Casas do início do século XX na Savassi deixam legado histórico

 Casarão localizado à Av. Getúlio Vargas, 851. Foto: Ivan Araújo

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Praças da Liberdade e Diogo de Vasconcelos, avenidas Getúlio Vargas e Cristóvão Colombo, escola Barão do Rio Branco e colégio Santo Antônio: muitos prédios, muitos bares, poucas casas. A Savassi é uma das regiões mais tradicionais da capital e, portanto, com muitas histórias para contar. No livro Casa e Chão: Arquitetura e Histórias de Belo Horizonte, os projetos Casas de BH e Chão Que Eu Piso se uniram para revelar algumas preciosidades. Desta vez, para série publicada no GUAJA, tomamos como exemplo dois casarões do bairro.

No livro, o arquiteto, urbanista e professor universitário Guilherme Maciel Araújo destaca como as características dos pisos são capazes de indicar traços de uma sociedade, deixando um legado histórico:

“A arquitetura eclética do final do século XIX e início do século XX deixou um legado bastante importante para nossa história, uma verdadeira herança material que nos permite conhecer um pouco de nossa trajetória como indivíduos e como sociedade. Os elementos decorativos nos lembram de um tempo em que começavam a ser reproduzidos em larga escala e em diferentes partes do mundo.

É muito impressionante o efeito percebido pela riqueza das ornamentações que decoram os ambientes internos e externos das casas. Ao adentrá-las, quase imediatamente somos seduzidos pelo belo tratamento dado aos pisos, tetos e paredes. Especialmente nas áreas sociais, onde usualmente as pessoas se encontravam para uma conversa, era de se esperar que o ambiente recebesse adequado decoro.

São recorrentes os pisos de madeira, geralmente tabuados, parquets ou tacos, e os ladrilhos hidráulicos. As peças de madeira eram aparelhadas pelo uso das máquinas permitindo maior refinamento técnico e formal. O uso de técnicas modernas, que permitiram o refinamento nos detalhes e encaixes, aliadas à criatividade dos artesãos, possibilitou o aparecimento de inúmeros desenhos decorativos, que formavam verdadeiros tapetes em cada ambiente.

Quando adentramos essas casas, somos transportados para outro tempo, em que podemos perceber os modos de viver de uma outra sociedade, bem como suas relações sociais.

Cada elemento construtivo e decorativo contribuí, por um lado, para o entendimento do adequado decoro a ser dado à edificação na época. Por outro lado, cada um desses elementos traz em si uma história que pode ser contada pelas mãos dos homens que os realizaram.

É na existência desses pequenos detalhes que se encerra toda a riqueza do nosso patrimônio cultural.”

Nesta série para o GUAJA, entre os 37 endereços publicados, desta vez destacamos duas casas da Savassi: as de números 21 e 31 do livro (confira a seguir detalhes de cada uma delas). Já falamos aqui sobre pisos guardiões de histórias encontrados nos bairros Lagoinha, Santa Tereza e Floresta.

#21

Casarão localizado à Av. Getúlio Vargas, 851. Foto: Ivan Araújo

“A casa está toda original. Os forros são de madeira, o piso da entrada da garagem e da varanda são de ladrilho hidráulico. Os pisos das salas e dos quartos, de tábua corrida, foram restaurados. Os banheiros foram refeitos com ladrilho hidráulico da mesma época da construção da casa.” Beatriz Maranhão

#31

Casarão localizado à Rua Tomé de Souza, 1418. Foto: Ivan Araújo

Nesta casa da década de 1930, erguida na rua Tomé de Souza, chama atenção o uso decorativo de pedras no embasamento e nos pilares e arcos frontais da edificação. Ela conta também com amplas venezianas de madeira e ladrilhos geométricos. A casa abriga hoje uma escola de língua francesa e centro cultural.

“Eu nasci em 1975 e morei nesta casa dos quatro aos dez anos de idade. Tive uma infância muito feliz aí. Essa casa sempre foi muito especial. Ela era dividida por cinco ou seis famílias. Meu pai morava no andar de cima, meu tio no de baixo… Era muito divertido. Já gravaram até um filme nela: Idolatrada (1983). A casa virou um set, foi um auê! Ela tem uma entrada bonita de casarão, com ladrilho original, e um banco super gostoso de mármore que a gente adorava porque ficava geladinho. Hoje ela abriga a Aliança Francesa e, no ano passado, eu até me matriculei em um curso, de tanto que amo essa casa!” Thembi Rosa

Mais registros e histórias você encontra no livro Casa e Chão, do arquiteto Ivan Araújo (Casas de BH) e das jornalistas Paola Carvalho e Raíssa Pena (Chão que eu piso), vendido no GUAJA (Av. Afonso Pena, 2881, BH) e por meio das redes sociais dos projetos.

Autor
Idealizado pelas jornalistas Paola Carvalho e Raíssa Pena em 2013, o projeto vem catalogando fotos de pisos encontrados em construções históricas de todo canto do mundo. Já são mais de 250 histórias e 12.000 registros de pisos enviados por colaboradores de vários países, como México, Polônia, Vietnã, Marrocos, França, Itália e Estados Unidos. A ideia é não apenas destacar a beleza estética do chão, como também chamar atenção para as histórias que esses pisos testemunharam e o estilo que eles carregam. Se juntou, em 2016, ao projeto Casas de BH para lançar o livro Casa e Chão — Arquitetura e Histórias de Belo Horizonte.

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