A construção da verdade

 Foto: Alfred Aloushy via Unsplash

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Na vida real, tem sido cada vez mais comum o uso das técnicas de interpretação desenvolvidas para a encenação. Não são poucos os preparadores de elenco — os treinadores de atores —, que, mundo afora (e adentro) andam ganhando o pão, potencializando sujeitos para além da quarta parede — a linha imaginária que separa a mentira da realidade.

Tão potentes, é natural o bom e o mau uso de tais técnicas para a construção de verdades. Na arte, na arte de verdade, isso pode ser fabuloso. Daí, os sem números de artistas, de artistas de verdade, que nos transportam para os conflitos mais incríveis em jornadas de atravessar a alma. Quase todos, técnicos, muito bem treinados, tomados da vivência e dos estudos de nomes como Konstantin Stanislavski (1863-1938), Stella Adler (1901-1992) e Berthold Brecht (1898-1956) — para citar apenas três universais.

Para os dois primeiros, ator e personagem quase se confundem, já que um não existe sem o outro. Já Brecht, centradíssimo, fala em distanciamento, em absoluta consciência de papel, lugar e reflexão.

Depois deles, algumas centenas de milhares, em todo o mundo, também passaram a investigar novos mecanismos ou repensar métodos conhecidos. No Brasil, Fátima Toledo e Sérgio Pena fazem fama com suas técnicas sensoriais, com ampla projeção por meio da TV e do cinema.

Isso para dizer, que, poder extraordinário na construção de sentir os sentidos, as técnicas de interpretação se multiplicam. Só para ressaltar a provocação: é mais comum do que se imagina, em ano de eleições, atores contratados, aos montes, espalhados à esquerda e à direita, nos morros e nos asfaltos, vestidos de “gente de verdade”, plantando opiniões. Acredite. É sério.

Enquanto isso, na outra ponta da estratagema, candidatos ficam por conta de treinadores especialistas em bioenergética e oratória, em busca da performance infalível, com controle absoluto da respiração diafragmática e do menor movimento dos músculos faciais.

Longe da cena, portanto, num país sem rumo, todo cuidado é pouco diante de um sujeito bem treinado na construção de verdades.

Autor
Ator, jornalista e professor. Diretor da Casa do Ator; professor de interpretação da Rede Pitágoras (2000-2007); professor de teatro da PUC Minas (2000-2014). Em 1998 e 2014, com trabalhos em Cuba, Argentina, Alemanha, França, Espanha e Luxemburgo, fui curador do Festival Internacional de Teatro de Belo Horizonte (Fit-BH). Entre 2015 e 2017, diretor das artes da Fundação Municipal de Cultura. Diretor do Fit-BH, em 2016. Desde 1992, profissional de teatro, TV e cinema. Diagramador e repórter de cultura e cidades dos Diários Associados (1991-2015).

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