5 romances e um bolo de laranja que harmoniza com qualquer boa leitura

 

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Em 2018 me propus dois difíceis desafios: me manter no tempo presente (remoer o passado e sofrer pelo que ainda não veio me tomava muita energia e não trazia nem um único benefício), além de manter minha atenção em atividades distantes das tentadoras e pouco produtivas redes sociais.

Para me ajudar nesse segundo objetivo, o iPhone começou a enviar um relatório com o tempo gasto em cada uma das redes e, mais recentemente, o Instagram disponibilizou nossa média diária de tempo no app e, ainda, a possibilidade de definirmos um lembrete diário, ativado assim que atingimos o número de minutos pré-definido.

Desde que comecei a policiar o tempo que passava afundada no sofá olhando para o celular, tive duas grandes conquistas: aprendi a costurar – e já fiz uma infinidade de peças das quais morro de orgulho (escrevi aqui sobre meu novo ofício) -, e li mais que nos últimos anos.

Além de alguns livros técnicos (que nunca estiveram entre meus preferidos), e embora não tenha chegado nem perto da minha meta de um romance por mês, vim dividir com vocês a lista dos cinco romances lidos em 2018, que podem contribuir com quem quer ter um 2019 mais doce e mais distante das redes.

A única história – Julian Barnes

“Você prefere amar mais e sofrer mais, ou amar menos e sofrer menos?”. Vencedor de muitos prêmios literários, o escritor inglês Julian Barnes escolheu a frase acima para abrir o mais recente livro, “A única história”.

Depois de colecionar sucessos entre seus muitos romances, desde o lançamento do terceiro livro “O papagaio de Flaubert Parrot”, em 1984, Barnes nos apresenta Paul, protagonista do livro, que se apaixona, aos 19 anos, por uma mulher casada, mãe de duas filhas e 30 anos mais velha. O romance, narrado por Paul, passa pela construção e deterioração da relação, com todos os clichês deliciosos dos romances clássicos: o amor impossível, a exagerada dedicação dos amantes e a ideia de que vivemos muitas histórias, mas apenas uma vale a pena ser contada (que justifica o título do livro).

À medida que a relação amadurece, as complicações de todo e qualquer relacionamento ganham forma, abrindo espaço para a tomada de decisões dolorosas e, ao longo de toda a narrativa, Barnes parece nos perguntar se, de fato, somos quem pensamos ser.

As histórias dos personagens do inglês nos remetam às nossas próprias jornadas e aí é um suspiro atrás do outro.

Canção de Ninar – Leïla Slimani

Começar pelo fim e não ter medo de um romance trágico. Leïla Slimani, escritora marroquina radicada na França desde os 17 anos, é assim em seu “Canção de Ninar”, livro que levou o Prêmio Goncourt de 2016, o mais importante da França, lançado no Brasil pelo selo Tusquets, da Planeta.

Já nas três primeiras páginas, você se depara com a história de uma mãe que decide voltar ao trabalho depois um tempo de dedicação exclusiva aos filhos e, um dia, ao chegar mais cedo em casa para uma surpresa para as crianças, descobre que Adam, o bebê, está morto (tragédia anunciada na sinopse).

“Quem cuida dos seus filhos quando você não está olhando?” A pergunta inquietante remete à Luise, babá e responsável pela morte do filho mais novo do casal da trama. A história tira a loucura do lugar caricatural que a maioria dos romances explora, questiona se, de fato, conhecemos quem está ao nosso lado e aborda a impossibilidade de sermos bons ou maus o tempo todo.

O livro trata também a relação de dependência mútua entre a família e Louise e fala das relações de poder, os preconceitos entre classes e culturas, o papel da mulher na sociedade e as cobranças envolvendo a maternidade.

Em entrevista ao Estadão, em março de 2018, a autora disparou: “o que é injusto é que nunca perguntamos aos homens se eles conseguem dar conta de tudo porque se eles precisam sair para trabalhar eles vão sair para trabalhar”.


Isso também vai passar – Milena Busquets

A história da autora espanhola Milena Busquets não tem grandes reviravoltas. Ao contrário, narra a vida, pura e simplesmente, e a sinopse explica o título: um imperador convoca sábios e pede uma frase que sirva a todas as situações possíveis. Depois de meses, eles aparecem com uma proposta: “isso também vai passar”.

A história da frase que aquieta qualquer angústia era contada a Blanca, protagonista da obra, por sua mãe… uma tentativa de ajudá-la a superar a morte do pai, quando ainda era uma menina. Anos mais tarde, com um filho e dois ex-maridos, como qualquer pessoa comum, Blanca está acostumada com o fluxo da vida de perdas e ganhos, quando se depara com a partida da mãe e vê surpreendidas todas as suas emoções.

