O medo de amar que objetifica o outro e um bolo de limão siciliano que conforta o coração

 A versão originária do Sul da Itália traz um novo sabor para a tradicional receita de bolo de limão

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“O melhor amor é o não vivido”. Não sei quem disse, nem quando, mas não resta dúvida de que na ocasião o coração do autor andava partido. O ser amado, quando intocado, é mantido em estado de perfeição e essas são características de um amor romântico que é lindo para os livros e novelas, mas absolutamente frustrante na vida real porque é talhado na idealização, um processo cruel que retira o outro de sua condição humana.

O romantismo, ainda tão comum nos relacionamentos de hoje, surgiu dos sentimentos dos descontentes com a nova ordem socioeconômica (capitalismo industrial), causada pelas Revoluções Industrial e Francesa, num momento histórico em que as classes sociais, como as conhecemos hoje, se definiam.

Afastada do poder pelas revoluções, a nobreza amargava uma nostalgia do antigo regime, ao mesmo tempo em que a pequena burguesia se enchia de insegurança ao ter barrados os seus projetos de ascensão social. Em comum, as duas classes colecionavam inconformismos com a realidade e, por isso, caminharam com força em direção ao movimento romântico. Rapidamente, na literatura, no teatro e, mais tarde, nos jornais, o romance se propagou tornando-se um grande veículo de difusão de ideias, sentimentos e emoções.

O amor romântico chega como uma resposta à dúvida principal sobre o sentido da existência. Há, nele, a ideia de completude: sem o outro, seremos eternamente incompletos e isso gera ansiedade, dependência e muita, muita frustração.

Tenho aprendido que não romantizar, ao contrário do que muitos pensam, não se trata de não se importar, não cuidar, não amar. Trata-se, apenas, de não esperar que o outro carregue a árdua tarefa de responsável pela sua felicidade, atenda a todos os seus anseios – além das centenas de mensagens no WhatsApp – no seu tempo, cumpra os protocolos, lembre-se de todas as datas que você julga importantes, declare-se ao final de cada ligação, mesmo aquelas pautadas em termos absolutamente práticos.

Tenho aprendido também que, enquanto propago entre amigos as belezas de se exorcizar esse romantismo, existe uma camada da sociedade que o fez faz tempo, mas deu um salto tão perigoso quanto extremo, pousando em um lugar que dá o nome de liberdade a um tremendo medo de amar.

Recentemente disponibilizado pela Netflix, o documentário “Liberated: The New Sexual Revolution”, roteirizado e dirigido por Benjamin Nolot, acompanha a jornada de estudantes universitários, homens e mulheres, em Spring Break, nos trazendo uma amostra assustadora de suas atitudes em relação ao sexo. Embora acreditem que estejam vivendo o auge do amor livre e casual, entregam uma representação crua de um ambiente em que a violação sexual se tornou banal.

O documentário, que levanta a questão sobre o quanto os homens são cobrados por sua virilidade, mostra, durante intermináveis minutos, mulheres sendo tratadas como um pedaço de carne, longe, muitas vezes, de uma condição segura para fazer escolhas depois de absurdamente alcoolizadas. Entrevistadas, meninas que participavam de concursos degradantes de “beleza”, para minha surpresa, passavam longe da alienação de quem não percebe uma violência sofrida, mas, ao contrário, mostravam-se conscientes e evidentemente tristes por sujeitarem-se àquelas situações e, por tal consciência, faziam ressoar em mim, uma fêmea adulta, a dúvida latente do por que essas meninas permitem ser tratadas dessa maneira?

Ainda que as propagandas de cerveja, por anos a fio, tenham objetificado a mulher, e embora o Spring Break pareça uma eterna publicidade de cerveja, seria possível que anos de exposição do imaginário masculino teriam tido o poder de moldar a cultura desses jovens? Ou minhas especulações sobre o medo de amar fazem sentido e esse medo pode ser colocado na conta de um romantismo que matou envenenado o amor próprio?

Acredite que a filmagem torna-se cada vez mais difícil de assistir, terminando com imagens (borradas) de um estupro coletivo de uma mulher inconsciente. Isso aconteceu diante de uma multidão de pessoas, muitas com seus celulares em punho, sem que ninguém tenha se mexido para ajudá-la.

E antes que me vejam como um bastião do moralismo, transar é algo maravilhoso e o ato encontra em mim uma encorajadora do mais puro prazer, mas o amor livre (ou sexo, se assim preferem) só funciona quando ambos se sentem seguros e confortáveis e jamais quando um coloca o outro em situação humilhante, de descarte. Não querer um compromisso duradouro depois de uma noite de amor (ou sexo, se não tiver coragem de disponibilizar afeto e, portanto, assim preferir) é parte da vida desde a revolução sexual ocidental, entre os anos de 1960 e 1970. Amor livre e sem compromisso, mas SEMPRE com afeto, coisa que esses meninos não fazem ideia do que se trata. E tão grave quanto transformar o outro em objeto é não usar desse sentimento – o amor – como a mais poderosa forma de autoconhecimento.

O amor é, desde Safo, uma poetisa grega que viveu entre 630 e 570 a.c., uma forma de conhecimento de si, não trata-se apenas da conquista do outro para fins sexuais, trata-se também da conquista de si e isso é lindo em todas as direções.

Ufa! Agora, bolo de limão siciliano para refrescar as ideias:

A receita original, retirada do caderninho de receitas da minha mãe, trazia o bolo com o limão tahiti, mas fiz a troca para experimentar e ficou ainda mais gostoso!

Você vai precisar de:

2 ovos
1 e 1/2 xícara de chá de açúcar
3 colheres de sopa de margarina
Suco de 2 limões médios
Raspas de limão
3 e 1/2 xícaras de chá de farinha de trigo
1 xícara de chá de leite
2 colheres de sopa de fermento em pó

Como fazer:

Separe as claras das gemas e bata no liquidificador as gemas, o açúcar e margarina. Em seguida, junte o suco, o leite e farinha aos poucos. Assim que obtiver uma massa homogênea, misture com uma colher, delicadamente, as claras batidas em neve, o fermento e as raspinhas do limão. Espalhe a massa em uma assadeira retangular média já untada e asse em forno preaquecido por, mais ou menos, 40 minutos, em temperatura de 180ºC.

Sirva com café! 🙂

Autor
Especialista em comunicação, fiz carreira no mundo digital gerenciando projetos e escrevendo para grandes marcas. Amante da moda e das artes, divido meu tempo entre meu trabalho no time de branding de uma grande startup, meia dúzia de dilemas sobre os tempos modernos, meus amores e muitos, muitos bolos.

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