Casa Potencial

 

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por Ernesto Oroza

Cuba é um dos países da América Latina com maiores índices de população vivendo em áreas urbanas. Havana abriga, de forma crescente, uma porcentagem elevada dessa população, mas, paradoxalmente, há um baixo índice de produção de novas moradias em relação ao crescimento demográfico. Onde e como a cidade abriga seus mais de dois milhões de habitantes?

Por mais de três décadas, os habitantes de Havana vêm intervindo, com seus próprios recursos, nos espaços públicos e privados para adaptá-los às novas necessidades individuais e familiares. As transformações mais comuns incluem a criação de novos pavimentos, fechamentos, divisórias, acréscimos e a invasão e ocupação de áreas comuns e de todo e qualquer espaço vazio. Com essas intervenções, aparecem novos acessos, janelas, aberturas, varandas, instalações de água e eletricidade, além de um repertório infinito de alterações, como a colocação de cercas que definam e protejam os novos limites de propriedade ou a conversão de espaços domésticos em bicicletários, cafeterias ou currais para animais.

Dois aspectos fundamentais têm radicalizado esse processo. Por um lado, a casa é praticamente a única fonte de recursos para sua própria transformação. O teorema arquitetônico: casa mais matéria-prima converteu a família numa célula produtiva no centro de um processo contínuo de transformação da cidade que tem sua origem no próprio lar. As intervenções têm estendido consideravelmente a superfície habitável de Havana e isso ocorre sem um significativo transbordamento do perímetro urbano, de forma que se pode dizer que a cidade cresce “para dentro”.

O segundo fato distintivo desse processo é a necessidade, com sua função estrutural na geração e regulação das transformações. Associo essas mudanças às produções naturais conhecidas como estalactites e estalagmites, cujas formas são resultado do movimento fluído dos materiais atraídos pela força da gravidade. Nessa arquitetura, o movimento irreprimível dos materiais compõe também um tecido de linhas e vazios, uma superposição de capas e estruturas, que se apoiam umas sobre as outras, como nos processos naturais. Esse movimento fluído responde a uma força tão poderosa e inevitável quanto à gravidade: a força da necessidade.

A urgência dá um álibi fundamental ao indivíduo. Cada impulso sexual ou fisiológico, cada nascimento e morte provocam o aparecimento de muros, pilares, escadas, novas janelas ou instalações. As casas modificadas em Havana expressam essa relação numa arquitetura da necessidade.

Esforço próprio é o termo utilizado pelos órgãos oficiais cubanos para nomearem as construções e transformações realizadas pelos cidadãos que buscam resolver as necessidades crescentes. Na última década, esses “esforços” se tornaram um fenômeno massivo com ampla repercussão demográfica, econômica, social e expressiva.

Com o programa das Microbrigadas, organizações voluntárias com o objetivo de construir, conservar e reformar habitações ou qualquer outra construção, o Estado transferiu à população a responsabilidade pela criação de seu habitat. Entretanto, como o modelo participativo direcionava energias pessoais em benefício da coletividade, o programa fracassou, transformando-se num processo silencioso e escorregadio que impulsiona cada indivíduo e sua família a buscarem benefícios próprios, com seus próprios recursos e responsabilidades.

Chamo de “casa potencial” um estado latente de consciência. Quando a urgência persiste, a casa potencial surge como uma maneira permanente de se ver o mundo, como uma perspectiva radical e pragmática: tudo será casa. E não se trata unicamente de um ideal, é astúcia, quase paranoica, para imaginar e coletar pela cidade tijolos usados, um tanto de cimento, possíveis janelas ou escadas potenciais. É preciso lucidez para entender quando é o momento econômico ou jurídico exato para construir a laje, ainda que a intuição diga que as paredes só virão dois anos depois.

A habitação potencial existe desde sempre e, por isso, há tantas casas acumulando tijolos debaixo das camas e atrás do sofá. Há também as que, antes de tudo – e talvez por muito tempo –, somente existiam como uma parede ou, com sorte, como um banheiro.

A casa potencial sobrevive no contínuo de pequenos esforços construtivos que, ao longo da vida, engendram relações entre as necessidades e as acumulações, de materiais, tecnologias e ideias.

Havana se regenera a cada dia num processo que responde a gestos pessoais cotidianos múltiplos e abarca a cidade toda. A soma dos esforços das famílias para melhorarem suas condições de vida a partir de seus próprios recursos constitui uma forma especial de reurbanização e adaptação da cidade às cambiantes necessidades e possibilidades econômicas de seus moradores.

Ourbanismo é uma das formas pelas quais o poder imagina, projeta e transforma a cidade. Em Havana, da forma como os habitantes, em família ou individualmente, imaginam, transformam e usam a cidade, prevalece a capacidade dos habitantes de reconhecer demandas e encontrar soluções imediatas que as satisfaçam, sem esperar e nem aceitar os ritmos ou pressupostos do urbanismo profissional. O urbanismo aqui é uma tarefa doméstica da família, como lavar a roupa ou procriar, e a cidade se produz de acordo com os ritmos biológicos e econômicos do lar. O resultado é uma cidade construída sobre as múltiplas – ainda que individuais – interpretações que os habitantes fazem de sua realidade e, posteriormente, pelo conjunto das ações cotidianas.

Se nesta arquitetura a casa é um diagrama da história e da vida presente familiar, a cidade emerge, consequentemente, como tradução do acontecimento coletivo da sociedade, fato que rechaça o papel figurativo e alienado da arquitetura profissional. No lugar dessa arquitetura, predominam práticas descentralizadas, desobedientes e pragmáticas.

Calma, esse artigo continua aqui 🙂

Autor
PISEAGRAMA é uma plataforma editorial dedicada aos espaços públicos – existentes, urgentes e imaginários – e além da revista semestral e sem fins lucrativos, realiza ações em torno de questões de interesse público como debates, micro-experimentos urbanísticos, oficinas, campanhas e publicação de livros.

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