Carta pra você

 

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Belo Horizonte, 16 de agosto de 2018.

Olá, como vai? Você não me conhece, mas saiba que eu escrevi essa carta com muito carinho especialmente pra você.

Imagino que você não recebe uma carta há tempos (dependendo da sua idade, me arrisco a dizer que talvez nunca tenha recebido uma). Acertei? Ainda mais uma carta assim escrita à mão, enviada pelos Correios, com selo, carimbo e tudo mais o que você tem direito. Convenhamos que há canais de comunicação muito mais convenientes. Mais práticos, rápidos, objetivos e eficientes na entrega da mensagem. Em pouco tempo, o rádio ultrapassou a carta, o telefone ultrapassou o rádio, o e-mail ultrapassou o telefone. E agora o WhatsApp acaba de ultrapassar o e-mail. Aí, eu te pergunto: será que isso é mesmo uma evolução?

Pense comigo: enquanto a nossa comunicação está ficando mais ágil, ela está perdendo qualidade. Como resultado, vemos relacionamentos cada dia mais rasos, com pouca ou nenhuma percepção do sentimento alheio. Presenciamos conversas que transcendem oceanos de distância, porém não possuem profundidade alguma. Conhecemos famílias que não têm paciência para conversar, apesar de viverem na mesma casa.ê

Chique, hoje, é ser objetivo. Nada contra, só que a objetividade excessiva é um convite à perda de sensibilidade. Render conversa à toa pra quê? Falar com o vizinho no elevador pra quê? Fazer cartão de aniversário pra quê, se é muito mais fácil simplesmente chegar e dizer “parabéns” para o aniversariante? Com o objetivo de evitar a perda de tempo, renunciamos a oportunidades ímpares de exercitar nossa curiosidade, distribuir leveza, talvez fazer novos amigos. Numa análise mais ampla, perdemos chances diárias de praticar nossa condição humana, nos seus mais diversos aspectos.

E o que dizer das conversas sobre política, esporte, amor, religião? Parece que as pessoas desaprenderam a se posicionar com manifestações próprias, pois é muito mais fácil repassar as alheias. O plágio ficou livre. Encaminhar se tornou normal. Cá pra nós, isso me faz lembrar de quando eu era mais nova e fazia as pesquisas da escola usando a enciclopédia. Minha mãe insistia que eu não podia, em hipótese alguma, copiar o que estava escrito no livro. Tinha que escrever “com as minhas próprias palavras”, dizia ela. Tinha que interpretar, refletir, compreender e ser capaz de transmitir essa compreensão adiante. Com isso, a gente acabava aprendendo. Conforme a regra universal da sabedoria materna, hoje sei que ela tinha toda razão.

Há cerca de um ano e meio, me vi muito incomodada com tudo isso. Incomodada com as conversas curtas, objetivas e sem qualquer poesia. Incomodada pela falta de sensibilidade dos nossos relacionamentos. Incomodada com a essa vida moderna que geralmente não nos permite contagiar pelos sorrisos alheios, nos faz evitar conversas “desnecessárias”, desestimula a expressão. Me percebi profundamente chateada pela nossa incapacidade de usufruir das coisas simples e humanas que a vida nos oferece a cada novo dia. Foi quando eu decidi que precisa fazer algo para confrontar essa situação, à minha maneira e dentro das minhas possibilidades. Parece que eu precisava disso, sabe? Você já sentiu algo parecido?

Comecei então a escrever cartas. Escrever a quem estivesse com o coração aberto a novas experiências, ou para abrir o coração de quem não estivesse. Escrever para pessoas comuns, como você, simplesmente para que elas tivessem o prazer do friozinho na barriga ao abrir o envelope. Para que tivessem a chance de experimentar uma forma de comunicação leve, cuidadosa, lenta. Para que elas percebessem o quanto é importante resgatar certas simplicidades da vida.

De lá pra cá, escrevi para mais de 50 pessoas diferentes e completamente desconhecidas. À mão, com ótimas intenções. Um segredinho nosso: no início, tive até dor nos dedos porque estava totalmente descostumada a segurar a caneta por tanto tempo. Se a dor valeu a pena? Com certeza.

Inclusive, é por isso que eu estou escrevendo pra você hoje. Quero te presentear com minhas melhores palavras. Mesmo sabendo que corro o risco de ser tachada de saudosista ao extremo, gostaria muito que você refletisse sobre tudo isso. Será que tem como melhorar a forma como você se comunica com as outras pessoas e com a vida? Talvez torná-la mais sensível, menos automática? Desejo sinceramente que você coloque mais amor nas suas expressões. Que tente ser mais humano na lida diária e esteja sempre alerta às pequenas alegrias.

Vou ficando por aqui porque já é bem tarde. Espero de todo o coração que você tenha gostado dessa cartinha. Foi um prazer enorme escrever pra você.

Sempre que quiser, escreva pra mim.

Um abraço,

Luisa.

Autor
Sou do tipo de gente que se alegra com as pequenas delicadezas do cotidiano: um “bom dia” entusiasmado, um abraço apertado, um sorriso sincero. Acredito muito na importância das relações humanas. À frente do blog “Escreva Pra Mim”, escrevo cartas para pessoas que desejam vivenciar uma experiência de comunicação diferente. Também distribuo cartas de forma aleatória em espaços públicos, para que elas próprias encontrem seus destinatários. Sou uma pessoa comum buscando mais sentido para a vida.

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