Bolo rápido para dias de aprendizado e o que você está fazendo com sua hiperconexão?

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Primeiro ato – O fim da ausência*

O interfone tocou cedinho. Eu lavava meus pincéis de maquiagem quando papai veio me trazer uma infinidade de salada de frutas. Queria me deixar animada para o ócio. Enquanto passava o café e assava o bolo, devorei a Vogue que rolou de um canto para o outro por meio agosto.

Comemos, ele se despediu ligeiro, me arremessando um beijo de longe e lamentando colocar no ringue o sangue quente, de um lado, e suas superstições, do outro. Ao perceber que me faltava coragem para levantar e deixar a mesa, escolheu meter a mão na maçaneta mesmo sob o risco de não voltar nunca mais na minha casa. Corri para dar um abraço demorado, mesmo de pijama, quando ele já entrava no elevador e voltei sorrindo, comemorando a certeza de ter mais amor que preguiça.

Levei meus óculos para apertar as perninhas e tive tempo de viajar no barulhinho que faziam as bolinhas de vidro do areieiro, enquanto o moço as levava de um lado para o outro numa calma irritante.

Voltei pra casa não sem antes comprar todos os presentes do mês, considerando aniversários, nascimentos e casamentos. Organizei a breve viagem (em de-ta-lhes), não resisti ao e-mail do kit de vinhos e fiz uma salada incrível para comer em uma mesa montada com todas as frescuras que gosto e a que tenho direito.

Lavei. Enxuguei. Guardei.

Olhei incrédula para a pilha de livros que esperam que eu lhes dedique algum carinho. Estamos ansiosos. Eles, na expectativa da minha escolha, eu, perdida entre as dores do mundo de Milan Kundera, a verdade embrulhada em romance de Chimamanda ou a seleção de crônicas tão líricas quanto irônicas do Cony.

Resolvi as tarefas da semana, só fazia seis horas que estava de férias e fiz essa reflexão enquanto postava qualquer bobagem em alguma rede social em predileção aos livros, ao sono, ao parque, à cozinha, ao nada. Lembrei da promessa que fiz a mim mesma de passar menos por ali. De abraçar o tempo. De reaprender a ficar sem fazer nada. De aproveitar o benefício de fazer parte da última geração que viveu o mundo analógico e, portanto, de ser parte da última geração que se lembra de curtir o esse nada sem buscar refúgio sacando o celular do bolso.

Tinha 18 dias para descansar e entendi que desejava mesmo me desconectar ou, pelo menos, me desconectar do que não me levava a lugar algum.

Segundo ato – não acredite no que te contam sobre você

Dona de uma máquina de costura há quase um ano, revivi o abismo de sentimentos entre a alegria do dia em que aquela Singer escolhida a dedo chegou e a frustração de uma semana mais tarde, quando ainda não tinha conseguido sequer passar a linha com sucesso.

Desistir foi fácil, fácil, afinal, sempre fui a canhota que cortava torto, borrava as pinturas e, por isso mesmo, acreditava que não tinha nenhum dom manual. Dom, sabe?

Lembrei, então, do ranço que todos nós, amantes da escrita, temos quando alguém nos diz que admira muito quem tem o dom de escrever. Isso porque, antes de brilhar os olhos dos leitores aqui e ali, houve muita transpiração e eu realmente acredito que a escrita pode ser treinada e que qualquer um que se dedique pode, sim, se tornar um gênio nisso.

Lembrei, ainda, de um livro que descreve a história de diversas personalidades que se destacaram sem que tivessem necessariamente um QI muito diferente da média. Entre outros, Malcolm Gladwell, autor do delicioso Outliers (ou “Fora de Série” em português), cita a dedicação de Bill Gates, Mozart e até dos Beatles como responsável por suas genialidades. É isso: dedicação!

No livro, o autor explora o conceito da pequena vantagem inicial, explicando que alguns podem ser favorecidos pelo acúmulo gradual de oportunidades (pense em filhos de escritores, por exemplo, que, provavelmente, serão muito mais estimulados através da leitura desde muito cedo).

Independente da vantagem inicial, porém, a característica determinante para que você seja realmente incrível no que faz, segundo Gladwell, são 10 mil horas de dedicação. Ele cita Lennon e Paul, que só deram o salto para os Beatles depois de muitas horas tocando num clube em Hamburgo nos anos 60. Cita, ainda, jogadores de xadrez que ficaram absurdamente talentosos depois de anos de prática, além de jogadores de futebol americano. Prá-ti-ca!

