O que seria do mundo sem as coisas que não existem?

 Foto: Reprodução Frestas — Trienal das Artes, 2015

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Frestas — Trienal das Artes é um projeto transdisciplinar com foco nas artes visuais que busca contribuir para a formação de público em arte contemporânea em Sorocaba. O projeto de sua primeira edição, em 2015, propôs uma reflexão a partir da interrogação “O que seria do mundo sem as coisas que não existem?” e permeia este texto.

o inexistente insiste

Slavoj Žižek, filósofo, psicanalista e crítico cultural, pensa o inexistente como insistência, não como oposto de existência. Para ele, “o que não existe continua a insistir, lutando para passar a existir”. O inexistente persiste. André Comte–Sponville, filósofo materialista e professor da Paris 1, diz que “há apenas o ser, e a insistência do ser”. O inexistente é potência, insistência e alternativa.

Em ‘História do Vazio em Belo Horizonte’, o arquiteto e urbanista Carlos M. Teixeira, fundador do escritório Vazio S/A, propõe eleger o vazio ao invés do cheio, a mobilidade ao invés da fixidez, e discorre sobre formas de enxergar o vazio arquitetônico com otimismo, uma reserva de possibilidades.

As palafitas, tão presentes na paisagem das regiões de relevo acentuado, como é o caso do bairro Buritis, são espaços que descendem e habitam a mesma arquitetura da qual são excluídos. Estruturas remanescentes e vazios sensíveis. Alí, o inacabado se impõe, a ordem é incompleta e mutável. Como colocaria a arquiteta e urbanista Paola J. Berenstein , autora do livro Estética da Ginga, um movimento em potencial em direção a algo como a incerteza de futuro, e a sugestão de inúmeras possibilidades de prolongamento. O inacabado incita à exploração, à descoberta.

“Existe a beleza dos prédios vazios, da periferia sem forma, dos campos de futebol espremidos no meio de uma favela, dos pátios descobertos das mesquitas do Cairo, e de tudo que neles pode acontecer. Mas existe também a beleza intrínseca à vontade de transformá-los, ainda que uma construção sobre eles seja precedida pela destruição da liberdade: por um desígnio (pelo design, pelo projeto) que fatalmente fará desaparecer aquela liberdade da ausência — o que, por sua vez, pode trazer uma reação contra as limitações impostas por esse desígnio”, descreveu Carlos Teixeira, integrante hoje do projeto Outros Territórios.

Na arquitetura, a finitude da forma já é pré-definida e fixa nos projetos. O projetar implica, na maioria dos casos, um planejamento, uma racionalização, em outros termos, uma repetição do mesmo. Isso não acontece nos espaços inacabados, abertos ao acaso, que seguem uma lógica fragmentária ou rizomática — cresce onde não se espera e instaura a surpresa.

O que pretende o projeto Outros Territórios é, por meio de um concurso, justamente expandir o debate sobre vazios urbano, e trazer para a vida da cidade uma gama de espaços esquecidos, ignorados e inusitados. Um campo de estudo aberto para possibilidades latentes que despertem sensibilidades na cidade.

desler o mundo

O prefixo ‘des’ geralmente inverte o sentido de uma palavra, de forma que associá-lo a uma expressão diz respeito à uma ação de desconstrução. A ideia de ‘desleitura’, conceito criado pelo escritor Harold Bloom, professor e crítico literário, segue o mesmo caminho, embora saibamos que é impossível desleralgo que foi lido. O que quer sugerir é a uma desconstrução da leitura comum, promovendo uma leitura criativa e descompromissada com as formas convencionais de representação. O desleitor tem um olhar inventivo e emancipado, capaz de produzir uma imagem que não é dada apenas por aquilo que olhamos, mas que inclui a imaginação, a inventividade e a interpretação subjetiva, que funda novos territórios e novos sentidos livres dos conceitos de certo ou errado por já não se pautarem mais em algo pré-concebido.

Também de acordo com a ideia, Friedrich Nietzche, filósofo alemão, acredita que a verdade pode ser inventada, já que é sempre uma interpretação. Interpretar é inventar e inventar é uma atividade poética.

