Cidades inteligentes?

 Copan 50 anos — colagem de Guilherme Figueiredo

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De um lado, a cidade parece um outdoor de ofertas de produtos imobiliários encalhados. De outro lado, um contingente de pessoas insatisfeitas, que não se veem naqueles espaços que reproduzem as lógicas de vida de seus pais e avós. A produção imobiliária está em crise.

Reinventar-se ou desaparecer. Esse dilema, que tem afetado contemporaneamente todos os meios de produção convencionais, é também uma urgência para quem atua na produção imobiliária das cidades brasileiras.

Queremos dar o primeiro passo na direção dessas mudanças: saiba como na página do primeiro curso autoral do GUAJA de 2018: Building the Future.

Todos os meios de produção baseados em uma lógica de progresso e crescimento econômico que partem de uma estratégia evolutiva tendem a desaparecer. A transformação dos contextos sociais, econômicos e culturais se acelera. Empresas sólidas desaparecem rapidamente pela obsolescência acelerada de seus produtos e processos. O sistema produtivo do mercado imobiliário e seus produtos padronizados já não respondem às demandas contemporâneas para habitar e trabalhar nas cidades. Ao mesmo tempo, empresas cuja estratégia se baseia em lógicas revolucionárias, que partem do desenvolvimento de novas ideias e não do aprimoramento de ideias antigas, são as que têm sucesso hoje.

O computador pessoal destruiu a Olivetti, que um dia foi a mais importante fabricante de máquinas de escrever, hoje produtos de museu. O Airbnb introduziu uma lógica de locação que compete com hotéis e empresas imobiliárias. A Uber concentra riquezas extraídas dos sistemas locais regulamentados de transporte. Profissões, negócios e produtos desaparecem com uma rapidez nunca vista. O apartamento tipo que o mercado insiste em continuar produzindo é a máquina de escrever do Século XXI.

Outro pilar que alimentava a produção imobiliária era o crescimento demográfico. As cidades brasileiras se urbanizaram rapidamente na segunda metade do século XX trazendo enormes contingentes populacionais do campo que produziram demandas gigantescas para a construção de edifícios, equipamentos e espaços públicos.

Essa transformação já se esgotou. Quase 90% da população vive hoje nas cidades. O estoque imobiliário disponível já é equivalente ao déficit de habitações. Não há mais demandas quantitativas. Mesmo em um improvável cenário de retomada do desenvolvimento econômico, já não haverá demanda como em outros tempos. Sobreviverá quem se reinventar primeiro.

Quais as novas lógicas de produção, ocupação e uso de espaços num mundo hiperconectado? Quais as novas dinâmicas de trabalho no mundo hoje? Que espaços elas demandam? O que as pessoas desejam e não encontram? É possível outros modos de vida na cidade? Como requalificar estruturas existentes obsoletas? Como potencializar e usufruir da vida urbana? Como ampliar a vida útil das estruturas projetadas? Como gerir espaços em um mundo baseado na lógica de compartilhamento? Como reinventar a produção imobiliária neste novo contexto?

Essas são perguntas urgentes, cujas respostas estão por ser construídas. Dessas respostas talvez surjam novos modos de gestão e produção imobiliária, novos mercados e novas possibilidades para quem (re)desenhará e viverá nas cidades nas próximas décadas.

Autor
Arquiteto, mestre e doutor pela EAUFMG, onde sou professor de projeto, e sócio-fundador do escritório arquitetosassociados

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