Buritis e Viaduto das Artes: exposição Outros Territórios chama a atenção para vazios urbanos

 

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A paisagem das grandes cidades é composta por muitos elementos residuais. Regiões vacantes, vazios subutilizados e terrenos baldios configuram áreas abertas e sujeitas às pressões econômicas e sociais que produzem a cidade. Áreas vizinhas a ferrovias, regiões desindustrializadas, centros históricos em declínio, portos desativados, áreas verdes privadas – todos se transformaram num imenso manancial propício para intervenções, uma tendência mundial que tem gerado várias formas de revitalizações e transformações urbanas.

Lançado para o mercado imobiliário no início dos anos 1990, os morros do bairro Buritis, em Belo Horizonte, foram todos rapidamente ocupados por prédios caracterizados pela uniformidade volumétrica, pela falta de uma melhor relação terreno-projeto, pela mesmice e sobretudo pela falta de imaginação de seus arquitetos.

Os pilotis desses prédios são como plataformas que dividem dois espaços absolutamente desconexos: abaixo, um labirinto de pilares de concreto (as ditas “palafitas” ou “paliteiros”); acima, apartamentos de três quartos. E no meio, os pilotis que funcionam como garagem e/ou área de lazer. São prédios com uma única estrutura em um único lote em um mesmo imóvel, porém gerando duas possibilidades de ocupação independentes, radicalmente separadas e espelhadas pelos pilotis.

Palafitas no Bairro Buritis, em BH; @Vazio S/A – outros territórios

Uma dessas ocupações está determinada (os apartamentos); a outra encontra-se espantosamente em aberto. O labirinto formado pela sequência das palafitas de concreto, a natureza explicitamente residual desses labirintos e a uniformidade dos prédios suportados pelas palafitas conformam, todos eles, um potencial que é inversamente proporcional à qualidade arquitetônica desses objetos.

Terrenos acidentados são vencidos através de uma malha sincopada de pilares e vigas, cintas e contraventamentos que, juntos, materializam fantasias arquitetônicas. São espaços piranesianos não idealizados por arquitetos; produtos de calculistas que jamais imaginaram o espaço que projetaram; surpresas espaciais que nunca acontecem no mundo previsível da arquitetura.

Com o objetivo de jogar luz sobre esses vazios urbanos, foi recentemente realizada a Chamada Internacional de Projetos para Intervenção Urbana Outros Territórios, que reuniu propostas de intervenções efêmeras para as palafitas dos prédios do Buritis. E, neste sábado (27/04), será aberta a exposição “Outros Territórios”, no Viaduto das Artes (Av. Olinto Meireles, 45, Barreiro, às 11h), outro espaço que expande essa mesma reflexão. 

Ali serão expostas, até o dia 2 de junho, 26 propostas de arte e arquitetura selecionadas pelo júri e pela comissão organizadora. No dia da abertura (sábado, 27, às 11h) haverá uma mesa com a participação dos jurados da Chamada – que analisaram mais de 100 projetos inscritos -, e com os organizadores.

A mostra é realizada pelo Vazio S/A, escritório de arquitetura que vem provocando o debate sobre vazios urbanos em Belo Horizonte e outras cidades, em parceria com o Coletivo Aurora e o curador Eduardo de Jesus. O patrocínio é do Banco Mercantil do Brasil.

O Viaduto das Artes e o Buritis têm muito em comum. A inserção de um viaduto num bairro provoca um choque entre a escala viária e a do pedestre, que é o principal usuário da rua. Os baixios de viadutos são um passivo urbano, assim como as palafitas: ambos são intervenções desajeitadas e no mínimo pouco adequadas à cidade e ao bairro.

Galeria online

Todos os projetos para ocupação de palafitas – que podem servir de inspiração para execução naquelas ou em outras construções – fazem agora parte de uma galeria on-line que pode ser acessada aqui. É um arsenal de propostas para vazios urbanos disponibilizado ao público e contextualizado dentro de uma discussão ampla e oportuna: as possibilidades latentes da cidade existente.

Próxima etapa 

A segunda fase do ‘Outros Territórios’ consiste na possível instalação e execução das propostas selecionadas nas palafitas dos edifícios do bairro Buritis em data ainda a ser definida.

Além de um roteiro livre de visitação às obras pelas ruas do bairro, ‘Outros Territórios’ pretende se configurar como um promotor de debates em torno de questões relativas à cidade, explorando interfaces entre arquitetura, artes visuais, iluminação e paisagem urbana, e problematizando a gestão da cidade, os passivos ambientais e arquitetônicos, os vazios urbanos e o mercado imobiliário.

“Discussões inovadoras como essas estão na agenda dos mais atentos agentes culturais do século XXI. É por isso que estamos entusiasmados por lançar uma plataforma de debates que será compartilhada por criadores e moradores do bairro e da cidade e que patrocinará uma nova mirada sobre o Buritis e vazios urbanos”, afirma Teixeira.

Comissão Organizadora

O Vazio S/A, fundado pelo arquiteto Carlos Teixeira, em 2003, é um escritório de arquitetura que busca uma postura propositiva e ativa: uma visão da informalidade, dos vazios e do mercado como algo que possa nos indicar novos projetos e oportunidades.

O Coletivo Aurora é uma iniciativa das arquitetas, urbanistas e designers de iluminação Mariana Novaes, Paula Carnelós e Diana Joels, atuantes no ramo da luz para os espaços construídos em suas respectivas empresas: Atiaîa Design, Acenda e concepDUAL.

Eduardo de Jesus é curador na área do audiovisual, arte contemporânea e tecnologia. Coordenou, com Jochen Volz, cursos numa parceria IEC-PUC Minas e Inhotim, e foi curador de “Esses Espaços” e “Densidade Local”, entre várias outras mostras.

CONVITE

Exposição Outros Territórios
Data: de 27 de abril a 2 de junho
Horário de visita: 10h às 17h, de 2ª a 6ª
Local: Viaduto das Artes (Av. Olinto Meireles, 45, Barreiro)
Entrada gratuita
Classificação livre
Informações: www.outrosterritorios.com.br

Debate Outros Territórios
Data: 27 de abril (sábado)
Horário: 11h
Local: Viaduto das Artes (Av. Olinto Meireles, 45, Barreiro)
Entrada gratuita
Classificação livre
Informações: www.outrosterritorios.com.br

Autor
Arquiteto pela EA-UFMG e mestre em urbanismo pela Architectural Association. Publicou os livros História do Vazio em Belo Horizonte (Cosac Naify, 1999), Ode ao Vazio (Nhamérica, 2017) e é um dos organizadores de Espaços Colaterais (Cidades Criativas, 2008). Fundou o escritório Vazio S/A Arquitetura e Urbanismo em 2002.

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