Na rota dos cânions norte-americanos

 Foto: Renato Weil/A Casa Nômade, 2018. Tusayan, EUA.

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O cenário é o deserto, mas a protagonista é a água. Com toda a sua força reunida nas corredeiras do Rio Colorado, ela dominou, erodiu e esculpiu, ao longo dos últimos 6 milhões de anos, um enorme desfiladeiro nas planícies dos estados de Arizona e Utah, formando as famosas paisagens dos cânions norte-americanos. Acompanhada pelo vento, outro personagem importantíssimo nessa história, a água escava e modela paredões de rocha e revela, em seu caminho, parte da história geológica da Terra. Vulcões, terremotos, congelamentos, inundações, abalos tectônicos e outros movimentos da crosta do nosso planeta estão gravados naquelas rochas, algumas com idade que pode chegar aos 2 bilhões de anos. Marcas de uma Terra inquieta impressas na rota dos parques do Grand Canyon, Monument Valley, Antelope Canyon e Arches.

Do alto dos paredões do Grand Canyon, predomina o vermelho na paisagem. Mas o nascer e o pôr-do-sol alteram a incidência de luz nas rochas e revelam impressionantes tons de cinza, violeta, azul, amarelo, verde e rosa. Uma aula de geologia, com direito a show de cores! Ali de cima, tudo muito seco e árido. Então, é hora de calçar as botas, testar o preparo físico e desbravar as entranhas do Grand Canyon até tocar com nossas próprias mãos o Rio Colorado. As águas frias, barrentas e caudalosas desse rio também se tornaram protagonistas da nossa história, em uma expedição de cinco dias de raftings e aminhadas.

Poucos quilômetros adiante, mistérios e lendas do grande deserto do Arizona se escondem nas curvas do Antelope Canyon. É preciso viajar ao passado e ressuscitar o antigo idioma dos índios navajos para entender a essência desse lugar, batizado de “Tse bighanilini” (“o lugar onde a água corre através das rochas”) ou Hasdeztwazi (“arcos de rocha em espiral”). Sagrado para os povos navajos, os cânions esculpidos na rocha de arenito foram o esconderijo dos
anciãos indígenas durante a Longa Caminhada (Long Walk, quando, em 1864, os navajos foram expulsos de suas terras pelo governo dos Estados Unidos e forçados a caminhar do que é hoje o Arizona até o Leste do Novo México).

Depois de mergulhar na história, prepare a retina para um espetáculo de cores e sombras a se formar diante dos seus olhos à medida que o sol consegue penetrar por entre os paredões de 40 metros de altura, separados lá no alto por uma fenda de pouco mais de um metro de largura. Simplesmente deslumbrante!

Agora, feche os olhos e busque na sua memória uma cena típica de filmes de faroeste. Pode ser que te venha à mente John Wayne cavalgando em busca de sua sobrinha, sequestrada por índios comanches. Ou Ringo Kid e outros colonos brancos sendo violentamente atacados por apaches. Ou até o xerife Wyatt Earp, o pistoleiro Doc Holliday e cowboys fora da lei trocando tiros no Velho Oeste. Não importa a cena, o filme ou o diretor. O cenário para qualquer dessas passagens hollywoodianas é um só: Monument Valley, o imenso deserto coroado de falésias, mesas, paredões e montes de arenito na divisa dos estados de Arizona e Utah.

Mas muito antes de ser eleito o principal símbolo do Oeste americano, Monument Valley e seu vizinho Mystery Valley foram o lar de povos ancestrais. Os anasazis, nativos que deram origem às tribos navajo, zuni e pueblo, deixaram suas marcas nas cavernas de arenito com construções hoje em ruínas e pinturas rupestres. A arte de tecer fios de lã, construir casas de adobe e extrair pigmentos das rochas são tradições ainda preservadas. E toda essa história é agora contada pelos descendentes dos anasazis, em incríveis excursões.

Para terminar a viagem pela rota dos cânions, voltemos a reparar na força da natureza. Água, gelo, vento, temperaturas extremas e camadas e mais camadas de sal no solo são os responsáveis pelo incrível cenário de rochas esculpidas no Arches National Park.

Em um dia ensolarado e de céu azul, é até difícil imaginar o quão violentos podem ser esses agentes. Mas, nos últimos 300 milhões de anos, eles trabalharam pesado na erosão do terreno e construíram nada menos que 2.000 arcos no coração do deserto de Utah. Ali, diante dos nossos olhos, estão arcos e pontes naturais que chegam a medir 93 metros de largura e 14 metros de altura. Bonitos e impressionantes, os cânions são testemunhas de infinitas eras geológicas e estão assentados sobre o que, no passado, já foi o fundo de um grande oceano, dunas petrificadas, camas de sal, deltas de rios, bosques com pegadas de dinossauros… Tudo sedimentado em camadas por milhões de anos e, hoje, uma miragem aos nossos olhos.

Autor
Glória Tupinambás é repórter e colunista de Viagem e Turismo da Rádio CBN, já viajou por 59 países dos cinco continentes com seu marido, o fotógrafo Renato Weil. Juntos, publicaram dois livros sobre viagens: O Mundo em Minas e A Casa Nômade pelo Mundo. Hoje, estão em uma expedição pelos extremos da América, do Ushuaia ao Alasca, a bordo do motorhome A Casa Nômade.

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