Hanna Litwinski: comer, escrever e criticar

 Foto: Keila Hotzel / Unsplash

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Nunca gostei de Curriculum Vitae, aliás acho difícil alguma coisa em latim conseguir ser atraente e não cheirar à naftalina. Tenho vistos alguns CV’s interessantes, descoladinhos e isso me enche de esperança. Boto fé que os tempos da dinâmica de grupo em que você era convocado a citar um defeito seu e que se logo se ouvia, de forma uníssona a resposta “bem… eu sou muito perfeccionista” tenham ficado definitivamente para trás.

Resolvi então me apresentar em forma de bula, sim bula de remédio, porque acredito que não existe nada mais honesto e didático no mundo. Se você é do tipo compulsivo afetivo apegado não venha colocar suas fantasias na minha conta, ok? Tô fazendo a isentona total, não prometo ligar no dia seguinte e deixo pro pequeno príncipe a responsabilidade de cativar.

1. Identificação

Hanna Catarina Michaelis de Menezes Litwinski — sim, sofri pra aprender a escrever. Sim, não cabe em nenhum formulário. Sim, minha vida piorou bastante depois do advento Montana. Meu pai que era velhaco disse que Hanna foi uma homenagem à filósofa Arent; minha mãe jogou por terra a ode e disse que foi retirado da lista de vítimas de um acidente aéreo da época. Sou assim, poesia e tragédia.

2. Composição

A principal substância ativa é o gosto pelas palavras. São elas e seus significantes mágicos que vão costurando a minha historinha confusa. Uma sentimental crônica, patética e embevecida por toda a poesia que cabe no mundo.

2.1 Para quem é indicado?

Para pessoas que aprenderam que se levar tão a sério não leva a nada. Para aqueles que descobriram que rir de si mesmo é libertador e que passaram a temperar suas vidas com generosas doses de humor

2.2 Como funciona?

Com tesão e sem disciplina. Com devaneios extensos e por vezes cansativos. Recomenda-se uma boa dose de paciência de Jó de uso complementar, a fim de prevenir reações enfadonhas.

2.3 Quando não devo usar?

Quando a alma for pequena.

2.4 O que devo saber antes de usar?

Que você está por sua conta e risco. Que por vezes vai amar e por outras odiar. Que muitas vezes vai achar rude e grosseiro, mas se der uma segunda chance vai ver que é absolutamente verdadeiro e que sim, pode existir beleza nas dores da vida se elas forem pintadas com as cores do humor.

3. Como devo usar

Use ao seu bel-prazer. Use em doses absurdas porque a essência aqui é do exagero. A overdose é recomendada porque de moderação já estamos fartos.

4. O que devo fazer se esquecer de usar

Solte uma gargalhada frouxa recheada de ironia ou conte uma piada sacana; serve como paliativo. Comer um sonho de padaria no meio da tarde também demonstrou eficácia.

5. Quais os males que pode causar

Aí é treta. Não vou mentir. Ao começar a usar desaparecerá instantaneamente a síndrome de Pollyana (essa é a melhor grafia) moça. As coisas mudarão de forma, a princípio pode parecer uma viagem de LSD, mas aí você percebe que o mundo é o mesmo – aquele seu velho conhecido de sempre — só que sem o filtro do Instagram. Você vai achar horrível até conseguir notar que pode ser interessante e por fim até se divertir com isso. Aí não tem mais volta.

5.1 Reação rara

Coprolalia. Em grau leve é aceitável. Se isso se tornar sindrômico procure ajuda. Prezamos pela boa educação e adoramos parecer ser socialmente ajustados.

6. Contra-indicações severas e interações com outras drogas

É absolutamente desaconselhável fazer uso se você é uma pessoa recalcada e que gosta de botar o dedinho no nariz alheio. Além de não ter eficácia vai agravar o seu quadro. Não é todo mundo que se adapta a doses elevadas de ironia e a um sarcasmo sacudido. Se você curte reunião de condomínio, gosta de ser reconhecido pela presteza mesma quando não é chamado, tem caráter ilibado e caga regras a outrem, toma conta da vida dos coleguinhas por intenções puramente altruístas, fala “TOP” com frequência, acha que existem pessoas que são mais adequadas porque fizeram escolhas certas de orientação sexual, inclinação religiosa e política, pertencimento social e o escambau a quatro; PERIGO, vai dar pau! Passe muito longe daqui.

7. Considerações finais

Sou um pouquinho de tudo e nada me define, ou me aquieta. Não consegui fazer uma tatuagem até hoje por culpa disso. Sou uma masturbação perpétua. Bebo (muito) de muitas fontes e rezo pra Freud. Sou psicóloga por formação e estou na tentativa árdua de construir uma escritora. Acho o termo tão solene que não sei se darei conta. Tenho a péssima mania de ficar paralisada quando acho que é muita areia pra minha carretinha modesta. Também trago o infortúnio de mirar nos fodas, nos gênios que habitam meu imaginário, aí me ferro; dá uma vergonha danada dos meus escritinhos prosaicos.

Então eu fiz quarenta anos. E veio uma liberdade da porra! Um troço que não sabia que poderia existir. Eu não sou ligada a simbologias e acredito em muito pouca coisa. Mas esse negócio de fazer quarenta me pegou de calça curta. E foi tão tsunami que estou tendo que dosar essa energia toda pra não ser engolida por ela, ou pior, massacrar os que estão a minha volta. Liberdade pode ser extremamente opressora se a gente não toma cuidado.

