Em uma cidade, várias cidadelas

 Foto: Casa e Chão/Ivan Araújo

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Observar o cotidiano da cidade nos leva a uma infinidade de caminhos que nos ajudam a compreender como ela foi construída e vivida por seus moradores ao longo do tempo. As práticas sociais estabelecem vínculos com os lugares de encontro, do trabalho, lazer, moradia e determinam comportamentos materializados nos espaços.

Belo Horizonte, cidade planejada no final do século XIX para abrigar a capital do Estado de Minas Gerais, traz em sua história, desde sua construção, mudanças que transformaram rapidamente sua paisagem. Da ocupação de sua zona urbana, demarcada pela Avenida do Contorno, à ocupação da zona suburbana, com os bairros pericentrais, já na primeira metade do século XX,observamos estilos arquitetônicos que se sobrepõem.

As residências ecléticas, construídas no alinhamento dos terrenos, no bairro dos Funcionários, marcam a relação direta da vida privada com o espaço público. Introduzem elementos que dão o tom da “modernidade” da nova cidade também no espaço privado como os ladrilhos decorados nas varandas, cozinha e banheiro (veja abaixo).

O art déco, introduzido a partir dos anos 1930, mantém a lógica de ocupação dos terrenos e disposição interna das residências, mas promove uma releitura das fachadas com elementos decorativos geométricos e substitui a pintura pelo pó-de-pedra. No interior dos imóveis os pisos em tábua são substituídos pelo parquet.

O estilo moderno marca as construções residenciais da capital depois da inauguração do Conjunto da Pampulha, em 1943. Uma nova relação entre a casa e a rua se estabelece com a introdução de jardins frontais, que promovem a transição entre o espaço público e a vida privada. Internamente as casas ganham uma nova distribuição dos espaços, e uma profusão de novos materiais de revestimento promovem outras formas de vivência.

Em sua trajetória, a cidade vive transformações intensas que nos colocam diante de infinitas possibilidades de leitura de sua história. Como espaço de convivência, encontros, desencontros e tensões, são as permanências e mudanças que vão transformar esse material cultural em patrimônio cultural.

Belo Horizonte tem como valor não uma paisagem homogênea, referenciada em um tempo, mas ruas, praças, casas e edifícios, que expressam vivências diversas presentes na heterogeneidade de seus lugares. Preservar seus produtos culturais por meio da materialidade e subjetividade proporciona novos caminhos para compreender seu patrimônio cultural e sua história.

Nesta série sobre o livro Casa e Chão – Arquitetura e Histórias de Belo Horizonte, especial para o GUAJA, destacamos acima o texto de Michele Arroyo, presidente do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Ferais (Iepha-MG) e, a seguir, três casas e ladrilhos do bairro Funcionários: as de números 17, 18 e 32 da edição. Já falamos aqui sobre pisos guardiões de histórias encontrados nos bairros Savassi, Lagoinha, Santa Tereza e Floresta.

#17  Rua Rio Grande do Norte, 1940

#18 Rua Aimorés, 1935 

Autor
Idealizado pelas jornalistas Paola Carvalho e Raíssa Pena em 2013, o projeto vem catalogando fotos de pisos encontrados em construções históricas de todo canto do mundo. Já são mais de 250 histórias e 12.000 registros de pisos enviados por colaboradores de vários países, como México, Polônia, Vietnã, Marrocos, França, Itália e Estados Unidos. A ideia é não apenas destacar a beleza estética do chão, como também chamar atenção para as histórias que esses pisos testemunharam e o estilo que eles carregam. Se juntou, em 2016, ao projeto Casas de BH para lançar o livro Casa e Chão — Arquitetura e Histórias de Belo Horizonte.

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