Comprar sem conhecer as histórias do produto não tem graça

 Foto: Pablo Caldeira

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Outro dia, na semana do meu aniversário, saí em busca de uma roupa nova. Entrei em três ou quatro lojas e, depois de passar por cabides e mais cabides sem ser atraída por nada, me senti frustrada.

Percebi que me fazia falta conhecer a história das pessoas que tinham feito aquelas roupas. Eu não sabia quais eram suas motivações, não podia fazer nenhuma pergunta, nem descobrir alguma curiosidade interessante sobre a marca. Eu não tinha certeza se os tecidos eram realmente duráveis e tampouco se as pessoas envolvidas na criação — quem estampou, quem cortou, quem costurou — haviam sido justamente remuneradas por isso. Desconfio que não. Desisti.

Faz pouco mais de um ano que a gente deu nome pra essa vontade de conhecer e iluminar o trabalho e as histórias de pessoas que criam iniciativas locais aqui em Belo Horizonte. Esse movimento ganhou o nome de Nossa Grama Verde: um convite a conhecer, cultivar e apreciar o nosso próprio quintal — mesmo que a grama do vizinho também esteja verdinha.

Tudo começou com um manifesto criado por umas 40 pessoas. De lá pra cá, mais de 100 marcas locais já participaram das nossas feiras independentes e a cada nova chamada nos surpreendemos com o número crescente de inscrições de novatos.

Hoje percebo que o momento mágico das feiras está nas conversas. Quando perguntamos para os expositores o que mais gostaram em uma feira, é comum ouvir respostas que ressaltam o interesse das pessoas em conhecer seu trabalho e as boas conversas entre os próprios expositores. Pela minha experiência frustrada nas lojas de roupas, arrisco dizer que essa troca é positiva para os dois lados: quem compra e quem vende.

“Tem crescido o número de pessoas que não quer comprar por comprar. Não é dinheiro pra lá e peça pra cá, tem uma história”, percebe Jonatas Aredes, criador da marca de camisas Santo Hype.

Para conhecer e contar essas histórias de pequenos produtores que vão participar da nossa Feira de Natal (informações abaixo) visitamos o ateliê de três marcas locais e gravamos o vídeo que você vê aqui.


Nossa primeira parada para gravação foi no bairro Jardim do Lago, em Contagem. Lá, Jonatas nos apresentou com carinho Ana Lúcia e sua família, que cortam, costuram e passam os tecidos que ele garimpa nos pontos mais diversos da cidade, transformando as estampas coloridas nas lindas camisas do Santo Hype.

Entramos na casa e caminhamos por um longo corredor. Ali tivemos a primeira surpresa: Ana havia construído um pequeno galpão com 15 máquinas de costura e de corte. No fundo, passava um rio. Algumas vezes nossa conversa foi interrompida pelo galo do vizinho, que despertava um pouco depois da gente.

De volta à região central de BH, fomos conhecer o oásis da Taísa Helena, criadora da marca de acessórios em cerâmica Entreamar. Enquanto acordava a argila, jogando repetidas vezes um bloco de massa na mesa e amassando-o com as mãos, ela nos contava o significado da cerâmica na sua vida.

“Trabalhar com a cerâmica me fez aprender a desapegar do que não é necessário, me prender ao que tem significado e saber deixar as coisas irem quando elas tiverem que ir. Percebi que a cerâmica era uma busca muito pessoal de todos esses pontos de paciência e de perseverança, coisas que eu buscava na minha vida o tempo todo.”  Parecia que ela só precisava mesmo de uma pergunta para nos surpreender com tantas sabedorias.

A chegada na terceira e última parada trouxe outra agradável surpresa: no 7º andar de um prédio na Avenida Afonso Pena, víamos de cima todo o Parque Municipal. Ali, na sala de casa, Mariana Marias montou o ateliê da marca de roupas infantis Agora Eu Era Herói.

“Eu resolvi criar uma marca de roupas infantis, mas queria que essas roupas pudessem ir além do vestir. Eu queria que elas contassem histórias brasileiras para as crianças.” A Mari mostrou pra gente seu caderno de pesquisa sobre a infância mineira e contou como se inspira para desenhar as estampas de cada roupa.

“Os melhores desenhos eu não encontro na tela do computador. Para fazer a coleção, fui à cidade mineira Rezende Costa e também resgatei memórias da minha infância no sítio do meu pai”, conta.

Conversando com o Jonatas, com a Taísa e com a Mariana, percebemos que trabalhar com o que você gosta é muito prazeroso, mas não é fácil. E que uma grande recompensa por esse esforço é o momento de encontro com as pessoas durante as feiras.

“Quando a gente trabalha sozinha, a chance de querer desistir é muito grande. Então quando alguém vai lá e te diz que o seu trabalho é legal e que aquilo que você faz é significativo, isso cria motivação, e essa motivação contamina. É um estado de espírito muito bom”, conta Mariana.   

Apesar de passar a maior parte do tempo na frente da tela do computador, escrevendo, planejando, organizando, são os dias de feira que estão entre os meus preferidos. Sair pra rua cedo com uma garrafa de café na bolsa, conhecer pessoas e histórias incríveis, ver a magia dos encontros e descobertas acontecendo me reafirmam: nossa grama já é verde e temos muita paixão por continuar.

Feira de Natal Nossa Grama Verde

Dias: sábado e domingo, 16 e 17/12

Horário: 10h às 19h

Onde: Galpão Paraíso 44

Endereço: Rua Cachoeira Dourada, 44, Santa Efigênia, BH

Entrada: gratuita

Evento: facebook.com/events/1787103764921908/

Mais informações: www.nossagramaverde.cc

Autor
Me encanto por conhecer as histórias das pessoas e criar pontes para que elas se conectem a outras histórias. Criei a HÚMUS: Adubo para Pessoas na intenção de trazer nutrientes para as pessoas se conectarem mais verdadeiramente consigo mesmas, com as outras e com o mundo. Também sou uma das criadoras do Nossa Grama Verde, um convite a valorizar o que é local. O movimento preenche meu desejo de olhar com abundância para BH, cidade que me abriga. Seja em projetos próprios ou em colaboração, gosto de me sentir instrumento para a mudança individual e coletiva.

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