Tenho medo de quem carrega certezas e corro léguas de conversinhas menino/empregada/findi no clube. Sou feminista por necessidade, mas na busca infrutífera do falo perdido. Mãe de dois homens, mulher de um homem pra lá de complexo e inteligente, eu sou uma sobrevivente.

Sou generosa e leal. O sarcasmo é minha força motriz. Meu pai que saiu à francesa há dez anos e de quem eu tenho saudades diárias me chamava de pilantra e eu gosto dessa palavra. Pra mim não está relacionado à malandragem, ao jeito Gerson de ser; ao qual nutro profundo desprezo. Pilantra é aquele que tem curso de zona, que sabe que a vida é injusta e muitas vezes nada bonita. Mas aprendeu a lidar com as adversidades e pular os obstáculos com ginga porque se a gente aprende a rir das nossas desgraças, conservadorismos e hipocrisias costumeiros, a vida fica com sabor de jabuticaba colhida no pé.

Muito prazer, faço bom uso!

Autor
Sou a rapa do tacho de uma família mineira de cinco filhos. Apareci por descuido e cresci despercebida, num universo de adultos. Aprendi quase tudo através da observação e da imitação. Este relativo descampado social me brindou com uma vastidão no campo da imaginação. Passei a habitar o mundo das palavras e por isso fui uma criança com vocabulário e repertório incomuns. A inadaptação fez surgir uma habilidade que me permitiu criar pontes e afetar as pessoas através da minha escrita. Quando me dei conta disso me senti segura. A escrita, para além da necessidade, passou a ser o meu modo de existência.

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  1. Adorei. Estou aqui pensando após o deleite do texto, com quem será que está pequena aprendeu escrever sssim tão gostoso e diferente? A resposta veio límpida, com o “Popas”, nosso pai querido. De fato e de costume “quem sai aos seus, não degenera”. Para quem não entende, significa que os filhos, de uma forma ou de outra, vão buscar aquilo que os pais são e torna-se assim na sua “réplica”. Uma herança, ou coisa do tipo: escritora que tem nas veias o real sentido literário, com uma linguagem elaborada que causa emoções no leitor.
    Parabéns mana! Você me deixa cheia de orgulho. Continue👏👏 Estou aqui no gargarejo 💋

  2. Legal. Gostei mesmo dos males e respectivos efeitos que podem causar. Torço para que consiga estimular ao máximo as percepções dos leitores. Sucesso!

  3. Te “conheci” no Facebook, com uma crônica deliciosa, e este é mais um escelente texto seu. Animada para ver os outros, e com sua parceria com o Guaja!

  4. Hanna sua pilantra querida que delicia de leitura, meus olhos estão cheios de admiração e lágrimas, pois seu texto me tocou, como você cheio de vida, marcante simples assim!!!
    Amei muito boa estreia e aguardo ansiosa os próximos.

    1. Com relação à criatividade eu confesso um delito: quando estavam lá em cima distribuindo eu peguei meu kit e passei na fila novamente.
      Obrigada pelo carinho Renata!
      Beijos.

  5. Minha irmã de sangue, minha irmã de alma; mas minha ninica.
    Esmiuçando tua bula , eu quase um sexagenário, acreditando em minha sapiência (pobre mortal), surpreendido como acredito também o ti milar; deparo com “ escutar ser uma arte, falar uma necessidade “ e o seu escrever uma enorme surpresa. Parabéns, as palavras nunca serão esquecidas. Prepara-te para ser imortal .
    Um 👊 é um 🚚 de 😘

    1. Meu amor por você que é imortal!
      Resiste a tempestades, raios e vulcões em erupção.
      Nem mesmo as facas Ginsu são capazes de corta-lo!
      Obrigada gordo.

  6. Hanna, você só poderia se apresentar como bula de remédio mesmo. Nos dias de hoje que as pessoas têm tanta preguiça de ler, seus textos são um convite para sair deslizando pelas palavras sem perceber. Como é gostoso ler suas crônicas . Melhor remédio não poderia ter.

  7. Sou realmente privelegiada por estar sempre pertinho …assistindo o acontecimento de tudo isso de perto! #Eissoninguémmetira!!!☝️#Tudo tem o porque de ser!! Esse brilho novo nos teus olhos agora sim foi justificado!!Adorei!!!Muito gostoso de ler!!!

    1. Minha querida fiel escudeira, só vi seu comentário hoje. Além do brilho nos olhos tem brilho no coração agora. Obrigada por tudo, por todo o afeto que me dá, diariamente.❤️🙏

  8. Hanna, que texto mais gostoso de se ler!! Sua escrita leve e ao mesmo tempo intensa, que prende o leitor do início ao fim, é a força motriz que nos leva a querer ler mais e mais cada palavra e frase suas. É o simples reflexo da talentosa habilidosa (e real) que você é! Parabéns e continue nos presenteando com seu talento!!

  9. Minha querida fiel escudeira, só vi seu comentário hoje. Além do brilho nos olhos tem brilho no coração agora. Obrigada por tudo, por todo o afeto que me dá, diariamente.❤️🙏

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