velhos” ele sugere a aplicação de ácido corrosivo no clitóris como “um excelente remédio para aliviar a excitação anormal”?

Isaac Baker-Brown (1811-1873) também ocupa lugar de destaque em “A Origem do Mundo” como outro oponente da masturbação, que praticava a clitoridectomia (remoção cirúrgica do clitóris) como solução para impedir as mulheres de se masturbarem. “Ele fazia a cirurgia por motivos de histeria, dor de cabeça, depressão, perda de apetite e desobediência. Além disso, em cinco casos, realizou o procedimento porque as mulheres pretendiam pedir o divórcio”, conta o livro.

O teólogo cristão Santo Agostinho (354-430) é outra figura que contribuiu muito para que a “genitália feminina se tornasse a antítese do divino”. Para o santo, o sexo seria algo nojento e errado, e que desobedecia a Deus. Ele acreditava que o pecado de Adão e Eva seria herdado pelas futuras gerações através da relação sexual e que o corpo da mulher e, acima de tudo, a genitália feminina era especialmente pecaminosa e suja.

Além dessas, outras muitas influências negativas contribuíram para o cenário que temos hoje, como, por exemplo, o fato de que as partes externas e visíveis desse órgão raramente são retratadas ou mencionadas em livros, mesmo aqueles que têm como objetivo o estudo do corpo humano. A palavra “vulva” (parte externa e visível da genitália feminina) tampouco é usada no dia a dia, sendo tratada quase sempre como vagina (orifício que liga a parte externa e interna da genitália feminina).

Como bem explica a contracapa, como no famoso quadro de Gustave Coubet, ‘A origem do mundo’ escancara interditos e desafia mitos e tabus. Um livro genial, catártico e absolutamente necessário.

Se você concorda comigo que as indicações são mesmo preciosas, coloque o livro entre suas próximas aquisições e, depois de ler, ofereça para emprestar para seus amigos (homens e mulheres) para que a gente comece a reparar tantos séculos da mais enraizada ignorância.

*Liv faz questão de identificar a vulva como “aquilo que se costuma chamar de ‘genitália feminina'” por todo o livro. Em entrevista para a Folha, ela explicou que queria ser inclusiva e “englobar pessoas transgênero, por exemplo, que podem se identificar como homem ou como não binário e ainda assim ter vulva”.

“A origem do mundo”, o quadro de Courbet

O realista Gustave Courbet pintou “A origem do mundo” em 1866, a pedido do diplomata turco otomano Khalil-Bey. O briefing era claro: uma pintura que retratasse o nu feminino na sua forma mais crua.

Mais tarde, a obra foi comprada por um antiquário e escondida atrás de um outro quadro de Courbet. Em 1913, o barão François de Hatvany, adquiriu o quadro que, anos mais tarde, foi roubado pelo Exército Vermelho durante a II Guerra Mundial. Depois do conflito, porém, o barão o recuperou.

Anos mais tarde, a obra tornou-se propriedade do psicanalista francês Jacques Lacan, e manteve-se escondido sob uma pintura de madeira até 1994, quando o Estado francês a recebeu como doação da família Lacan.

A tela de Courbet foi exposta publicamente pela primeira vez apenas em 1995, no Musée d’Orsay, onde fica.

Bolo de chocolate fofíssimo

Depois de tudo isso, você vai precisar do bolo de chocolate mais fofo entre todos os que já experimentei. A receita é de um livro antigo da Rita Lobo, testada e aprovada em muitas e muitas ocasiões. E por falar em ocasião, aproveito esta para deixar um ensinamento valioso da chef: respeite as medidas! 🙂

Você vai precisar de:

4 ovos
1 xícara (chá) de açúcar
1 xícara (chá) de chocolate em pó
1 xícara (chá) de óleo
1 xícara (chá) de água
2 xícaras (chá) de farinha de trigo
1 colher (sopa) de fermento

Como fazer:

Peneire os ingredientes secos separadamente. Na batedeira, coloque o açúcar e o chocolate em pó e, em seguida, junte os ovos e o óleo. Bata os ingredientes na velocidade baixa e, assim que se misturarem um pouco, aumente a velocidade e bata por mais alguns minutos. Abaixe novamente a velocidade e, agora, vá adicionando a farinha e a água aos poucos e alternadamente. Por último, adicione o fermento. Coloque em uma forma com buraco no meio, untada e enfarinhada, e asse por 30 minutos em forno pré-aquecido a 180 graus.

Sirva com café. 😉

Autor
Especialista em comunicação, fiz carreira no mundo digital gerenciando projetos e escrevendo para grandes marcas. Amante da moda e das artes, divido meu tempo entre meu trabalho no time de branding de uma grande startup, meia dúzia de dilemas sobre os tempos modernos, meus amores e muitos, muitos bolos.

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