De olho no futuro, cena literária de Belo Horizonte está em constante ebulição

 Foto: Unsplash/Annie Spratt

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Minas Gerais é um celeiro da literatura brasileira. A frase, tão repetida nas últimas décadas, tem boa razão de ser. Foram durante caminhadas pelas ruas da capital mineira, com suas árvores frondosas, suas calçadas rachadas e sua brisa de fim de tarde que muitos grandes escritores se formaram.

Alguns deles, como Pedro Nava, Murilo Rubião, Carlos Drummond de Andrade, Roberto Drummond, Fernando Sabino, Henriqueta Lisboa, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino foram homenageados com estátuas e seguem ocupando as ruas da capital. Outros, como Guimarães Rosa (que virou estátua no mês passado) e Oswaldo França Júnior, foram transformados em viadutos e seguem no cenário da capital mineira. E há aqueles, como Cyro dos Anjos, que continuam no imaginário dos leitores de suas obras, e mostram outras versões de Belo Horizonte a quem mergulha em suas palavras.

Com uma história literária tão rica, cheia de verso e prosa que há gerações estão na ponta da língua do mineiro, é fácil perder-se num olhar para o passado. É fácil, mas absolutamente desnecessário. As cenas literárias de Belo Horizonte e de Minas Gerais podem ter passado por altos e baixos ao longo de suas décadas, mas nunca estiveram paralisadas.

Quer prova disso? Comece pelo excelente “Suplemento Literário de Minas Gerais”. Criado em 1966 por Murilo Rubião, ele tem divulgado autores consagrados e escritores de novas gerações há 51 anos. Silviano Santiago, que ganhou o prêmio Jabuti de romance pela terceira vez no mês passado por “Machado”, é uma “cria” da chamada “Geração Suplemento” do jornal literário, assim como Humberto Werneck, Luiz Vilela e Wander Piroli. Ainda na prosa mineira, temos Maria Esther Maciel (“O Livro dos Nomes”), Marcílio França Castro (“Histórias Naturais”), Leo Cunha (“Um Dia, um Rio”) e Tiago de Melo Andrade (“O Mágico do Barro Preto”), para ficar num punhado de nomes.

E há vida literária para além dos consagrados. No começo de 2016, eu lancei a revista literária “Chama”, uma coleção de artigos, entrevistas e contos de autores locais.

Se no campo da prosa a cena literária de Belo Horizonte é rica, pode-se dizer que na poesia ela é incendiária. Para falar dos poetas consagrados, é preciso olhar para o grupo que foi representar o país na XIVª Bienal Internacional dos Poetas — Val-de-Marne/Paris. Selecionados por Lucas Guimaraens, poeta e neto de Alphonsus de Guimaraens, levaram seus versos ao evento francês em meados de novembro os autores Edimilson de Almeida Pereira, Ana Martins Marques, Ana Elisa Ribeiro e Fabrício Marques.  

Para quem acha que a cena poética está em bienais, mas não está nas ruas, permita-me esclarecer que não é o caso. A começar pela coleção Leve um Livro, editada por Ana Elisa Ribeiro, que já publicou mais de 70 poetas, cada um num livreto que é distribuído gratuitamente na capital. Só na temporada deste ano foram publicados nomes como Vera Casanova, Marcelino Freire, Ricardo Aleixo e Léo Cunha.

Ainda sobre a poesia nas ruas, vale falar sobre os slams, uma competição de poesia falada que cresce num ritmo vertiginoso em Minas Gerais. O primeiro, chamado Clube da Luta, foi criado em 2014 por Rogério Coelho. Hoje são mais de 11 slams no Estado e, no mês passado, esses grupos se juntaram para fazer uma final estadual. Foram selecionados para a final Jéssica Rodrigues (Slam das Manas — BH), Laura Conceição (Slam da Ágora — JF) e Wellington Sabino (Slam Ondaka — Uberaba), que, se vencerem a competição nacional, podem ir para a competição mundial, em Paris.

Tudo isso sem falar nas feiras de publicações independentes que reúnem poetas e ficcionistas ao lado de designers e ilustradores em eventos que considero imperdíveis para quem pretende conhecer a produção editorial da cidade.

É de olho nessa cena literária e editorial que eu e a jornalista e escritora Val Prochnow aceitamos o desafio, proposto pelo GUAJA, de fazer um 2018 literário. Ao longo do próximo ano, vamos publicar um conto, poema ou trecho de um autor local por mês aqui na plataforma do GUAJA.

Inclusive, se você for um autor e estiver planejando sua próxima publicação, pode entrar em contato com a gente pelo [email protected]gmail.com.

Porque, se para Carlos Drummond de Andrade, Belo Horizonte hoje é “uma capital como as outras, com as suas noites de junho e os seus sábados de aleluia desprovidos dessa matéria-prima de poesia”, como ele escreveu na crônica “A Música da Cidade”, para os poetas e escritores que projetam seu olhar atento para as esquinas da capital mineira, a cidade e seus personagens seguem firmes como fonte de inspiração para a criação literária. Vamos descobri-la!

Autor
Jornalista, com especialização em Publishing pela NYU e mestranda em Estudos de Linguagens pelo Cefet-MG. Já trabalhei na revista Ragga e nos jornais Estado de Minas e O Tempo, onde fui editora adjunta do caderno de Cultura e atualmente escrevo uma coluna semanal. Apaixonada por literatura, fundei a revista Chama, que publica novos autores belo-horizontinos.

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