Como a falta de amor é um projeto político

 Do livro de Chico Felitt, “Ricardo e Vânia”, que conta a história privada do personagem apelidado como “Fofão da Augusta” e seu relacionamento amoroso com Vânia.

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bell hooks escreveu quatro livros sobre o tópico do amor.

Para ela, discutir sobre amor é menos uma “cafonice” restrita aos livros de autoajuda, e mais uma urgência política para os dias de hoje. Seu grande argumento é que a capacidade de amar é desigualmente distribuída e politicamente incentivada/desincentivada, por atravessamentos de gênero, raça, classe, orientação sexual.

Para ilustrar a dimensão política do amor [ou da sua falta], hooks nos conta sobre a vez que entrevistou a rapper Lil’ Kim:

“Enquanto ela falava articuladamente sobre a falta de amor na sua vida, o tópico que mais chamava a sua atenção era ganhar dinheiro. Eu saí da nossa conversa admirada pela realidade em que uma jovem rapper negra, de um lar disfuncional, com ensino médio incompleto, pode lutar contra todos os tipos de barreiras, acumular riqueza material e, ainda assim, estar sem esperança de que ela poderia superar as barreras que a impediam de saber como dar e receber amor. […] Quem se importa se ela conhecer o amor?”.

***

O oposto ou a alternativa ao amor é o poder.

“Nesse planeta, ninguém realmente tem a oportunidade de conhecer o amor já que é o poder e não o amor a ordem do dia. O privilégio do poder está no coração do pensamento patriarcal. Garotas e garotos, mulheres e homens que foram ensinados a pensar dessa forma quase sempre acreditam que o amor não é importante, ou se é, não é tão importante quanto ser poderoso, dominante, estar em controle, no topo — quanto estar certo. […] Tristemente, o amor não prevalece em qualquer situação em que um parte, seja masculina ou feminina [e principalmente masculina], quer manter controle”.

A última sugestão de Foucault, na carta “uma introdução a uma vida não fascista”: não se apaixone pelo poder.

O poder é material, concreto, organizador de nossas vidas. Ele nos dispõe e dispomos dele. Não há como negar a sua importância, especialmente quando ele se apresenta para nós como uma possibilidade de vida.

No entanto, ele é insuficiente.

Há algo em nós — uma falha — que o desejo pelo poder não resolve, não supre.

***

Diferentemente do que se prega nos discursos neoliberais da autoajuda, o amor não vem “de dentro”. Ele não consegue ser cultivado somente pelo autocuidado e autossuficiência. “O duro indivíduo que confia em ninguém é uma figura que só pode existir em uma cultura de dominação”, escreve hooks.

Precisamos do outro.

Muitos passam, inclusive, uma vida inteira buscando controle e autossuficiência, para descobrir que não é isso. Até o mais narcisístico, o mais sedento por autoridade e poder, precisa de um outro para mostrar o que se tem, para exercer o poder que domina.

Essa é, inclusive, a “falha” do todo-poderoso: ele ainda precisa de alguém. sem alguém, todo seu poder perde o sentido.

O poder, no entanto, não está interessado nessa falha. Ele nos diz: isso não é importante, guarde isso em algum lugar e não olhe muito.

***

A falha é o que nos impele pro outro e para nós mesmos.

O poder, constantemente, maquia essa falha. Faz a gente pensar que ela não existe. O recalque da falha vira sofrimento, estresse, raiva, trabalho excessivo, fuga, sintomas.

O poder nos convence a ignorar a falha, criando respostas inimagináveis e inalcançáveis para a pergunta: o que falta?

O amor [e o amor pelo outro e do outro para nós mesmos] nos permite sermos menos urgentes e grandiosos: nos faz olhar para a falta, reconhecendo, sem pressa, que ela é falha [e essa vulnerabilidade é a beleza e o mistério de tudo].

O poder nega o papel do outro, enquanto sempre recorre a ele, já que ele depende do outro para exercer sua função.

O amor é o reconhecimento da fraqueza humana inicial: eu dependo do outro e sou dependido por ele.

O poder estabelece que devemos ser, a todo custo, autênticos. o “eu” se torna uma necessidade do ser e do ter [uma necessidade muitas vezes prazerosa] .

O poder, inclusive, nos enebria com os mais diferentes prazeres para que não olhemos para o desconforto: a nossa falha.

O amor, por sua vez, nos permite alguma sinceridade ao não se importar em sermos falhos. somos falhos e em construção; somos, podemos e devemos ser corrigidos e desfeitos pelo outro.

Se conhecer não é se dominar, mas se desconhecer. É se tornar estranho a si mesmo, ao mesmo tempo que se constrói não sozinho, mas junto com os outros.

O poder diz para focarmos no prazer de dominar.

O amor nos obriga a olhar para o rosto de quem dominamos e nos vermos implicados ali, naquela vida.

***

Todas essas possibilidades do amor são negadas politicamente. Enquanto alguns grupos são ensinados a se apaixonarem pelo poder, que lhes é dado como natural, outros são ensinados a naturalizar a falta de amor.

Estamos no terreno da política e do amor [ou falta dele] quando analisamos a forma como a socialização masculina cria homens frágeis, apaixonados pelo poder, com desejos megalomaníacos. Ou quando se aponta a solidão afetiva vivida por mulheres negras, recusadas por parceiros brancos e negros. Ou quando nos surpreendemos ao assistir às pessoas em condições das mais precárias, tão distantes de nós no jogo do poder, viverem as mais criativas formas de alegria, resistência e afeto.

Por isso, perguntarmos onde está a paixão pelo poder e a recusa ou falta de amor em nossas vidas não é um mero discurso de autoajuda, ou um instrumento individualista. É uma necessidade de cura e de crítica e, frequentemente, uma forma política de olharmos para o modo como somos diferencialmente distribuídos, tratados, ensinados a viver.

Quando mais cedo aprendermos, melhor: o reconhecimento de que somos falhos, incompletos, não deve ser paralisia. É a chance que temos de abraçarmos a beleza de nossas falhas, e a oportunidade de, juntos e quebrados, sermos algo maior que nossas ilusões de grandeza.

Como Alice Walker escreve: eu guardarei as coisas quebradas.

Autor
Doutorando e Mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais. Jornalista desertor, hoje pesquisa ética e crítica na mídia e na vida cotidiana. Tio do Faísca e da Sushi.

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