Comermorar: uma residência em processo

 Foto: Dani Kohn/A Cozinha Nômade

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Este texto é um manifesto, fruto de uma pesquisa ancorada em diferentes práticas transdisciplinares costuradas por várias linguagens, através da poética e da culinária, sobre o modo de ser e observar o mundo.

Foto: Dani Kohn/A Cozinha Nômade

Muitas são as formas de existir compartilhadas por artistas, filósofos da saúde e andarilhos, alimentadas pelo desejo e que inspiraram este documento livre no qual fui movida a criar, a partir de dois anos vivendo mergulhada na rotina nômade com o “Comermorar”.

O motivo principal que me atraiu (e continua atraindo) a escrever é o propósito de me fazer compreender e esclarecer detalhes de um modo de viver coletivo junto com os colaboradores desta experiência. O Comermorar é um projeto de residência temporário e a proposta é ocupar as cozinhas com a fermentação selvagem em troca de moradia.

O lugar funciona como um ativador/propositor de dinâmicas construídas durante a residência, definidas a partir da capacidade elástica das relações sociais, desenhadas na micropolítica do afeto, da visão de mundo ampliada e das práticas desconstrutivas e construtivas nesta ética.

Novas maneiras de ocupar uma casa, morar, residir, habitar, existir, de refletir, de cuidar e ser cuidado simultaneamente e trocar saberes.

Uma casa torna-se esse campo vasto de pesquisa e prática. Pensamento e despensamento.

As multi vozes; o silêncio. Os acordos feitos e refeitos a partir das intenções que surgirão.

Tudo que pode ser atualizado neste processo. O diálogo é a ferramenta essencial para viabilizar o Comermorar.

Comermorar/Instituito Undió. Foto: Instagram

As experiências culinárias criam uma rotina, que tem a ver com modos de pensar o alimento, a saúde, a ecologia, os ecossistemas, os ciclos da natureza, entre eles: plantar o próprio alimento, refletir sobre o que é lixo e o que é excesso, a compostagem, a pesquisa e a descoberta de métodos de alimentação que incluem a relação direta com produtores agrícolas locais e outros fazedores dentro da prática do comércio justo, a reutilização e o reaproveitamento integral do alimento, a fermentação para uma alimentação que estimula o bem estar físico e mental e que instaura uma conversa sobre as bactérias, sobre os probióticos, sobre os ciclos da natureza e sobre a reconexão do corpo com o todo.

O que são esses Probióticos?

Mergulhar no micro universo dos micróbios. Cuidar para ser cuidado. Seres simbióticos que sabem como viver em coexistência e harmonia.

Valorizar a fermentação, o redescobrimento das culturas ancestrais e outras formas de comer e pensar sobre o alimento. Cultivar bactérias através da lactofermentação. Multiplicá-las. Proliferar essas vidas que habitam no ar, no alimento, na pele e em nossos intestinos.

O campo se amplia para a cozinha. O alcance se espalha para a população em outras escalas.

O Comermorar ativa um local para ativar outros locais. A possibilidade para surgimento de um sistema novo. Este é um projeto que surge com a potência do nomadismo.

Discutir territórios, des-territorializar propriedades e re-territorializar espaços.

A propriedade privada, a privacidade e os limites delineados nos encontros, nas conversas e principalmente a escuta que se afina com o tempo ao longo do processo durante o comer e o morar.

Quem mora? onde? Como? De que modo somos habitados? De que modo vivemos? Onde é possível reconciliar com a natureza? Existir em harmonia com o corpo e com o todo?

Respirar.

Encontrar novos formatos de ativismo, através da alimentação e da reconexão com métodos milenares de preservação do alimento.

Fortalecer a rede entre a agricultura e a sociedade, criar dinâmicas, divulgar a fermentação como um modo de estar e ser filosófico.

Alinhar práticas coletivas e individuais ao campo da sustentabilidade e da ética.

Aprender a amar as micro-formas de vida invisíveis a olho nu, nomeadas de bactérias/microorganismos/culturas vivas/leveduras/probióticos e sentir empatia com o outro. Agir na liberdade de cuidar do próprio corpo e de um corpo global.

A ocupação também aborda a criação poética, estética, gastronômica, política, social e relacional do processo.

O cuidado é tido como base, estabelecendo um olhar atencioso com o outro, além de refletir o vínculo entre o espaço, o diálogo e os acontecimentos que serão construídos durante o projeto.

A cozinha é e será uma plataforma de encontros e criação.

Por fim, este é um documento em processo de construção de escrita.

Uma proposta para fazer do alimento um campo de expansão da consciência e bem estar. Para Comemorar a vida!

Durante o ano de 2016 e 2017 o projeto aconteceu no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Nova York. Um diário foi produzido com notas sobre as experiências e será publicado em breve.

Autor
Sou artista visual, vivo em Belo Horizonte e trabalho com fermentação selvagem. Por meio da Cozinha Nômade, interface criada para se deslocar pelos lugares, pesquiso e construo um trabalho em diálogo com a microbiologia, a filosofia, as medicinas e o cuidado com os seres vivos, desenvolvendo dinâmicas para criar pontes entre a arte, a poesia, a micro-agricultura, as economias colaborativas, as experiências culinárias e a reconexão com a natureza através do alimento.

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