Cadernos para primeiros lampejos: companhia para a vida inteira

 

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Ainda há pouco, enviei uma mensagem pra minha mãe perguntando qual música cantei com minha turma na “formatura” do pré primário. Tinha certeza que era Aquarela, do Toquinho, mas alguma coisa não se encaixava… O tempo passa e as memórias vão se confundindo dentro da gente, mas no fim das contas a memória da sensação, a do sentimento, essa não nos engana.

Seis anos de idade, por alguma razão senti um nó na garganta e os olhos marejados. Pra voz não falhar, cantei mais alto. Me emocionei sem saber o porquê. A melodia, a levada da música, a disposição da letra que entendia verdadeiramente só até a metade: a primeira estrofe, porque vivenciava aquelas palavras no meu dia a dia, e a segunda, porque era o porvir muito próximo e aguardado ansiosamente… começaria, em breve, o primeiro ano do ensino fundamental. Segurei o choro.

O meu caderno sempre teve em suas bordas flores, sol, casas, montanhas, cachoeiras e, na pauta, a tentativa da melhor performance obtida no caderno de caligrafia.

Lembro de uma vez em que tive de escrever uma redação com, pelo menos, dez linhas e estava usando um caderno sem pauta. Ao invés de escrever na vertical, comecei a escrita na horizontal, como se fosse um desenho. Até que não consegui ter mais ideias para chegar a um texto de dez linhas naquela condição. Drama. Chorei e o papel amarrotou com as lágrimas.

Ao passar a limpo, usei o caderno na vertical e pronto: tinha um texto de onze linhas e a imagem perfeita do que é um pranto que molha o papel.

A terceira estrofe só pude entender, de verdade, mais tarde. Não se nasce mulher, torna-se mulher. E quando esses raios de transformação emanam, sim, quantas páginas serão rasgadas até que a vida nos ensine a cuidar dos nossos monstros? E, quando aprendemos a cuidar deles, outros tantos surgirão, demarcando os ciclos desse sagrado feminino que giram num feroz carrossel até nos tornarmos semente novamente. É trabalho de uma vida inteira. Inteira. Plena.

Sigo aberta a entender a quarta estrofe.

Parte dela pude sentir ao arrumar os resquícios de brincadeira da minha filha. Dentre os brinquedos espalhados, um caderno aberto e a página toda “rabiscada” com uma mistura de cores bem entrosadas. Parei por alguns segundos e pensei “preciso guardar esse caderno pra vida” e não será num canto qualquer.

Talvez essa memória palpável ajude-a a resgatar os sentimentos que nutria enquanto pintava cada folha. Ou me ajude a lembrar dessa fase quando os primeiros rabiscos surgiram. Então, me deparo com a repetição dos fatos que integram nosso crescimento nesse espaço de tempo que ocupamos, o qual chamamos de vida. Vida que segue sempre em frente.

Nesse mundo digitalizado, ainda não inventaram nada que substitua o bom e velho caderno para esboçar os primeiros lampejos de uma ideia, de um sentimento, de um desejo que nos move. Talvez a parede da sala seja um concorrente tentador quando temos quase três anos de idade. Mas só o caderno pode nos acompanhar em casa, na escola, no restaurante, na viagem… tem cheiro, tem peso, tem textura, não quebra e não sofre da obsolescência programada.

Uma vez fui cantar a música O Caderno (Toquinho) em uma cerimônia e, só de pensar nela, meus olhos já se enchiam de água (assim como aconteceu agora), precisei fazer um exercício mental mirabolante pra começá-la sem ter um nó na garganta, mas não teve jeito. A música começou cantada e terminou instrumental. Fazer o quê? Tem certas coisas que são mais fortes do que a gente. Depois, tive a sorte de nunca mais ter precisado cantar essa música profissionalmente.

O Caderno foi a música que cantei há 28 anos junto com meus colegas de escola. Ela é dessas músicas que chamo de música-da-minha-vida, não apenas porque ela esteve presente em um momento importante que vivi, mas também por ainda ter conteúdo a se deslindar conforme adentro em minhas camadas. É perfeita em sua simplicidade e leve em nossas complexidades.

Autor
Quando era criança, dizia que queria ser freira. Hoje sou um sonho de criança frustrado. Cantora; bancária; triplamente estudante - mestrado, pós e MBA; às vezes modelo e atriz; há quase três anos, mãe. Tudo o que disser, nada me define. Sigo atenta em constante processo de transformação. Corro todos os dias atrás dos meus monstros, medito profundamente de meia noite as sete e não tenho móveis em casa para não acomodar. Quero reduzir o volume da bagagem de fora, pois tudo o que preciso deve estar dentro de mim. Fale comigo pelo email [email protected]

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