Reprodução Frestas — Trienal das Artes, 2015

arquiteturas indiferentes aos arquitetos

Viver a cidade exige conviver, constantemente, com a tensão entre as individualidades e coletivos, semelhanças e diferenças, subjetividades e objetividades. Nas perspectivas teleológicas clássicas, o mundo da utopia se constrói a partir da ideia de harmonia e eliminação das contradições entre os seres, não reconhecendo o conflito como um elemento inerente à realidade humana. No entanto, toda estrutura social é dominada por movimentos que tendem a conservar as práticas e instituições existentes, e outros que constroem novas formas de viver e de se relacionar com as instituições. A vida social é alimentada pela tensão entre eles de forma continuada e cotidiana.

A arquitetura, não indiferente à essa tensão, subsiste como uma profissão refém de arcaicas tipologias disciplinares, clientes conservadores, interesses e utopias privadas. Como ainda diria Lou ou Wellington Cançado, arquiteto urbanista e editor da revista Piseagrama, sobre o mundo que herdamos em Espaços Colaterais — uma monocultura desoladora de plantas e paisagens repetidas por toda cidade, produtos de um mercado em crise, ofertas imobiliárias já encalhadas, e que pateticamente não aprendemos a habitar.

Ao mesmo tempo, cotidianamente emergem, por meio de novos imaginários políticos, muitas outras arquiteturas possíveis. Em dimensões menores, mas escalas perfeitamente humanas. São ensaios não solicitados, redesenhos invisíveis aos olhos, e práticas colaterais que problematizam a conflituosa geografia contemporânea.

arquitetura fora da arquitetura

Peter Pal Pelbart, filósofo conhecido por seus ensaios sobre a biopolítica na contemporaneidade, apresentou no Sesc Palladium, em setembro deste ano, ‘Das errâncias’ — uma fala sobre O Livro por Vir, de Maurice Blanchot (1907–2003), ensaísta francês e crítico de literatura:

Uma conhecida interpretação sobre a criação do mundo, proveniente da tradição cabalística, retomada por pensadores do séc. XVI, e intervinda por Maurice Blanchot, reza o seguinte: para que o Mundo pudesse vir à existência, o Ser infinito precisou abrir espaço, por um movimento de recuo e retração. Assim, o problema essencial da criação não consistiria em saber como algo foi criado a partir do nada, mas como o nada foi escavado, a fim de que a partir dele houvesse lugar para alguma coisa. Como diz Blanchot, o desafio divino estaria em apagar-se, em ausentar-se, no limite em desaparecer, como se a criação do mundo implicasse na evacuação de Deus.

O mesmo, Blanchot diz respeito ao autor: é preciso que ele se retire, enquanto sujeito, é preciso que ele desapareça enquanto eu, para que advenha a literatura própria e pura. Tal retraimento do eu, do sujeito, de Deus, ou do próprio pensamento, tal apagamento, tal desaparecimento, tal abandono não é, portanto, omissão, nem derrota, mas puro dom.

Ciente de que o(a) (des)leitor(a), ao longo do texto, já tenha se proposto muitos saltos, sobre a mencionada retração criadora, eu gostaria de propor outros: Outros Territórios, uma chamada de ideias para intervenções urbanas nas palafitas do bairro Buritis, um convite à exploração do vazio e inacabado, e principalmente um estímulo à desleitura para os olhos ainda domesticados pela leitura comum — porque é o movimento constante que faz o fim parecer indeterminado.

“A errância, o fato de estarmos a caminho sem poder jamais nos deter, transformam o finito em infinito.” Peter Pal Pelbart, filósofo e ensaísta húngaro residente no Brasil.

Autor
"I am a lot sillier than I look. I’m unable to keep my mouth shut and so, as a result, am the content editor of GUAJA." (Meredith Talusan, editor senior da 'them') – Sou Arquiteta e Urbanista pela UFMG com formação complementada no Politécnico de Milão, gerente de conteúdo do GUAJA, e apaixonada por pessoas verdadeiramente obcecadas e constantemente curiosas pelo que fazem.

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