Ainda que não tivesse (e não tenho) a intenção de transformá-lo em profissão e nem ser a melhor costureira que você respeita, eu queria aprender esse ofício, tinha 18 dias livres e estava convencida de que bastava mergulhar com afinco, já que não me permitiria afogar na desculpa da falta de talento (ou só por não ser destra).

Terceiro ato – uma nova educação

Se a escola suprimiu as artes — e eu tenho essa consciência — tenho também a obrigação de resgatá-la. E não foi só no meu caso que a arte foi afastada do aprendizado. Desde sua origem, na Prússia do século XVIII, a escola ensina para a indústria, logo, as artes nunca foram mandatórias… desde então, decidimos muito cedo não apenas o curso para o qual vamos dedicar quatro ou cinco longos anos, mas ali, aos 18, decidimos o nosso destino.

Faz poucos anos que algumas empresas já não estão mais prestando atenção em algumas informações antes cruciais nos currículos. Os lugares mais modernos dão muito mais valor para suas habilidades do que para onde ou como você as adquiriu. E tem mais: essas empresas estão cada vez mais interessadas em suas múltiplas capacidades. Se antes qualquer mudança em uma empresa era como manobrar o Titanic, agora as coisas mudam com a agilidade de um bote salva-vidas e quando mais versáteis, mais experimentados somos — o que é bom para a empresa, mas também para quem deseja se testar e ter a chance de encontrar o que mais gosta de fazer.

Não à toa, o mercado de cursos digitais está caminhando a passos largos (e menos por acaso ainda escolhi trabalhar em uma empresa cujo negócio é focado em produtos digitais), e foi exatamente em um curso digital de poucas e eficazes horas onde encontrei o conhecimento que precisava para aprender, enfim, a arte de costurar.

Já no meu segundo dia de férias terminei a primeira aula do workshop de jogos americanos. Uma visita a um armarinho, ferramentas apropriadas – incluindo tesouras para canhotos – e coloquei a mão na massa. Segui o passo a passo, tirei dúvidas com a professora, li o fórum com dúvidas de outros alunos. Revi partes mais complicadas enquanto cortava e montava as peças e fiz tudo com calma, podendo acelerar as partes que eram mais fáceis para mim e repetir as mais complicadas à exaustão. Bem diferente da escola que conhecemos…

Acertei, errei, desfiz, testei caminhos diferentes dos indicados para resolver aos mesmos problemas e, ao fim, entendi que se antes não acreditava na minha capacidade para uma atividade como a costura, ao final do primeiro projeto, um jogo americano com canto mitrado (esse cantinho que forma a moldura), me enchi de muito orgulho não apenas por ter conseguido fazer um peça pela qual pagaria, mas, acima de tudo, por ter vencido a minha descrença e provado minha capacidade de realização.

Os jogos americanos foram o primeiro passo, estou fazendo um vestido que anda me mantendo hiperconectada nas aulas e feliz por ter aprendido um novo ofício em 18 deliciosos dias.
Ao longo da minha jornada de férias, reafirmei meu amor pela nova educação e entendi que, vez ou outra, é bem bom ter uma receitinha rápida para não precisar abrir mão de comer um bolinho entre as costuras. Então, com vocês, a receita de um bolo de caneca que fica pronto em 3 minutos.

Bolo de chocolate de microondas

Você vai precisar de:

1 ovo
4 colheres (de sopa) de leite
3 colheres (de sopa) de óleo
2 colheres (de sopa) de achocolatado em pó
4 colheres (de sopa) de açúcar
4 colheres (de sopa) de farinha de trigo
1 colher (de café) de fermento

Como fazer:

Em uma tigela pequena, misture os ingredientes e bata com um fouet até que fiquem formem uma massa homogênea. Deixe o fermento para misturar por último. Quando todos os ingredientes estiverem incorporados, transfira a massa (que estará bem líquida e lisinha) para recipientes de sua preferência, lembrando que deve encher apenas ⅓ de cada um deles para evitar que derrame enquanto assa. Coloque-os no microondas por três minutos e pronto!

Sirva com café. 😉

*“The End of Absence” (“O fim da ausência”, em tradução livre, ainda sem versão em português) é um livro de Michael Harris que fala sobre a última geração “bilíngue”, que irá conhecer o que chamamos de “não fazer nada”.

Autor
Especialista em comunicação, fiz carreira no mundo digital gerenciando projetos e escrevendo para grandes marcas. Amante da moda e das artes, divido meu tempo entre meu trabalho no time de branding de uma grande startup, meia dúzia de dilemas sobre os tempos modernos, meus amores e muitos, muitos bolos.

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