Conheça a trajetória do Carnaval de Belo Horizonte por Rafa Barros

 Foto: Carlos Hauck

Receba artigos sobre cidades semanalmente em sua caixa de entrada!

×

“Toda festa, assim como toda magia, age, se manifesta e se propaga por meio do contágio. Mencionaria, primeiramente, essa força invisível, difusa e inebriante que nos enfeitiça e nos alucina. Impossível, depois de riscado o pavio, que essa experiência não se propagasse. Por outro lado, e não tenho dúvidas disso, havia sim um desejo represado, uma vontade de viver e experienciar a cidade, em toda a sua diversidade e com todas as suas possibilidades e potencialidades. Possibilidades reiteradamente negadas por intervenções públicas e mercadológicas. E a fórmula disso é bem simples: tudo aquilo que é confinado sem válvula de escape, sem pontos de fugas, um dia, inevitavelmente, explode, transborda!”

A fala é do antropólogo e carnavalesco Rafa Barros, que conversou com o repórter do jornal Hoje em Dia Lucas Buzatti sobre as origens, transformações e novos rumos da folia em Belo Horizonte. Uma festa que “refloresceu” a partir da contestação política e hoje é uma das maiores do país — quem diria. Pescamos alguns trechos para entender ou mesmo se identificar com o movimento. Confira! A entrevista, na íntegra, pode ser lida no portal do Hoje em Dia.

O começo: a Praia da Estação

“Fantasias, propriamente ditas, não haviam, a não ser as utopias imaginadas. No final do mesmo ano (2009), Lacerda sacramentaria o impulso reflorescedor do carnaval com a imposição do decreto que proibia a realização de eventos de qualquer natureza na Praça da Estação. Berço da cidade, local de encontros e de grandes atos políticos, festivos e culturais, ponto de expressão da cultura e da vida marginais, a praça, território de todas, na base da canetada, tornava-se campo de exceção. Por esse motivo, desaguava nas margens do ribeirão Arrudas, já transformado em avenida, a Praia das Alterosas. E foi graças a força imagética e estética da Praia da Estação, no início de 2010, que provocou uma grande tsunami política na cidade, que o embrião carnavalesco de 2009 ganhou fôlego e a cidade.”

“Conhecidos e desconhecidos se reconheciam no louco desejo de experimentar uma outra cidade. Em meio a areia praiana, inimaginável semanas antes, mas extremamente real a partir daquele instante, sensações e imagens impregnaram nossos seres e nossos horizontes.”

O legado do Carnaval

“Difícil enumerar e separar os legados deixados e tantas outros, importantes e potentes, que podemos vislumbrar. Numa lista rápida e precária enumeraria, primeiro, nossa capacidade de fazer de quase toda a cidade uma grande festa! Retomar a experiência do carnaval, fundamento da socialidade brasileira, como marco de encontros, transbordamentos e transformações sociais. Segundo, o carnaval nos legou uma grande “fórmula” de articulação e intervenção políticas.”

“Neste ano, Belo Horizonte entrou para a história do país estabelecendo condições de financiamento para a festa que romperam com a lógica do monopólio, garantiram a liberdade do folião e do ambulante e preservaram os espaços de circulação dos blocos de rua. Tudo isso tendo um ganho de praticamente seis vezes o valor do financiamento anterior. Uma prova de que não podemos ser subservientes aos mercado.”

A festa, a cidade e a diversidade

“Carnaval é festa aberta e popular. Restrição do espaço público e confinamento de abadás contradizem o princípio fundante da festa. Esse tipo de procedimento, na minha opinião, deve ser combatido. Com relação ao conteúdo político do carnaval, não o consigo ver dissociado de sua efetivação. Todo carnaval é político por essência. Costumo brincar que, como toda revolução é uma festa, toda festa comporta em si também uma revolução! No caso específico de Belo Horizonte, nossa história, seja a mais tradicional história do carnaval, seja a mais recente retomada da festa, nos confere um contorno político muito relevante que não consigo vislumbrar dissociado de sua realização, pelo menos tão cedo.”

“Há também uma questão fundamental relacionada ao fortalecimento e à legitimidade de lutas já estabelecidas. A possibilidade de que o carnaval possa ser instrumento de visibilidade e potencialização de espaços de resistência e de lutas históricas, contribuindo para a quebra de estigmas e preconceitos.”

“Sempre acreditamos e investimos num processo de descentralização do carnaval. Esse ímpeto está intimamente ligado ao estimulo primeiro do dito “reflorescimento” da festa lá nos idos de 2009… Enraizar, capilarizar, pulverizar diz desse movimento de experimentar, de experienciar a cidade e seus espaços públicos. Diria mais, diz respeito a um deslocamento não apenas geográfico, mas existencial, em direção ao outro, à alteridade, à diferença. Uma possibilidade de conhecer não apenas espaços desconhecidos e marginais, mas de reconhecer outras possibilidades de vida, experiências comunitárias etc.”

Próximos passos do Carnaval

“Não há nada acabado e perfeito. Sempre haverá imperfeições e coisas a serem construídas e corrigidas. Mas, com certeza, a partir de processos de diálogo e escuta as construções tendem a se equacionar de forma mais efetiva e saudável. Nessa direção, do meu ponto de vista, faz-se necessária a criação do Conselho Municipal do Carnaval, ou qualquer instância de mesma natureza, que garanta a participação plural da sociedade na concepção e estruturação da festa na cidade.

(…) é fundamental que o poder público continue na linha da mediação com o capital em relação aos formatos de patrocínio e na concepção de uma carnaval mais descentralizado, bem como contribua, a partir da experiência carnavalesca, com o processo de regulamentação permanente da atividade ambulante na cidade. O carnaval, gostamos de brincar (e brincar é coisa séria) pode ser apreendido enquanto experiência de uma cidade fabulada, uma cidade ideal. Seria maravilhoso conseguirmos implementar projetos e ações durante as festividades de Momo, como a própria Tarifa Zero, para que, posteriormente, possam ser pensadas com mais seriedade perenemente. Não custa acreditar quem nem todo carnaval precisa ter um fim.”

Confira a entrevista completa: 

Um dos criadores da Praia da Estação, antropólogo Rafa Barros fala dos rumos do carnaval de BH

Conheça o guia de Carnaval do GUAJA:

Guia GUAJA do Carnaval 2018 de Belo Horizonte!

Autor
Comunidade criativa que inspira ideias e conecta oportunidades. Com atuação on e offline, construímos juntos um ambiente de conteúdo e aprendizado.

Share the love.

Se este artigo te fez lembrar de alguém, mostra pra elx!

Você vai gostar