A jornada do luto, que começar logo após o enterro, vê uma Blanca que faz o que pode para se manter forte, mas que desaba diante do cenário de incertezas, dor e nostalgia. Blanca é uma mulher tão real que até mesmo a estrutura do livro está distante de ser rígida. O enredo é focado nas dores e no autoconhecimento e faz muito sentido apresentado em um relato livre.

Narrado em primeira pessoa, em diversos momentos o livro passa para a segunda, embora Blanca não esteja falando conosco, leitores. Ela está falando com a mãe, de modo que o livro funciona quase como uma carta. Nesses momentos, a emoção fica inevitável…

Blanca lembra da mãe em todos os momentos, compara situações, pensa no que ela faria ou diria e, assim, traz uma narrativa visceral do luto que nos aproxima de todos os mecanismos comuns de quando perdemos alguém próximo.

A vida invisível de Eurídice Gusmão – Martha Batalha

O livro, que aborda as limitações da mulher na sociedade carioca, há mais de 70 anos, traz uma indagação inquietante: “Será que a vida é só isso?”. A protagonista de “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, romance de estreia de Martha Batalha, quer muito mais para seus dias.

Martha conta a vida de Eurídice, pouco aventureira, acomodada em seu casamento padrão, contrastada à da irmã, Guida, mulher que buscou viver de acordo com seus desejos, tendo, para isso, que cortar laços com a família.

A busca por maior significado em suas próprias vidas, além dos papéis de mães e de donas de casa é frustrada em todas as tentativas e, mais tarde, mesmo a valente Guida decide comprometer suas realizações pessoais para beneficiar a vida do filho.

O livro, que por mais que não pareça tem um bom-humor revigorante, explora a falta de liberdade da mulher sobre a própria vida e as pequenas violências diárias que sofremos.

Martha Batalha consegue entregar uma história sem grandes vilões, nem mesmo o pai ou os maridos das irmãs Eurídice e Guida, e isso os mantém na ala dos homens comuns, frutos de  numa sociedade machista e muito próximos da grande maioria dos homens que nossas mães tinham em casa, naquele mesmo tempo (e que ainda estão em muitas casas hoje).

O amor que sinto agora – Leila Ferreira

O livro é o quarto da mineira Leila Ferreira, que já havia ganhado minha atenção em “A arte de ser leve” e “Viver não dói”. Publicado pela Editora Planeta, “O amor que sinto agora” começa quando Ana, a protagonista, recebe uma carta da mãe, que acabara de falecer. Ana demora anos para ter coragem de ler e os capítulos seguintes são o contrário: cartas que Ana escreve à falecida mãe. Ela conta sobre sua vida, suas reflexões, medos, sonhos, frustrações e esperanças.

Cheio amor, o romance é um processo reflexivo e terapêutico e não tem medo de tocar a ferida e, ao mesmo tempo em que te atordoa, te revigora. Leila alcança uma narrativa sensível e muito tocante, além um relato de perdão, amor, dor, libertação, coragem e, acima de tudo, de conhecimento e reconhecimento.

O luto, presente em dois dos cinco romances da minha lista, é cheio de gratidão, como o trecho escrito por Ana, protagonista de Leila: “O amor que eu sinto por você é tão imenso, e a falta que você me faz é tão implacável e absoluta, que eu teria que estar com você na nossa cozinha de Redenção, a da casa que não existe mais, para dizer, olhando nos seus olhos tristes, o quanto eu entendo o que você fez.”

Devore essa lista de romances com um bolo de laranja quentinho, quentinho.

Você vai precisar de:

4 ovos
2 xícaras (chá) de açúcar
1 xícara (chá) de óleo
Suco de 2 laranjas
Casca de 1 laranja
2 xícaras (chá) de farinha de trigo
1 colher (sopa) de fermento

Como fazer:

Bata no liquidificador os ovos, o açúcar, o óleo, o suco e a casca da laranja. Em seguida, passe para uma tigela e acrescente a farinha de trigo e o fermento. Leve para assar em uma forma redonda, untada e enfarinhada, por cerca de 30 minutos. Desenforme o bolo e molhe com suco de laranja.

Sirva com café! 🙂

Autor
Especialista em comunicação, fiz carreira no mundo digital gerenciando projetos e escrevendo para grandes marcas. Amante da moda e das artes, divido meu tempo entre meu trabalho no time de branding de uma grande startup, meia dúzia de dilemas sobre os tempos modernos, meus amores e muitos, muitos bolos.

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