Como nossos pais

 Foto: Reprodução

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O último filho a sair de casa que acenda a luz da memória. O ninho vazio, então, se preencherá de porta-retratos e almoços aos domingos. Ao nos tornarmos adultos, nossos pais envelhecem. A matemática do tempo é óbvia, eu sei, mas não me preparou para assistir tão de perto aos meus velhos fraquejarem.
Com o passar do calendário, chega a inversão de papéis. Pesa. Pesa cuidar do outro que te cuidou. Não por falta de gratidão, mas por falta de tato. Pesa saber que realmente fenecemos.
Contemplar o envelhecimento dos pais é colocar o tempo no espelho.
Morei na mesma casa por 25 anos. Meus pais moram lá até hoje desde quando se casaram há 41. A casa cresceu junto com a família. Três filhos. Três quartos vazios hoje. Três espaços repletos de passado. Os bichinhos de pelúcia que não tive coragem de me desfazer são os mesmos que não tive vontade de levar comigo.
Às vezes, a memória tem endereço e, para mim, é a casa dos meus pais.
Às vezes, a memória tem o mesmo rosto. Meus pais não. Estão aqui, presentes e mutantes nessa obviedade do tempo. No entanto, eles estão lá, fincados no mesmo lugar em mim. Ser raiz de outra vida tem mesmo seu estado de permanência.
Na terra fértil do amor, o tempo não passa.
Para eles, os três quartos não estão vazios. Estão a postos. Assim como a TV estará sempre ligada, o bolo estará sempre no forno e a cama estará sempre pronta. Peço licença ao tempo, mas pai e mãe podem sim dizer sempre.
Filhos são sempre filhos. E eu só aprendi isso agora.
Ao retornar para aquela casa que faz parte do que sou hoje, retomo meu status de filha caçula. E mesmo em uma inversão de papéis tão próxima a acontecer, percebo como eles cuidarão de mim mesmo no processo contrário. Preparo-me para entender que, ao lidar com o envelhecimento dos meus, também me torno raiz. Semear, florescer e recomeçar.  A natureza sempre ganha de nós porque só ela tem a sabedoria de ser o próprio tempo.
Envelhecer é a consciência do fim tornando-se visível. Sabemos. O erro, quem sabe, é limitar-se ao fim. O último filho a sair, pudera, é quem inaugura a eternidade da família em nós.
Na parede da memória, essa lembrança é o quadro que dói mais/
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos/
Ainda somos os mesmos e vivemos/
Ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais.
Afinal, só mesmo pai e mãe podem dizer sempre.
Autor
As histórias me escorrem pelos dedos num plural que não caberia na primeira pessoa. Não poderia me limitar ao eu se me vejo nas memórias do outro, tão espelho, tão nós. Nas esquinas tortas dos outros, na contramão do óbvio, me vi escritora, tão obediente às palavras quando nós somos às histórias do que queremos ser. Da redatora graduada em Publicidade (Unibh) e em Letras (UFMG), tão habituada em transformar marcas em pessoas (Petrobras, Direcional Engenharia, Grupo Seculus, Itambé e, hoje, MaxMilhas), sou recém-nascida das palavras pela publicação do meu primeiro livro: Controverso – Histórias que Beliscam.

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  1. O país
    Dos pais
    Para sempre
    Um pedaço
    De nós.

    Sair para o país
    Dos pais
    é mimgrar
    Percorrer águas
    Próprias
    Paisagens ex-conhecidas…

    1. O país dos pais é memória viva. Em tempos sombrios de histórias em chamas, saber que o país dos pais vive é um sopro de alívio. Obrigada por compartilhar ❤️

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